Com um percurso “completo” no mundo da dança, onde se incluem passagens pelo Bolshoi, Royal Ballet, Ópera de Paris e La Scala, Sergei Polunin (Corvo Branco) aposta agora no cinema como o passo seguinte para a sua carreira.
Orgulhoso por ter em “Uma Paixão Simples“ o seu primeiro grande papel de protagonista, fora do registo de filmes com dança, Polunin surge no filme de Danielle Arbid no papel de um diplomata russo que se aventura numa relação extraconjugal com uma francesa. Um papel exigente, particularmente do ponto de vista físico, mas para o qual se sente muito bem preparado. “Cinema para mim é muito intuitivo. Nós lemos sempre guiões, mas não sabemos como as coisas que lá estão vão ser filmadas. A Danielle Arbid era muito apaixonada pela história, estava emocionalmente muito ligada ao material. Foi isso que me cativou (…) E ela ajudou-me muito”, disse-nos o ator no Festival de San Sebastian, acrescentando porque decidiu transitar da dança para o cinema. ”Na dança, estava num determinado nível em que completei um percurso. No cinema, ninguém me conhece e é bom não ser ninguém . É bom encontrar outra arte em que sabemos que existe um caminho a percorrer. Fisicamente consigo fazer tudo, pois como bailarino tenho o dom do movimento corporal. Uma luta, uma cena de sexo, são movimentos corporais, e sou muito bom nisso. As palavras sim, são verdadeiros desafios e algo de novo para mim. Algo que às vezes é assustador, mas sempre desafiante.”

Sobre a interacção com a outra protagonista, interpretada por Laetitia Dosch, com quem terá uma relação tórrida, Polunin explica-nos que a primeira cena que filmaram foi uma de sexo violento em cima de uma mesa, por isso rapidamente entrou no espírito das filmagens: “Foi uma cena dura. A minha personagem estava alcoolizada, por isso tive de beber uns cognacs para entrar no espírito. A Laetitia é muito natural, muito boa como atriz. E tem muito humor, o que facilitou as filmagens. Curiosamente, no dia seguinte foi pior. Há um momento em que ela está deitada na cama e eu tenho de me despir com aquelas luzes e câmaras a apontarem para mim. É assustador e muito mais desafiante que qualquer uma das cenas de sexo mais intenso. Era uma coisa simples, mas emocionalmente mais complicada”.
No futuro, o veterano dançarino, mas jovem ator, diz que vai procurar afirmar-se na 7ª arte, mas anseia por papéis com “conteúdo” e “mensagem”, mesmo que nesses filmes ele interprete o oligarca russo vilão que se banalizou no cinema mundial desde os tempos da Guerra Fria. “Se fizeres uma coisa apenas por dinheiro, ou simplesmente por fazer, provavelmente estás a desperdiçar o teu tempo. Talvez para algumas pessoas isso funcione, o ato apenas de ganhar dinheiro e fazer entretenimento, mas para mim tem de estar algo mais em jogo. Algo com significado e que te desafie. (…) Veja-se o filme “Joker” os movimentos de dança, a importância deles. Ou observe-se todo o cinema de Bollywood. Muitas vezes é apenas entretenimento, mas a linguagem da dança está lá na do cinema. É isso que quero explorar ”.

Já Laetitia Dosch tem um percurso no cinema francês já bem demarcado, onde personagens femininas “à beira de um ataque de nervos” estão bastante presentes. Veja-se por exemplo o filme “Jeune Femme”, onde logo a abrir somos confrontados com o seu desespero em tentar falar com o ex-companheiro que a abandonou.
Foi essa similaridade entre personagens, ou seja, o de mulheres desesperadas por causa de homens, que nos fez questionar a atriz – em jeito de provocação – para a sua escolha de papéis. Dosch deflete o nosso sarcasmo com o olhar, acrescentando a ele algumas palavras: “O que estou interessada é nas relações entre mulheres e homens. Creio que isso é um material extremamente rico como tema num filme. No “Jeune Femme’ temos uma mulher em busca da independência em relação a um homem, aqui temos outra que descobre algo de novo ou algo que tinha esquecido a partir da relação que tem. Ela descobre coisas que vão lhe trazer problemas.”
Para Dosch, trabalhar com Danielle Arbid foi algo de extremamente preciso, pois a realizadora cria um “quadro cinematográfico”, coloca os atores lá dentro e deixa-os atuarem: “Para mim foi muito agradável trabalhar com ela, pois no trabalho de ator – neste caso específico- tive de me rodear de sentimentos que nos fazem mal. Não é como numa comédia, como no Jeune Femme”.

E seria possível um homem realizar um filme assim nos dias de hoje, onde se fala cada vez mais no “male gaze”? Dosch crê que não, mas acrescenta que também já muitos homens filmaram estes projetos no passado. “Agora, a notícia é o facto de ser uma mulher a fazer um filme assim. Sim, é controverso ter uma mulher livre que é a amante e se deixa cair nesta situação. Tudo tem a ver com as nossas expectativas em relação ao cinema. Esperamos que o cinema nos dê exemplos de vida? De pessoas a seguir? De heróis? Eu não penso assim, embora acredite que ela é uma heroína e corajosa por viver aquela história. Se ver um filme que não é moralista, que coloca questões e incomoda é um “female gaze”, então parece-me bem“.

