Um dos nomes mais vincados em autoralidade no cinema belga atual é o de Fabrice Du Weltz, cujos filmes várias vezes procuram entender as mudanças comportamentais humanas perante eventos dramáticos aterrorizantes e traumatizantes. E o seu mais recente filme, “Inexorable”, mostra isso mais uma vez.
O realizador da trilogia das Ardenas, que inclui “Calvaire”, “Aleluia” e “Adoration”, leva-nos agora um jogo de mentiras e obsessões onde os thrillers eróticos dos anos 90, como “Atração Fatal”, “Jovem Procura Companheira” e “Instinto Fatal”, servem de inspiração para o regresso de alguém que há muito andava desaparecido do cinema, especialmente no pós #MeToo : a mulher psicótica e tóxica. Cabe à jovem atriz Alba Gaïa Bellugi prosseguir com o legado deixado por atrizes como Glenn Close e Jennifer Jason Leigh, aproximando-se no filme cada vez mais da personagem de Poelvoorde, um escritor famoso casado com grandes segredos por revelar.

“Creio que este filme foi uma reação ao meu anterior, “Adoração“. Queria fazer algo mais clássico”, disse-nos o cineasta numa conversa por Zoom hoje, acrescentado que queria jogar com todos os elementos dos thrillers eróticos do passado para contar uma história do presente. “Mais que o retrato de uma mulher, é o retrato de um mentiroso como aqueles que Balzac descrevia. Não me comparo a Balzac, mas queria mostrar a complexidade de um homem cujas mentiras têm um enorme impacto em todos. A Glória [Alba Gaïa Bellugi] é uma representação dessas mentiras, um fantasma, uma figura espectral. Sim, o filme é uma expressão do meu amor pelos thrillers dos anos 90, mas também pelo Giallo e filmes japoneses, como os do Hideo Gosha.”
No cinema de Du Welz, todos os elementos visuais e sonoros, mais que adereços complementares, têm uma história para contar, sejam eles as cores, a luz ou o próprio design de produção. “O meu trabalho é sempre da mesma maneira. Sou muito próximo do meu diretor de fotografia, Manuel Dacosse, e do meu diretor artístico, Manu de Meulemeester. No início estudamos sempre as locações e apaixonei-me por aquela mansão, mesmo sabendo que seria muito problemática do ponto de vista de produção. Chegamos à conclusão de filmar lá (…) retiramos o mobiliário, até ficar quase vazia. Depois trabalhamos nela de forma a que oferecesse ao filme um elemento muito forte, quase como se fosse uma personagem. Com os meus colaboradores trabalhamos sempre nas texturas, na iluminação, etc. E na forma como casamos os atores com a luz e o lugar das filmagens. (…) Sou muito fascinado pela iluminação e surpreende-me muito quando os realizadores não dão a isso a importância necessária (…) Era importante, tendo em conta que a ação decorre quase toda na casa, esse trabalho de iluminação, não para que ficasse bonito. Não me interessa que as coisas fiquem bonitas, mas que essa luz dê relevância a algo, como a natureza da psique das personagens.. A luz expressa algo. Luz é dramaturgia, tal como vemos num quadro de Vermeer, Bosch ou Goya. Com o uso da luz, há algo que mostras e algo que escondes. Toda a minha equipa se preocupa muito com isso. (…) Neste filme tento reverter um pouco o meu anterior e construir uma verdadeira tensão. Por isso trabalhei muito com o argumentista e depois com o montador para construir, passo a passo, essa tensão. Amor, obsessão e vingança estão no filme, tal como nos meus anteriores, mas isso faz parte das minhas obsessões como cineasta. ”
Esse cuidado que se denota no visual tem a mesma força quando partimos para o trabalho sonoro, onde o ecoar de Vivaldi remete para um tom mais clássico, mas uma cena em particular, onde uma jovem “explode” numa coreografia intensa ao som de Heavy Metal, reconfigura todo o filme. “Essa cena expressa de uma forma muito cinemática algo não literal, mas que demonstra alegoricamente que toda a raiva que a personagem tem em si não consegue ficar contida dentro dela. Essa raiva tem de se expressar, explodir. (…) Essa cena leva o filme para outro nível, expressando com exatidão o ponto de vista de todas as personagens.”

Já no trabalho com os atores, Du Welz confessa que a Benoît Poelvoorde não deu particulares orientações de como construir o seu escritor enredado num novelo de mentiras, mas que à jovem Alba Gaïa Bellugi deu algumas instruções de onde podia tirar inspiração para a sua personagem: “À Alba mostrei-lhe a Isabelle Adjani no “Possessão” e no “L’été meurtrier”, além da Jessica Harper no “Suspiria”. Ela tinha uma fragilidade e uma raiva em si que eu adorava. Tem um rosto muito cândido e muito intenso. Essas dicotomias atraíram-me”.
Além de fazer ressurgir a mulher psicótica clássica do cinema, especialmente dos anos 90, que tem andado desaparecida da 7ª arte especialmente depois do #Me Too, “Inoxerable” contém em si algumas cenas de sexo que se fossem filmadas numa produção norte-americana requeriam certamente a nova figura dos “cordenadores de intimidade”. Quando questionamos Du Welz sobre isso, sobre o dito “male gaze” e se hoje em dia, de alguma forma, ele pratica em si alguma autocensura no que escreve e filma com medo da “cultura do cancelamento”, a resposta do cineasta foi inequívoca: “Que se lixe isso tudo”.
Para Welz, todas essas discussões são boas, mas diz que não está preocupado com o excessivo moralismo americano e que procura fazer o inverso do que apregoam. “Moralidade na arte é uma coisa terrível. A ‘cancel culture’, o movimento woke não tens sido bom [para a arte]. É algo que vai passar ou talvez piorar. Sinto-me aterrorizado com tudo isso. Não quero ser aquele velhote rabugento a falar disto, mas muitas vezes não percebo o burburinho. Por isso, prefiro não comentar e não me distrair. Tento manter-me focado no que estou a fazer. Daqui a 20 anos toda essa conversa do ‘male gaze’ e outras tretas vai desaparecer, por isso o importante é manter o foco. Cinema é uma expressão de desejo. Cinema é libido. Cinema é sempre tensão. Veja-se o quão aborrecido é o cinema americano hoje em dia. Claro que não todo, mas muito dele. E é porque não existe a mínima tensão sexual. O cinema com que cresci era um cinema cheio de tensão sexual. Claro que te tens de comportar como deve ser, mas existem leis que previnem esses maus comportamentos. Tens de trabalhar com o desejo para colaborar com os atores. Tens de te comportar bem, ser um cavalheiro, mas todo este moralismo… Bem, tento focar-me antes na poesia”.
O próximo projeto de Fabrice Du Welz é “Maldoror“, livremente inspirado no caso Dutroux, com Benoît Poelvoorde novamente com um papel de destaque. A intriga girará em torno da investigação conduzida por um jovem policia, Paul Charlier, obcecado pelo caso de um famoso pedófilo depois de ter estado muito perto de prendê-lo.

