Mais conhecido por obras estilizadas e com alguns rasgos de ultraviolência como “Dobermann” ou “Vibroboy”, Jan Kounen tem nos últimos anos feito uma travessia bem distinta no cinema daquele que nos habituou inicialmente. Além de surpreender em 2009 com “Coco Chanel & Igor Stravinsky”, e de executar filmes como “As Aventuras de Blueberry” (2004) e “99 francs” (2007), o cineasta holandês nascido em Utrecht tem, particularmente na última década, apostado no universo da Realidade Virtual, produzindo obras como “Ayahuasca: Kosmik Journey” (2019). O objetivo era “explorar novas formas e desenvolver experiências profundamente sensoriais”, algo que Kounen sempre quis incutir no seu cinema.

Agora, Kounen regressa “à normalidade” e chega aos cinemas com uma comédia, “Mon Cousin” (O Meu Primo Desajeitado), um projeto bem distinto daqueles que nos habitou. ”É um filme muito diferente de ‘Vibroboy’ e ‘Dobermann’. É um projeto que chegou até mim por acidente.”, explicou-nos Kounan numa entrevista em janeiro passado: “Estava a trabalhar num filme de género com o Richard Grandpierre, que ajudou-me no ‘Dobermann’, quando ele me propôs fazer este filme. Disse-me que tinha uma comédia para mim com o Vincent Lindon e o François Damiens. Juntar estes dois atores numa comédia era um pouco assustador e fiquei desconfiado, mas quando li o guião encontrei coisas que achei interessantes, como o Lindon – que nos últimos anos andou em dramas sociais – a fazer de um grande patrão. Além disso, permitiam-se certas experimentações que os meus filmes anteriores tinham. A ideia de meter-me neste género de comédia, feita para o grande público, com uma grande camada onírica e delírios, levou-me a pensar se era capaz de a fazer. Mas havia algo em mim que me fazia regozijar pelo projeto, talvez ligado à minha ligação aos filmes da comédia francesa que via quando era jovem, mas que são bem diferentes do meu cinema. No início, quando me propuseram fazer o filme, achei que eram loucos (risos). Mas olhando para ele, e mesmo não o identificando à partida como algo que teria a minha cara, acho que existe uma doçura e uma delicadeza que também gosto muito. Gosto bastante dele, apesar de no início estar um pouco inquieto em o filmar. Era tipo quando vais a um encontro de gente formal e apareces de jeans (risos) ”.

Em “O Meu Primo Desajeitado”, Lindon é Pierre, o responsável máximo de uma grande empresa que dedica toda a sua vida aos negócios. Essa obsessão levou-o a descurar a vida pessoal, incluindo a sua relação com a esposa e família. Com a necessidade de voltar a reunir-se com o primo Adrien (Damiens), proprietário de 18% das ações da empresa que gere, Pierre não esperava que este se mostrasse tão interessado em ver-se envolvido nas decisões que tem de tomar. Uma reunião familiar que vai-se provar caótica, mas que também o fará voltar à sua infância, onde não era o trabalho o seu principal alvo. “Quando li o argumento não disse imediatamente sim. Disse que ia reflectir e propor algumas coisas”, explicou-nos Kounen.” Refleti e, por exemplo, olhei para os momentos em que o protagonista sonha (…) Não fiz nenhuma revolução no guião, apenas fiz ajustes em algumas coisas. Avisei que se não fosse possível mudar algumas coisas, não faria o filme, mas foram aceites. Preciso sempre de ter a certeza que a visão que tenho é compatível com o que querem. Aceitaram e durante dois meses trabalhei nesse guião com o Fabrice Roger-Lacan, que conhecia bem as personagens. Juntos e com o Vincent Lindon e François Damiens, que ofereceram algumas ideias e reflexões sobre o guião, elaboramos o guião final.”
Kounen trabalha de forma muito precisa no guião e mais que ter um método de trabalho que aplica aos atores, ele procura descobrir como cada ator trabalha para daí tirar o melhor deles. “Não há regras, há muito um ‘feeling’. És como um chefe de orquestra (…) às vezes dás indicações precisas, outras não. É uma espécie de ping pong entre o realizador e o ator. E muitas vezes captas dúvidas. Acima de tudo ajudas o ator a dar o melhor de si mesmo. É ele que faz o trabalho por ti”.
Doberman, um clássico com quase 25 anos

Anos depois de Scorsese lançar “Tudo Bons Rapazes”, de Tarantino executar “Cães Danados” (1992) e “Pulp Fiction” (1994), e de em Hong Kong nomes como John Woo brilharem em filmes de ação policial ultra-estilizados, na Europa prepara-se uma “resposta”. Se o Reino Unido ia responder em 1998 com “Lock, Stock and Two Smoking Barrels”, lançando a carreira de Guy Ritchie [que explodiria depois com “Snatch”], em França coube a Jan Kounen essa tarefa.
Em 1997 ele lança “Dobermann”, filme no qual Vincent Cassel (“Irreversível”) é um ladrão de bancos que recebeu a sua primeira arma no dia do baptismo. Ao seu lado, nesta aventura hiperbólica na ação, encontramos Monica Bellucci (“Irreversível”) no papel de uma sexy cigana surda. Fortemente inspirado também nos super-heróis e vilões dos Comics, onde armas, super-poderes e vestes ditam a personalidade e capacidades das personagens, em “Dobermann” seguimos como um gangue executa os seus golpes sempre com um sádico polícia amoral, Christini (Tcheky Karyo), no seu encalço.
“Dobermann” conquistou um estatuto de culto, levando a ideias de exportação para os EUA. E o projeto teve muito perto de acontecer, por volta de 2011-2012 . Na época, a Hannibal Pictures anuncia que Cassel iria participar no remake, antes mesmo do ator se pronunciar sobre o tema. Cassel não gostou, afastou-se e entra então Nicolas Cage para a discussão. O projeto esteve perto de avançar, mas derradeiramente sucumbiu devido à falta de financiamento. O mesmo foi contado numa edição de 2020 da revista Technikart por Joël Houssin, que acrescentou que o guião que escreveu chamava-se “Le Sang des flics ne sèche jamais” [“O sangue dos policias nunca seca“, em tradução literal]. Foi a partir desta hipótese de existir um remake norte-americano do filme e de Cage participar nele, que questionamos Kounen sobre esse projeto. O realizador confirmou a sua existência, mas diz que nunca teve nada a ver com ele. “Era uma ideia do produtor que detinha os direitos sobre o filme. Houve um momento em que quis refazer o filme, mas o Vincent [Cassel] não. Depois houve um momento em que o Vincent queria e eu não. O Doberman sem o Vincent não tem sentido, embora fazer um reboot numa minissérie com outros atores poderia ser interessante, mas de instante não tenho qualquer interesse nisso“.
Um cineasta sempre aberto a novas experiências: “O que me interessa é experimentar aventuras diferentes, sempre de coisas que me agradam contar. Todos os meus filmes são radicalmente diferentes uns dos outros e sempre com uma energia muito própria. Passei três anos a fazer filmes de realidade virtual, fiz uma minissérie, etc. Gosto sempre de situações cartunescas e no ”O Meu Primo Desajeitado” elas também existem. Gosto de riscos e a vida é curta. A única coisa que posso dizer é que ”O Meu Primo Desajeitado” não é um acidente. Se nos próximos anos vir-me a fazer ”O Meu Primo Desajeitado 2” ou ”O Meu Primo Desajeitado 3”, isso sim será um acidente, pois colocarei de lado um lado artístico que me interessa e não industrial.“

