Sete anos depois de conquistar os espectadores com a comédia dramática “A Família Belier”, que entretanto até já teve direto a uma versão norte-americana, o realizador Éric Lartigau regressa às salas com um registo cinematográfico onde humor, romance e drama andam de mãos dadas, desta vez à rapidez das redes sociais.
Em “#JeSuisLa” (#estouaqui) acompanhamos Stéphane (Alain Chabat), um chef que trabalha no País Basco francês e que depois de iniciar um relacionamento virtual com Soo (Donna Bae) parte no seu encalço, aterrando em Seul. Soo nunca chega ao aeroporto e Stéphane vê-se sozinho no local durante vários dias, tornando-se inadvertidamente uma estrela das redes sociais.
Foi em Paris, ainda em 2020, que nos encontrámos com Lartigau, o qual nos falou um pouco da elaboração do filme que deverá conquistar muitos corações.
Depois do “A Família Bélier“, que foi um grande sucesso, sentiu algum tipo de pressão em voltar a contar uma história que fosse tão bem sucedida?
Depois de um sucesso há sempre a pressão de nos reinventarmos, mas isso não vem propriamente de mim, mas da indústria. O meu maior prazer na vida é contar histórias através de artistas que atuam nelas. Essa é a razão principal porque amo fazer filmes e é isso que quero continuar a fazer. Por tal, quando alguns indivíduos fazem essa pressão, mando-as calar (risos) ou passear.
Esta é a minha vida: adoro contar histórias e por isso não ligo a essas pressões.
E como começou a ser desenvolvido o #estouaqui ?
A ideia nasceu de um fait divers que o meu amigo e produtor Edouard Weil contou-me durante as férias. A história de um húngaro que iniciou uma relação virtual com uma chinesa nas redes sociais e, passados seis meses, decidiu partir para Pequim. Foi até lá e ela não apareceu no aeroporto. Ele começou então uma greve de fome e foi repatriado quatro dias depois.
Esta é a história original que inspirou esta obra, mas falei com o embaixador francês em Seul e ele disse-me que existem 3 a 4 casos destes por mês. Há muitos ocidentais que vão para lá nestas circunstâncias, dão por si sozinhos, ficam a vaguear até ficarem sem dinheiro e precisam ser repatriados.
Podemos dizer que existe um comentário social no filme, ou seja, até que ponto estas novas formas de comunicação virtual estão a mudar os relacionamentos humanos?
Estes novos meios de comunicação, as redes sociais, deixam espaço à imaginação e têm todos os perigos inerentes. Há tanto que podes construir com as tuas fotos, abrindo uma série de possibilidades à imaginação. Todo este mundo virtual pode ser utilizado como uma ferramenta de ajuda, mas também de forma errada. Como podes apaixonar-te virtualmente e cruzar aquela linha ténue entre realidade e ficção? No caso do meu filme, este homem crê que é o amor que o leva a partir para a Coreia do Sul, mas não é essa a razão. Ele vai por outras coisas, mas usa o amor como desculpa.
E como vê estas redes sociais e a criação de estrelas, que até podem nem saber que o são?
Sem saberem que o são… só por pouco tempo, pois começam a ser reconhecidos (risos). Sou fascinado pelos vídeos que os meus filhos me mostram, os quais conseguem 5 milhões de visualizações num par de dias. E são feitos por pessoas que não conhecemos de lado nenhum. Sou de outra geração e para mim isso é WOW!. 5 milhões de espectadores é assustador, em termos de visibilidade, mas também fascinante.

A relação virtual que o Stéphane e a Soo tinham não é vista, nem sentida, da mesma maneira por cada um deles. O filme mostra que algumas pessoas não se perdem nesse mundo, dedicam-lhe apenas uns minutos diários, enquanto outras fazem dessas relações virtuais uma parte importante da sua vida…
Sim e há também o efeito espelho, pois é ela que o traz novamente para a realidade. Este é também um filme sobre os limites, as fronteiras que se estabelecem nestes novos meios de comunicação virtual.
E o que procurava principalmente com o seu protagonista?
Não estava interessado numa personagem que estivesse à partida deprimida, angustiada e desesperada, a tentar fugir de algo; alguém que não vivesse a sua vida ou trabalhasse. Pelo contrário, queria que fosse uma pessoa positiva. Ele é alguém que mantém relacionamentos, fala com as pessoas, que compartilha prazeres, como os da cozinha. Ele adora tudo isso e eu pretendia que ele voltasse aos sentimentos primários.
Na verdade, ele está ao lado da realidade. Todos podemos fazer isso. Muitas vezes, quando estás com pessoas, podes inventar coisas, as quais te colocam apenas ao lado da realidade. E podes até ver coisas nas pessoas à tua volta que não gostas e criar uma nova realidade para ti, onde não estás com elas.
E o Alain Chabat era a pessoa ideal para isso?
Para este papel precisava de um ator que transmitisse uma ideia de adulto, mas que simultaneamente mantivesse algo de infantil e ingénuo. O Chabat, até quando está a andar, parece sempre surpreendido com tudo, que nem as crianças. Além disso, não faz julgamentos prévios, não começa uma relação com preconceitos estabelecidos. Ele é assim, aberto a novidades e surpresas. Às vezes até parece assustado com as coisas à sua volta.
E a escolha da Coreia do Sul e do seu aeroporto como principal local para a ação do filme, como foi? Como geriu isso e também lidou com as dificuldades de compreensão linguísticas e até culturais que encontramos nesses locais?
A Coreia do Sul sempre me fascinou. Parti, ainda antes do guião estar escrito, com o meu coargumentista para Seul e para esse aeroporto. Queria ir lá e mergulhar nele, naquela arquitetura. Sempre fui fascinado por aeroportos e estações de comboio, pois são locais de cruzamento de pessoas, odores e culturas de todo o mundo.
Aquele aeroporto é como uma cidade, tem tudo. Cabeleireiros, cinemas, tudo! Isso mostra também como os coreanos lidam com o dinheiro e a arquitetura, fazendo coisas que seriam impensáveis no ocidente. Por exemplo, em Seul existe um edifício com 200 andares e os primeiros 5 são apenas betão, não há nada neles. Até pensas: “que desperdício de espaço”. Tal seria impossível na nossa cultura.

