Ator brasileiro de maior projeção em Hollywood há duas décadas, com sucessos como “300” (2007) num currículo repleto de séries de culto (“Lost”, “Westworld”), Rodrigo Santoro regressou a Veneza, duas décadas depois da projeção de “Abril Despedaçado” na luta pelo Leão de Ouro de 2001, com um outro olhar sobre as mazelas sociais do seu país.
“7 Prisioneiros”, de Alexandre Moratto (de “Sócrates”), leva o astro de 46 anos ao universo do tráfico humano. A trama explora a situação de trabalho análogo à escravidão perpetuada no Brasil por meio da história de um jovem recém-saído do interior, Mateus (Christian Malheiros), que, em busca de uma oportunidade para melhorar de vida, vai parar num ferro velho de São Paulo. Mas o seu novo emprego se revela uma cilada, da qual o personagem de Santoro faz parte.
Elogios da imprensa estrangeira coroaram a passagem da longa-metragem pelo Lido, na secção Orizzonti Extra. Em novembro, esse drama terá uma estreia comercial, via Netflix. O seu êxito na terra das gôndolas é simultâneo à boa recepção à mais recente incursão de Santoro na teledramaturgia: a versão brasileira da série “In Treatment”, protagonizada e dirigida por Selton Mello, com base num original da TV israelita. Na conversa a seguir com o C7nema, Santoro fala de Moratto, da sua lembrança do “Abril” de Walter Salles e do futuro.
Que Brasil o Moratto propôs para si – e para o mundo – em “7 Prisioneiros” e que relevância social vê nesse projeto?
Estamos a trazer à tona um tema real e indigesto, que é o tráfico humano e o trabalho em condições degradantes. O filme revela essa camada de um Brasil que priva as pessoas dos seus direitos adquiridos e não apresenta saída para quem está vulnerável, nem investe em políticas públicas, a longo prazo, para que essas pessoas encontrem base sólida para caminhar. Nesse sentido “7 Prisioneiros” faz um retrato de como o abismo social, produto desse sistema excludente, pode relativizar conceitos éticos e valores. O espectador fica com a pergunta: Quem é culpado e quem é inocente quando estamos falando de sobrevivência?

O filme de Alexandre Moratto estreia na mesma Veneza onde Tonho, a sua personagem em “Abril Despedaçado”, desafiou o seu próximo destino. Que saudades você carrega daquele filme de Walter Salles e que lições ele te deixou para a vida?
Faz 20 anos! Tanta coisa aconteceu. Fazer o “Abril Despedaçado” foi uma experiência inesquecível. Um mergulho de quatro meses no sertão do nosso país, uma terra com tantas belezas e tantos contrastes que, certamente, ajudou-me a humanizar o Tonho. Aprendi muito. Começando com a realidade que tinha a minha volta, além da grande equipe e elenco que tínhamos. Eu estava começando no cinema, sempre muito curioso, e tive a honra de trabalhar com Walter Sales, Walter Carvalho, Ze Dumont…
Você está esplendoroso na nova temporada da série “Sessão de Terapia”, no ar no streaming Globoplay, realizando algo que me parece um desejo antigo, o de ser dirigido por Selton Mello, um ator da sua geração, que despontou nos anos 1990, como você. Lembro-me do seu encanto com o primeiro filme dele, “Feliz Natal”, na sessão de estreia, no Cine Palácio, no Festival do Rio de 2008. O que Selton te trouxe de mais desafiante?
A minha amizade com Selton começou em 1993, na novela “Olho no Olho”. Ao longo dos anos, a nossa amizade amadureceu e se solidificou. Há muito tempo que tínhamos o desejo de encontrarmos algum projeto para trabalharmos juntos. E, no meio da pandemia, ele me procurou para fazer esse convite. A experiência de atuar com ele… e ser dirigido por ele… ao mesmo tempo, foi absolutamente única. E também foi desafiadora, em alguns sentidos. Primeiro porque temos bastante intimidade. Mas, ali, eu estava fazendo o papel de terapeuta da personagem dele. Era necessário um distanciamento que, na vida, não temos. Além disso, o Selton trabalha muito com improviso, e me propôs uma experiência mais livre nesse sentido. Foi lindo.
O que a gente espera do teu futuro nas telas para os próximos meses? Séries, filmes, novelas?
O próximo trabalho a estrear é justamente o “7 Prisioneiros”, em novembro, na Netflix. No ano que vem, estreia também a série “Sem Limites”, na Amazon. Tem quatro episódios e conta a história de Fernão de Magalhães e a primeira circunavegação ao redor da Terra.
(Texto originalmente publicado em setembro de 2021)

