Voo Para a Liberdade: irresistível conto ambiental e familiar

O filme estreia nos cinemas a 22 de julho

(Fotos: Divulgação)

Chega esta semana aos cinemas nacionais o filme “Voo Para a Liberdade”, um projeto de aventuras com grande incisão em questões ambientais que se baseia na história verídica de Christian Moullec, que há 20 anos fez uma viagem de ultraleve da Lapónia a França, guiando um grupo de gansos selvagens em risco de extinção por um novo caminho que evitasse ao máximo os condicionalismos e perigos que o Homem colocou na rota original da viagem.

A esta história verdadeira, Nicolas Vanier, realizador de filmes como “Bell e Sebastião”, juntou elementos de ficção, como a presença de um adolescente (Louis Vazquez) que terá de passar o verão com o pai (Jean-Paul Rouve) e que é arrastado para esta aventura que o vai ligar à família mais do que nunca. Um filme doce e relevante do ponto de vista da proteção da natureza.

Foi em janeiro de 2020 em Paris que nos encontramos com Nicolas Vanier, que nos explicou a origem do projeto e as dificuldades que encontrou em filmar esta obra sem recurso a imagens criadas por computador. É que em “Voo Para a Liberdade” os gansos que vemos em cena são reais; verdadeiros atores e figurantes do filme de Varnier.

Antes de mais, o que o atraiu a esta história?

Ouvi falar da aventura do Christian há 20 anos quando aconteceu e há três anos, através de uma amigo em comum, conheci o Christian e ele levou-me a voar com os gansos num ultraleve. Dei por mim no meio desses gansos e queria partilhar essa experiência incrível. O Christian também me contou a sua aventura em detalhe e desde aí nunca mais parei de imaginar levar isto ao cinema. 

Nicolas Vanier

E como foi voar com os gansos?

Nunca imaginei o quão incrível e comovente poderia ser voar com os gansos. Durante a minha vida trabalhei muito com os animais, inclusivamente pássaros, mas poder voar com os gansos, tocar-lhes, ver as suas estratégias diferentes, a sua entreajuda e até diferentes personalidades, foi algo além de qualquer expetativa.

Muita da crítica britânica classificou-o como a resposta francesa ao David Attenborough. O que acha dessa comparação? 

É sempre bom ser comparado a alguém que faz algo como ele fazia e é bom saber que existem pessoas um pouco por todo o lado que fazem trabalhos sobre o mundo natural.

E como filmou tudo? São gansos reais ou há imagens em CGI?

Tecnicamente e no papel, este é o tipo de filme em que faria muito mais sentido usar CGI, mas eu não queria isso. Isto não faz parte da minha identidade. Gosto de usar animais verdadeiros e condições atmosféricas reais. Por exemplo, quando filmamos o frio estamos mesmo com frio. Creio que a própria audiência pode ver no CGI que existe um afastamento do elemento do real, por isso filmei verdadeiramente os gansos, o real.

Tendo em conta que usa animais reais, se eles não fizerem o programado, o que acontece? Ou seja, foram precisos muitos takes das cenas?

É muito complicado filmar assim e precisamos de ter muita paciência. Os gansos às vezes não querem voar, seja pelas condições meteorológicas, seja por outras razões que não sabemos quais. Também não conseguimos treiná-los como aos cães, por isso resta-nos usar outras técnicas naturais para encontrar maneiras de os encorajar a voar ou não. Foi também essencial ter uma equipa que coletivamente tivesse a paciência necessária para este tipo de trabalho e não transmitisse qualquer tipo de stress e pressão aos animais.

Trabalha com animais reais e também com crianças, como o fez em “Bell e Sebastião. Isso é algo difícil de gerir em termos de filmagens devido à imprevisibilidade. Como lida com isso e os eventuais contratempos que surjam?

Adoro a natureza e adoro as crianças, por isso sou uma pessoa feliz nas filmagens. Acredito na transmissão de conhecimentos e ao ter um adolescente no coração deste filme criamos uma identificação e uma empatia com outros adolescentes. Aumentamos assim os seus conhecimentos sobre a urgência em proteger a natureza e eles transmitem isso uns aos outros.

E acha que nos tempos que correm, de maior foco na proteção da natureza, precisamos de mais filmes como este? Acha que o cinema pode ajudar a uma maior consciencialização do público quanto às questões ambientais?

Não sou pretensioso ao ponto de achar que vou mudar o mundo com um filme, mas não conseguiria fazer um filme hoje em dia sem tocar em temas urgentes como o aquecimento global e a proteção da biodiversidade. Acho importante levar esta mensagem às pessoas. (…) A viagem do Christian há 20 anos foi considerada louca por muitos cientistas. Esta ideia que os gansos podem ser reprogramadas no seu “GPS” interno. Mas o sucesso da experiência provou que as suas ideias funcionaram. Porém, esta espécie não está ainda a salvo. Precisamos de pelo menos duzentos gansos nesta viagem para tudo funcionar, para que a reprogramação da rota seja incorporada neles e transmitida aos outros.

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