Eugenio Puppo: “O regime militar foi como uma sombra que se abateu sobre o Brasil”

Exibido no Doclisboa, "O Bom Cinema" abordou um período muito rico da história do cinema brasileiro.

(Fotos: Divulgação)

Emergido nas ruínas de um Cinema Novo cada vez menos interessante e fechado, os filmes que foram agrupados retrospetivamente sob o rótulo não muito consensual de “cinema marginal” faziam um interessante contraste entre a procura por um cinema tecnicamente eficiente (o “bom cinema” do título) e a de cineastas que achavam que deviam produzir obras “mal feitas” mesmo, entre os que pretendiam um cinema mais intelectual e aqueles que se direcionavam para o popular, na intersecção de um singular encontro com a Boca do Lixo e a futura pornochanchada.

Como pano de fundo, as sombras de um sinistro regime militar que, apoiados no AI-5 de 1968, atacavam ferozmente as liberdades individuais. Esses e outros são os temas da entrevista do cineasta Eugenio Puppo ao C7nema.

O Cinema Marginal surge como uma reação ao Cinema Novo. Segundo diz Carlos Reichenbach, este estava ficando cada vez mais fechado em si próprio e desinteressante. Apesar de vir de um núcleo de artistas conscientes, a ideia era então fazer um cinema popular…

Primeiramente, devo ressaltar que o termo “Cinema Marginal” é muito polémico. Não há nenhum consenso sobre o que ele significa exatamente e quais cineastas poderiam ser considerados como parte desse movimento. O Bom Cinema tem um enfoque muito claro de fornecer um recorte desse movimento, mais voltado ao cinema da cidade de São Paulo, mas houve “cinema marginal” ou “cinema de invenção”, “cinema pós-novo”, em muitos outros lugares do Brasil.

A visão específica de Carlos Reichenbach sobre o que o motivou a fazer aquele tipo de cinema em seu início de carreira diz respeito exclusivamente a si próprio. É uma espécie de tentativa de explicar essa força que moveu sua criatividade naquela época. Isso ocorre muito em cinema e nas artes em geral, uma oposição a um estado de coisas insatisfatório, a uma inércia da produção. Assim, ele optou por esse cinema de maior apelo popular.

Também tem relação com a história pregressa de Reichenbach. Ele conta em entrevistas que, durante sua infância, costumava frequentar os cinemas do Rio de Janeiro e de São Paulo para assistir a chanchadas, um gênero de comédia musical produzido especialmente na década de 1950.

Por um lado há uma ideia, como diz Reichenbach no caso d’As Libertinas, em fazer um cinema mal feito mesmo. Essa ideia contrasta com outra perspetiva, que dá nome ao seu filme, vinda das escolas e que pretendia fazer um “bom cinema” – tecnicamente falando…

Sim, o filme trabalha um pouco com essa premissa, de produzir questionamentos a partir desse contraste entre o “mau” e o “bom” cinema, como esses conceitos mudam de acordo com o ponto de vista e com as intenções de quem produz esse julgamento estético. Eu considero especialmente interessante essa iniciativa ambiciosa da Igreja Católica, de, através do ensino formal, promover a evangelização, claro, mas também o desenvolvimento do apuro estético, quase uma missão civilizatória.

Por isso é muito irônico pensar que essa iniciativa indiretamente resultou em um cinema deliberadamente “ruim” e provocativo, que propõe a ironia e a autorreferência como estratégias de afirmação de uma posição, da defesa de um modo despretensioso de viver.

O filme retrata também a interligação entre esses novos realizadores, muitos deles intelectuais e a Boca do Lixo, que acabaria por gerar uma indústria bem-sucedida ao longo dos anos 70 com obras com forte apelo popular. Como vê essa relação?

Houve essa ligação, mas a trajetória da produção da Boca do Lixo é bem mais tortuosa. O que O Bom Cinema tenta mostrar é que existiu uma relação de mutualismo entre aqueles que queriam fazer um cinema mais intelectualizado e outros que desejavam produzir um cinema mais popular. Em algumas ocasiões essas vertentes convergiram e resultaram em obras muito originais, profundas, mas também comercialmente bem-sucedidas. Aquele ambiente era capaz de impulsionar esse encontro.

Há uma relação também com a política da época. A altura do surgimento destes autores do chamado “cinema marginal” coincide com o endurecimento da repressão militar…

Esse momento de repressão militar é como uma sombra que paira sobre o país e afetou com muita força esse cinema mais transgressor produzido na virada dos anos 1960 para os 1970. Muitos artistas foram perseguidos, os filmes eram censurados, tinham trechos inteiros removidos, os negativos eram confiscados. Era um clima de ameaça constante.

Esse gesto “marginal”, de estar à margem da produção oficialmente aceita, funcionava também como uma forma de resistência à criminalização do livre pensamento. Encontrava-se meios de se produzir, apesar de tudo.

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