Um dos mais belos concorrentes à Concha de Ouro de 2020, aplaudido pela sinergia dos seus protagonistas – Colin Firth e Stanley Tucci – numa narrativa pautada pelo lirismo, “Supernova”, que chega este fim de semana a Portugal, vai ainda ser lançado no Brasil com um título menos focado na sua metáfora estelar: “Memórias de um Amor”. É um nome que resume o risco que seus dois personagens centrais enfrentam, depois de anos e anos apaixonados.
Na trama, o músico Sam (Firth) e o escritor best-seller Tusker (Tucci, em estonteante atuação) precisam de paciência – e de muita cumplicidade – para sobreviverem ao maior desafio à apaixonada vida a dois que levam. Tusker foi diagnosticado com demência, cujo estágio está em crescente evolução, ameaçando a sua memória e sua perceção da realidade.

No evento espanhol, a dupla de atores levou plateias às lágrimas. Quem escreveu e realizou o projeto foi o inglês Harry Macqueen. Revelado como ator, em 2008, com “Me and Orson Welles”, de Richard Linklater, Macqueen estreou como realizador em 2014, ao dirigir o drama “Hinterland”, que também falava de dilemas do amor em relação a recordações perdidas. Na entrevista a seguir, concedida ao C7nema em solo espanhol, o realizador fez o inventário das emoções por trás das suas escolhas.
Como essa dramaturgia pautada pela iminência da perda nasceu?
Ela é resultado de uma pesquisa longa sobre a demência, traduzida num microcosmos de emoções que se cristaliza em duas pessoas que se protegem e que aprendem a renunciar para preservar o que têm. É uma tentativa de olhar para a maturidade do amor a partir do risco.
O seu filme traduz toda a história de amor entre aqueles dois homens com poucas explicações, elegendo a sugestão e a insinuação como soberanas, destituindo o detalhe. Momentos onde se esperaria muito palavreado parecem resguardar uma delicada mudez, deixando os gestos conduzirem a narrativa. Porque razão essa opção no silêncio e na quietude?
Porque não é um filme sobre declarações e, sim, um filme sobre compreensões. Tens a medida de um amor maduro quando um olhar responde a uma pergunta. Evitei esmiuçar muito a história antecendente de cada um e preferi concentrar-me nos afetos deles. E existe um ponto que a experiência de ver “Supernova” levanta: o facto de, hoje, darmos cada vez menos espaço a conversas adultas… no cinema e na vida.
Em que ponto a metáfora astronómica da supernova entrou na concepção da dramaturgia?
Entrou como uma alegoria sobre aquilo que é grande e explode a partir do seu núcleo, num efeito parecido com o que se passa com o Tusker e a sua perda de lucidez.
Como fica hoje a sua maneira de atuar depois de ter dirigido Tucci e Firth?
Eles ensinaram-me uma lição primordial: a confiança. Dois atores daquele porte confiaram em mim porque eu era a fonte daquela narrativa. Confiar é um verbo essencial para um processo artístico.

