Carlos Saura deu o sabor de hortelã à estética da urgência

(Fotos: Divulgação)

No culto coletivo a Cría Cuervos(Grande Prémio do Júri em Cannes, em 1976) e nos louros mercadológicos dedicados à experiência Carmen(nomeado ao Oscar, em 1984), a cinefilia esquece de relevar Peppermint Frappé (Ideia Fixapt,1967) nos obituários dedicados ao cineasta aragonês Carlos Saura (1932-2023), que serenou nesta sexta-feira, após 67 incansáveis anos de dedicação ao audiovisual. Morreu aos 91 anos, de insuficiência respiratória, com um legado de 51 títulos no seu currículo como realizador, sendo o mais recente Las Paredes Hablan, exibido no Festival de San Sebastián, em setembro.

A sua trajetória profissional contabiliza sucessos de público e 63 prémios dos mais renomados, entre os quais o Urso de Ouro de 1981, dado a ele por “Depressa, Depressa”. Mas algo difere a relevância do tal Peppermint Frappé no seu rol de crónicas de costumes. E não é pelo facto de essa longa-metragem ter rendido a distinção de Melhor Realização ao cineasta espanhol. A sua relevância histórica maior vem do facto de ser o filme usado por intelectuais francófonos (tal qual Jean-Luc Godard e Truffaut) como deixa para cancelar o Festival de Cannes de 1968.

Quando a malta da Cahiers du Cinéma e de outras entidades cinéfilas europeias seguraram a cortina do antigo Palais des Festivals, de modo a protestar contra a demissão de Henri Langlois da chefia da Cinemateca, o título a ser exibido seria Peppermint Frappé, mas o próprio Saura e a sua estrela, Geraldine Chaplin, concordaram com aquela ação. Ser parte do torvelinho da História, e nele desafiar o conservadorismo, era mais relevante do que ter uma projeção padrão, aburguesada.  “Nós fomos num Carocha (Fuscabr) até França, viajando por estradas muito arborizadas, pensando no que queríamos para o nosso futuro. A Geraldine e eu sabíamos o quão valioso era ter um filme em Cannes, mas fazer parte de uma ação daquelas era algo essencial para o futuro do cinema. É nisso que temos que pensar: nas urgências”, disse Saura em um depoimento que foi publicado em forma de artigo no jornal O Globo, em 2008.

Até ao fim da sua jornada, não só até à Croisette, mas pela vida afora, Saura foi coerente com as urgências. “Nunca fui um realizador conectado com os contos de fadas, pois sempre preferi explorar o real, com toda a sua complexidade, pautada pelo desejo. A fantasia que cabe nos filmes que faço é a transição entre o presente e o passado”, disse Saura ao C7nema, em 2011, quando iniciou um projeto de ficção sobre o pintor Pablo Picasso que teria Antonio Banderas no papel central. “Nunca me afastei do apuro técnico típico da ficção, mesmo nos tempos em que fiquei dedicado apenas a documentários: os meus sempre tiveram cenografia e uma engenharia fotográfica que buscava requinte. A realidade comporta em si algo de fabular ao gerar a memória: algo bem próximo da ilusão”.

Realizador de marcos do cinema como A Prima Angélica (Prémio do Júri em Cannes, em 1974), Saura foi uma divindade para a chamada Política dos Autores, entre 1966 (quando A Caça lhe deu o Urso de Prata na Berlinale) e 1999, ano de Goya, no qual escolheu Francisco Rabal para encarnar o mestre da luz. A partir de 2002, quando saiu premiado do Festival de Montreal com Salomé, ele preferiu se concentrar em documentários e numa série de narrativas híbridas de balé, ópera, teatro e registos não ficcionais. Foi esse o caso de El Rey De Todo El Mundo, com o qual arrebatou o Festival do Cairo em 2021. A sua única ficção relevante no século XXI foi El 7º Día, com o qual ganhou um prémio de Melhor Realização no Canadá. Mas a sua carreira não chega nem aos pés do êxito de filmes de culto tipo Elisa, Vida Mía(com o qual Fernando Rey foi Melhor Ator em Cannes) ou o hilariante Mamá Cumple 100 Años, nomeado ao Oscar e vencedor do Prémio Especial do Júri em San Sebastián de 1979.

Em 2021, Saura voltou a atrair holofotes (mas não à altura do que merecia) com uma curta-metragem: “Rosa Rosae. La Guerra Civil”. É um ensaio gráfico sobre crianças maculadas por conflitos armados, calcada numa canção de José Antonio Labordeta, em fotografias de arquivo e em desenhos assinados pelo próprio realizador. É um documentário poético antibelicista. Abriu San Sebastián e foi lançado na MUBI. Com a sua morte, começou a procura por Las Paredes Hablan, um documentário de 75 minutos sobre o mundo da arte, retratando a relação entre a criação pictórica (pintura, grafite, desenho) e o espaço do muro (ou da pedra, no caso das cavernas) como tela. Por isso, flana das primeiras expressões gráficas na pré-História até às vanguardas, dando um salto até às inquietas manifestações poéticas das periferias contemporâneas. Saura realizou e “atuou” nele, participando da narrativa como um investigador. A longa-metragem foi filmada em 14 locais, como as grutas de Puente Viesgo e Altamira, na Cantábria, com uma passagem pelo sítio arqueológico Atapuerca, em Burgos.

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