As maiores “banhadas” de 2021

(Fotos: Divulgação)

ba·nha·da
(banho + -ada)
nome feminino

  1. [Portugal, Informal] Desilusão ou engano (ex.: tinha altas expetativas e levei uma banhada).

“banhada”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021

007: No Time to Die

A despedida de Daniel Craig da maior franquia de espionagem de sempre joga a todos os níveis pelo seguro. A notícia de que seria Cary Joji Fukunaga, realizador de filmes como “Jane Eyre” (2011) e “Beasts of No Nation” (2015), a liderar esta produção augurava bons resultados. Mas “No Time to Die” envereda por um caminho sentimental que nunca funciona, sofre por ter um vilão (Rami Malek) que além de incoerente tem uma caracterização fraquíssima, e arrasta-se de cena para cena sem grande estilo ou sentido de aventura. O único elemento promissor do filme é a arma tecnológica que despoleta a última missão de Bond, mas até isso é desperdiçado e o seu potencial nunca verdadeiramente explorado. – Guilherme F. Alcobia

Benedetta

Paul Verhoeven não se cansa em entrevistas de dar bicadas no politicamente correto para vender o seu Benedetta, uma versão gourmet nunsploitation daquilo que Jesús Franco e outros já faziam há 40 anos. Em boa hora Gerard Soeteman (Turks Fruit; O Livro Negro) recusou ter o seu nome nos créditos de argumento do filme, porque Verhoeven quis focar-se no carácter lésbico da protagonista e não nas  suas “maquinações políticas” recorrendo à sexualidade. O que Verhoeven realmente fez foi optar pela mais óbvia provocação, onde se crê – em 2021 – que um dildo com forma de cristo originaria um grande choque e reação da Igreja Católica. Foi ignorado a não ser pelos doidinhos do costumeJorge Pereira

Bergman Island

Difícil entender a queda abrupta de interesse no cinema de Mia Hansen-Love desde que lançou “L’Avenir” (“O Que está por vir“), mas este “Bergman Island” é um novo mínimo, uma história sobre um casal de realizadores (Tim Roth e Vicky Krieps) a caminho da ilha de Faro, onde Ingmar Bergman passou grande parte da sua vida e encontrou inspiração artística. Depois de uma primeira parte, em modo safari, com toada paternalista com bitaites sobre a vida do autor, chega a segunda onde é lançado o entediante filme dentro do filme. Um ato-masturbatório onde nem as escolhas musicais fora da caixa compensam personagens vazias e diálogos pobres assombrados pelo espírito de Bergman. – Jorge Pereira

Cherry

Os irmãos Russo, realizadores de The Avengers: Endgame, excederam-se no estilo em detrimento da substância: jump-cuts, sequências “freeze-frame”, slow-motion, pontos de vista rectais (literalmente)…é à vontade do freguês! Videoclipe de 141 minutos, “Cherry” é frustrante, vago e nem a seriedade e compromisso de Tom Holland é suficientes para sarar tamanha artificialidade. – Daniel Antero

Dune

Duna” é um desperdício de matéria-prima literária fantástica em forma de um parque de diversões que abriuas suas portas antes de as obras estarem finalizadas. Não se sabe qual é o conceito de vilania que acossa a Casa de Atraides, uma vez que a sua dramaturgia mal resolvida reduz as personagens a arquétipos. Rodrigo Fonseca

Encanto

Construído sob um exostismo carnavalizante da América hispânica, a nova animação da Disney repete fórmulas já testadas em Moana criando roteiros que mais parecem palestras de inclusão social, sem qualquer potência poética. Rodrigo Fonseca

Four Good Days

Realizado por Rodrigo García, este é um filme tipicamente de estúdio, com uma fotografia banal, uma estrutura canónica e previsível, um argumento superficial que aposta nas emoções fáceis associadas a uma família destruída pela toxicodependência. As prestações de Glenn Close e Mila Kunis são forçadas, a sua caracterização risivelmente falsa, e nada nesta produção parecer ter qualquer autenticidade. “Four Good Days” poderia ser um retrato poderoso de uma mãe e uma filha interpretadas por duas grandes atrizes, mas o produto final não é nada mais do que uma fórmula aplicada sem brio e sem nada de memorável. Guilherme F. Alcobia

Mortal Kombat

Mortal Kombat” frustra quem cresceu sob a égide do filme de Paul W. S. Anderson, de 1995, pela absoluta inabilidade da sua realização em lidar com rudimentos de representação das artes marciais na tela. Rodrigo Fonseca

The Hitman’s Wife’s Bodyguard

Ryan Reynolds tornou-se o melhor ator da sua geração a fazer dele próprio, como se estivesse permanentemente em “Deadpool“. Em “Free Guy” isso funciona “por culpa” de toda uma alegoria de sarcasmo à questão Disney-20th Century Fox, em “Red Notice” serve de balanço para outros dois atores fazerem as suas habituais personas cinematográficas (o cérebro brutamontes, a sexy que sabe dar pancada), mas em “O Guarda-Costas e a Mulher do Assassino” todos apenas contribuem para um filme que vive da repetição (dos tiros, palavrões, cenas de pseudo-sexuais) e do humor rasca. Jorge Pereira

The Starling

Embora as expetativas para “The Starling” não fossem muito altas, o papel de Melissa McCarthy no filme parecia distinguir-se daqueles em que habitualmente vemos na comediante, por ter um peso dramático e um foco psicológico mais acentuado. Porém, este trabalho de Theodore Melfi (“Hidden Figures”, 2016) manipula o espectador com o seu hiper-sentimentalismo e revela uma total ausência de subtileza, carregando no simbolismo fácil e nos lugares-comuns do processo de luto de uma família. Trata-se de um filme desonesto, previsível, sem ponta de originalidade, e que chega mesmo ao ridículo. Guilherme F. Alcobia

The Tomorrow War

Uma personagem que “está destinada para algo maior”? Verificado. Piscadelas de olho a sci-fi dos anos 80 e 90? Verificado. Narrativa à videojogo? Verificado. 140 minutos de arrasto num fosso de idiotice narrativa? Verificado. Chris Pratt, Chris McKay (Lego Batman: O Filme)  e orçamento da Amazon. Queriam mais para fazer algo decente? “The Tomorrow War” é uma cacofonia gloriosa de frases sentimentalóides criadas por um qualquer gerador aleatório de guiões. Daniel Antero

The Woman in the Window

Amy Adams lidera o elenco incrível de um filme desorientado, onde até o realizador Joe Wright parece ter perdido a sanidade. Com uma produção caótica repleta de refilmagens e mau feedback nas sessões de teste, este pastiche de Hitchcock, que mistura elementos alucinogénios e traumas do passado, não é mais do que uma narrativa campy e desgarrada, onde as reviravoltas incoerentes são convenientemente usadas para nos  distrair dos buracos de lógica. Daniel Antero

Nota: as escolhas das “banhadas” foram individuais. Há filmes incluídos nesta lista que poderão até eventualmente estar incluídos no top 10 do c7nema na votação para os melhores do ano

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