O vizinho do lado: a estreia de Daniel Brühl na realização

(Fotos: Divulgação)

Estreado em Berlim, exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, “O Vizinho do Lado” (“Nebenan” no original) chega finalmente a Portugal através da KINO: Mostra de Cinema de Expressão Alemã, com exibição já esta quinta-feira, 27 de janeiro.

Respeitado antes pela sua carreira como ator, o teuto-espanhol Daniel César Martín González Brühl é agora aplaudido pelo seu exercício como cineasta.

Em 2003, “Adeus, Lenine!”, de Wolfgang Becker, fez dele uma promessa, que se concretizou (até em Hollywood) em “Sacanas Sem Lei” de Quentin Tarantino e em “Rush” de Ron Howard. Prestes a estrelar uma nova versão do romance “A Oeste Nada de Novo” (1929), de Erich Maria Remarque (1898–1970), Brühl destila vilania na série “ O Falcão e o Soldado do Inverno”, da Disney +, mas sabe rir de si mesmo quando busca reforçar o seu lugar de honra entre os intérpretes mais inquietos da Europa nos dias de hoje.

Autocrítica pura e aplicada, “O Vizinho do Lado” (“Next Door” é o título internacional) é uma espécie de “Birdman” jovial. Assim como na oscarizada dramédia de Alejandro González Iñárritu, a imposição de um filme de super-heróis como trilha para o sucesso de um ator é alvo de debate. Mas, diferentemente doa personagem de Michael Keaton, que vivia à sombra de um Batman de penas no sucesso de Iñárritu, o arrogante Daniel (encarnado por Brühl, na trama escrita por Daniel Kehlmann) ainda não tem uma Liga da Justiça em sua vida. Ele está a um passo de fechar um contrato para um projeto com vigilantes mascarados. Fala-se na presença num “Darkman 2”, sem conexões com o filme de Sam Raimi.

O ponto de “O Vizinho do Lado” é: para alguém que é lembrado por uma série de quinta classe, que fez na TV alemã, fazer cinema é um trampolim – mais para o estrelato do que para a realização. Mas Daniel tem filhos para sustentar e uma vaidade enorme para alimentar. Consciência pesada ou não, ele tem uma viagem a fazer e um contrato para assinar. Mas, para isso, uma cerveja ajudaria. Eis que ele entra num bar, mas tomara que tivesse escolhido um lugar diferente. Nada contra o atendimento ou as bebidas. O problema é que um dos clientes, Bruno (Peter Kurth), vem de um lugar parecido com o de Daniel e sabe que a gentrificação uniu os dois. E Bruno está sedento para falar disso. Entre os dois se estabelece uma relação especular feroz. É uma relação que Brühl desenvolve como numa peça teatral, onde os atos são separados por um arejamento do palco principal (o bar), com sazonais saídas dele, para respirar, para tentar ir embora.
É uma narrativa nervosa, que exaspera e transcende nossas expectativas, propondo um painel da Alemanha hoje a partir das angústias da sua população. Na entrevista a seguir, mediada pela Mostra, o C7nema interpela Brühl sobre que Alemanha ele buscou retratar.  

Com toda a sua prepotência, o ator vivido por si em “Next Door” parece um tipo solitário, isolado na sua ideia de arte e na sua visão por vezes autoindulgente. Qual é o conceito de solidão que circunda o processo de criação de um ator?

Nós, atores, somos cercado pela cobiça de pessoas que se acham no direito de descobrir tudo sobre nós. Eu não sou aquela personagem, mas ela é, de alguma forma, uma versão de mim, que tenta respeitar o meu cuidado em fazer do meu primeiro filme como diretor uma comédia que não soasse hermética. Quando se faz um primeiro filme, você se vê bombardeado por todo o tipo de dúvidas e de questionamentos, seus e dos outros. E é necessário ser preciso, ter retidão. O que eu, como ator, aprendi por meio das regras do meu ofício é que temos nossos momentos de desespero e que é preciso saber domá-los. Aprendi a me resgatar. Esta minha personagem, não.

A Porta Ao Lado” (“Nebenan”).

De que maneira a vaidade dele é um reflexo de uma certa vaidade alemã? Essa foi uma pergunta que o público da Mostra levantou nas redes sociais e em conversas ao fim das exibições em São Paulo, referindo-se a uma sensação de que a Alemanha é o motor da Europa, em termos económicos. O público sentiu esse orgulho na trama, na discussão sobre gentrificação e tradição. O que seria essa vaidade?

Queria mostrar extremos, entre eles a presença de um sujeito que é artista, mas que, ao mesmo tempo, em vez de seguir uma atitude libertária, entra num bar a falar alto, cheio de arrogância, sem se preocupar com as pessoas à sua volta. Ele é, de certa forma, a figura de um invasor, que é como o povo da antiga Alemanha Oriental olha a maneira como os alemães ocidentais agem no país. Daniel e o sujeito com quem ele bebe e discute (Bruno, vivido por Peter Kurth) são dois homens alquebrados pela História, por conta de um passivo cultural bem pesado. Daniel é o homem supostamente bem-sucedido que acredita ser capaz de fazer o que quiser. Essa é a sua vaidade. Talvez essa vaidade germânica de que falam se materialize mais nessa questão da invasão.   

“Adeus, Lenine!”

A sua carreira despontou mundialmente a partir de um sucesso de “Adeus, Lenine!” (2003), um filme que custou 6 milhões e que arrecadou 79 milhões, ganhou 36 prêmios e virou filme de culto. Esse filme ainda te assombra, mesmo depois de uma consagração em Hollywood?

De um sucesso sem precedentes, aquele filme poderia ter sido uma maldição, uma vez que, por anos, a imagem projetada nele fez que a Alemanha me engavetasse numa cómoda em que só me era oferecido o mesmo tipo de personagem, nos moldes do rapaz que eu vivo ali, testemunhando o torvelinho da História. Mas quando pude ir além dessa persona, passei a lidar de maneira feliz com “Adeus, Lenine!”, contente de ter feito um clássico. E é um filme que envelheceu bem. Quando um ator avança, tanto na idade quanto na profissão, e olha para trás, dá uma satisfação saber que ele pode olhar para o seu currículo e encontrar pelo menos cinco filmes que são relevantes. Isso já mostra que a carreira valeu a pena. Que compensou.  

Sacanas Sem Lei

Em 2018, a Berlinale assistiu a uma experiência sua ao lado de um brasileiro, José Padilha: “7 Dias em Entebbe”. Como foi o processo com o realizador de “Tropa de Elite”?

Ao contar aquela história sobre o passado, ele injetou a década de 1970 nas nossas veias. Ao mesmo tempo em que é cirurgicamente preciso nas suas decisões, José compartilhava connosco uma liberdade quase anarquista para que inventássemos.

Falando em inventar, depois da experiência de dirigir, o quão livre você se sente como ator?

A direção faz-nos ficar mais humildes e reclamar menos de detalhes que não vemos quando só atuamos. Contar uma história é uma tarefa árdua. 

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