A New Old Play: mais que um filme, uma grandiosa obra de arte visionária

(Fotos: Divulgação)

Não é apenas um filme, mas uma grandiosa obra de um artista e um visionário.” Assim é descrito no site do Festival de Locarno o filme “Jiao ma tang hui” (A New Old Play), projeto do artista contemporâneo Qui Jiongjigong que faz uma sentida homenagem ao seu avô, um performer da Ópera de Sichuan, a uma forma de arte extinta e apenas presente para turista ver.

Movendo-se entre o teatro, a pintura e o cinema experimental, Qui Jiongjigong assina um épico que acabade receber o prémio especial do júri na Competição Internacional do Festival de Locarno.

Falamos sobre o seu filme com Qui Jiongjigong, o qual nos levou aos meandros da história pessoal familiar, mas também da Ópera de Sichuan e da história da própria China. E conversamos ainda sobre a sua condição de autor numa indústria com tendências cada vez mais comerciais, além de ambos tentarmos prever se o cinema é uma nova forma de arte progressivamente também a desaparecer.

Antes de mais parabéns pelo  filme e pelo prémio. Qual foi a sua principal intenção ao criar este filme?

A intenção de criar este filme veio do meu avô que era palhaço numa trupe teatral. Para mim foi muito natural usar a gramática da ópera neste filme. Por isso temos uma grande presença de teatralidade, tal como de música e pintura.  Nisto, inspirei-me principalmente na Ópera de Sichuan, mas também nos primórdios do cinema para criar esta obra.

E quanto da história do seu avô está neste filme e quanto é puramente ficção?

Genericamente, todas as sequências que acontecem no Inferno têm uma origem completamente ficcional, mas a história central vem da vida do meu avô. Claro que usei alguns métodos surrealistas para apresentar essa história. Era minha intenção usar este estilo como escolha estética para prestar homenagem à Ópera de Sichuan e às pessoas dessa localidade. Elas são sempre muito alegres e otimistas, mesmo quando têm de lidar com muitas dificuldades.

Também me inspirei no início do cinema. Adoro as performances do Charlie Chaplin e Buster Keaton e podemos ver essas influências no filme. A literatura também influenciou-me e cito por exemplo Boccaccio também como influência.

No essencial, o que procurava era poder me expressar pois sinto que nos dias de hoje existe uma grande falta de interesse na expressão individual. Por isso mesmo no filme vemos temas surrealistas, como aquela cena no restaurante em que um jovem prova a  sopa de cogumelos e de repente consegue voar. Isto, claro, é ficcional, mas achava interessante expressar isso. 

E falando dessa falta de interesse generalizado da expressão individual, porque acha que isso está a acontecer?

Talvez seja pelos temas em questão (risos). Não sei a razão exata mas sou frontalmente contra isso. É por isso que enfatizo muito no meu filme a forma artesanal de fazer as coisas. Cada decor no meu filme é feito à mão por mim e pela equipa. Quero desta maneira que a audiência sinta a marca de um autor, um artesão..

E como foi misturar a história da trupe com a história da própria China?

Claro que a experiência do meu avô e do protagonista do filme estão fortemente conectados com a História da China em si. São elementos inseparáveis, tal como as performances da trupe e a sua vida fora do palco.Cresci no meio deles em Sichuan, testemunhando as performances do meu avô e interagindo com os seus amigos. Essa interação, dentro e fora dos palcos, está interligada e por isso vemos no filme as duas vertentes combinadas. 

Decidi também narrar  tudo isto sob a perspectiva de um palhaço. Não interessa se dentro ou fora de palco, queria usar este toque humorístico para abordar esta história aparentemente negra. E vão sentir a tristeza e sentimento de deslocamento do protagonista, mas ainda assim uso uma abordagem ligeira com humor e uma atmosfera positiva para falar destes problemas. Vejo isto como uma forma de desconstrução e de manifestação da minha atitude para com a História. E isto também reflete a atitude das pessoas de Sichuan, que é uma região muito particular e única na China. As suas gentes são muito extrovertidas e otimistas. 

No fundo quero fazer este filme como se fosse um prato da nossa cozinha, onde consegues sentir o sabor do local e das suas gentes. 

E qual foi para si o maior desafio?

O primeiro grande desafio foi interno. Como posso me superar e desafiar-me para tornar este filme o mais interessante possível. O segundo desafio veio do exterior, pois as condições de criação eram muito limitadas para todos. Por isso o meu pensamento era: como aproveitar ao máximo o que tínhamos para fazer este projeto enorme acontecer? Além disso, como sou um artista contemporâneo, o que queria mesmo era construir uma conversação com os tempos modernos e a arte. Construir esta conexão foi também difícil. 

Finalmente, chegamos ao quarto elemento, o mais desafiante e importante. Como fazer este filme com um orçamento tão limitado? Queria fazer tudo trabalhado à mão. Não queria consumir recursos e pretendia fazer as coisas com baixo consumo de carbono, mas de forma eficaz. Foi complicado.

Pegando novamente no filme, que aborda uma forma de arte em extinção, será que daqui a muitos anos o seu neto vai fazer um filme inspirado em si e a ligação que tem a uma arte também em extinção, neste caso o cinema?

Bem, primeiro muito obrigado por me poder considerar como um representante do cinema; como um representante do formato cinematográfico. Esta forma de arte, a Ópera, não existe mais e tornou-se um elemento simbólico e estereotipado de performance. As pessoas agora fazem este género de performances apenas como uma atração turística. Para atrair mais pessoas usam truques, como fogo, etc, para chamar mais turistas. 

Para mim a verdadeira essência da Ópera de Sichuan é a construção de um espetáculo em perfeita conexão entre a audiência e os atores. Em frente aos atores, a audiência pode rir, chorar e até adormecer. Não interessa. Nesse aspeto, a Ópera de Sichuan e o cinema partilham a mesma energia, o que significa que se observas um filme de três horas num cinema, numa sala escura, constróis como espectador este género de relação com o criador.

Creio que se a situação não melhorar no futuro no que diz respeito à pandemia, as plataformas de streaming serão cada vez mais fortes e vão assumir o papel principal. Talvez a geração do meu neto possa usar a arte do streaming ou do Tik Tok para fazer um filme sobre mim e esta arte a desaparecer que é o cinema.

Falando da sua obra como autor, nós estamos habituados a ver na China especialmente cinema de ação, filmes de guerra patrióticos e ficção científica de grande escala. Onde se posiciona nessa indústria?

Sou um artista contemporâneo e por isso o meu trabalho é sempre uma forma pacífica de protesto. Essa indústria tem muitas limitações para os criadores. Para mim, a câmara é igual a um pedaço de papel. Uso a câmara para fazer à minha maneira a minha escrita, a qual é ainda muito pessoal. O meu filme não tem espaço no cenário atual do cinema chinês. É apenas uma obra artística pessoal.

E como é se sentir um autor nesse meio.?  Consegue viver disso?

Claro que existem dificuldades financeiras, mas a principal questão é que quero fazer este tipo de filmes porque quero ver este estilo de filmes. É minha responsabilidade isso acontecer. Felizmente, com a ajuda de amigos que partilham o mesmo pensamento e objetivo, conseguimos fazer isto continuamente. Como também tenho outro trabalho como artistica contemporâneo, este trabalho fornece-me alguns meios financeiros para viver e ainda trabalhar como cineasta.

E o futuro? Já tem um novo projeto? Vai continuar a misturar pintura, teatro e cinema na sua obra?

Sim, vou continuar. Tenho um novo projeto em mente que vai misturar o que mencionaste Diverti-me neste filme e vou continuar a ser como sou, mesmo que o futuro seja imprevisível. Vou encarar isso como uma aventura.

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