Sem sombra de dúvidas, um dos maiores nomes do cinema francês e europeu das últimas décadas responde pelo nome de Isabelle Huppert

Nascida em Paris há 68 anos, a atriz tem deixado a sua marca na História do Cinema através de papéis memoráveis e duros de interpretar, como vimos em “Ela” de Paul Verhoeven ou “A Pianista” de Michael Haneke. A sua capacidade incrível e camaleónica em atravessar géneros cinematográficos já lhe valeu dezenas de nomeações e vários prémios, incluindo estatuetas nos Césars e Globos de Ouro, além da distinção de melhor atriz em Cannes.

Longe da dureza habitual que os seus papéis exigem, Huppert surge a partir do dia 23 de setembro nas salas de cinema em “La Daronne” (Agente Haxe), uma comédia que não se esgota nas gargalhadas que a sua personagem provoca e vai bem  além do que o espectador podia esperar. “Tenho participado nestes filmes mais cómicos porque a própria abrangência da comédia tem se alargado. Este filme é um bom exemplo. Isto, para um ator, permite mais espaço, pois não te focas apenas em ser engraçada”, explicou-nos a atriz numa entrevista em Paris, em janeiro de 2020, um pouco antes de chegar a pandemia Covid-19 e adiar a estreia desta obra em quase um ano.  

No filme ela desempenha o papel de Patience Portefeux, uma viúva e mãe de duas filhas que tem ainda nas suas despesas o cuidar da mãe. Tradutora de franco-árabe na brigada de narcotráfico, onde é responsável pelas escutas telefónicas, Patience decide infiltrar-se nas maquinações de um grande negócio de drogas, embarcando numa carreira totalmente nova: a de “Madrinha” do crime organizado e negociante de drogas. “Quando li o livro não vi imediatamente uma comédia. Claro que o filme é muitas vezes engraçado e seguimos sempre a ideia dela disfarçar-se de uma pessoa que não é. Normalmente essas são marcas das comédias no cinema, mas para mim esta obra vai mais além, até porque a personagem é muitas vezes melancólica e complexa. (…) Deparei-me com o livro em que o filme é baseado quando ouvi a autora, Hannelore Cayre, numa estação de rádio. Fiquei impressionada com o que ela disse, então saí a correr para o comprar. Achei-o ótimo e aproveitando o facto de ter combinado trabalhar com o Jean-Paul Salomé, aceitei este papel.”

Além de uma transformação física inevitável, um dos maiores desafios que Huppert enfrentou foi o de aprender a falar árabe, embora confesse que “não conseguiria responder às nossas questões nesse idioma”, até porque a aprendizagem foi muito em torno da sonoridade das palavras que teria de dizer quando assume o papel de uma negociante de drogas que atua numa zona predominantemente árabe da cidade. E apesar do seu papel evocar outro do passado (Rien ne va plus, 1997), onde também aplicava  a arte do disfarce, Huppert diz que só depois pensou nessa relação, pois um ator nunca verdadeiramente olha para trás quando assume um papel: “Cada filme é uma aventura em si mesmo. Quando és ator não tens passado. O passado é um conceito do espectador, não de um ator. Um ator é o momento em que atua e quando as filmagens culminam, termina completamente esse papel e segue em frente”. 

Uma carreira impressionante


Com quase 150 créditos de atuação entre cinema e televisão, Isabelle Huppert considera-se uma sortuda, uma privilegiada e definitivamente “muito esperta“. Quando questionada se alguma vez na vida passou por um momento difícil ou sentiu algum tipo de dependência para trabalhar como atriz, a sua resposta foi taxativa: “Fui muito sortuda ou privilegiada, como quiserem chamar. Nunca enfrentei uma situação difícil nesta profissão. Quanto mais oportunidades existirem para mulheres, melhor para mim, mas no meu caso nunca tive de me meter atrás ou ao lado de um homem para fazer o que fiz, ter a carreira que tive. Tive muita sorte, acho eu.