Exterminate All The Brutes: notável exercício artístico e histórico de Raoul Peck

Notável e absolutamente imperdível, “Exterminate All The Brutes” chega à HBO a 7 e 8 de abril

(Fotos: Divulgação)

Civilização, Colonização, Exterminação“. Estas são as três frases chave que Raoul Peck – realizador do soberbo “I am not Your Negro” (Eu Não Sou O Teu Negro) – lança no início do seu filme, Exterminate All The Brutes, dividido em quatro partes. Sim, apesar de o formato ser série e termos quatro episódios a serem exibidos na HBO, nos créditos iniciais deste projeto surge um bem explícito “A Film By Raoul Peck”.

Seja que formato for, de série, filme, documentário, ficção, híbrido, ensaio, metaficção, “Exterminate All The Brutes” é uma conquista em toda a linha, um relato pujante e criterioso que se sentirá sempre reduzido tal o tema que aborda, mas que preenche o ecrã – e mais importantemente, a mente – quando se encerra. E o abalo não é pequeno neste pequena, mas sentida viagem que começa com a expressão “Exterminate all the brutes!” (Exterminem todas as bestas), dita pelo assassino racista imperialista Sr. Kurtz na novela de Joseph Conrad de 1899, “Heart of Darkness” (O Coração das Trevas), que o historiador Sven Lindqvist usou no seu livro de 1991, o qual agora Peck pega para nomear o seu filme.

Nuno Lopes e Ivo Alexandre em “Posto Avançado do Progresso

E por falar em “O Coração das Trevas”, uma das primeiras imagens cinematográficas emprestadas para este híbrido de Peck são as de Nuno Lopes e Ivo Alexandre, protagonistas de “Posto Avançado do Progresso“, em plena ação no filme de 2016 assinado por Hugo Vieira da Silva, livremente inspirado na obra de Conrad. A partir daqui partimos para factos históricos que não carecem de segunda opinião, pois factos são isso mesmo, factos. Não há uma segunda visão dos factos.

O genocídio indígena nos EUA ocupa a maior parte do tempo do realizador, mas os crimes do colonialismo em África, Ásia e até no seu Haiti, mostrando essencialmente como a Europa e a sua política colonialista moldou o mundo de hoje em todas as suas iniquidades e injustiças. O drama judeu da Segunda Guerra Mundial serve também de exemplo de como aquele que se achou ser o último genocídio transformou-se em apenas mais um, como Ruanda e a antiga Jugoslávia demonstraram anos depois na repetição sistémica do “Ato de Matar”.

A narração pesada, mas envolvente e hipnotizante, de Peck  conduz-nos igualmente a meta-reconstituição de vários momentos históricos, com Josh Hartnett a renascer das cinzas e a surgir em cena como o carrasco-mor. Mas estes pedaços de ficção encaixam com o forte cariz documental de todo o projeto, não faltando um olhar sempre histórico, muitas vezes didático, mas também filosófico, literário e até poético com um cuidado especial para as palavras que vão sendo ditas durante todo o percurso, dando a “Exterminate all the brutes!” um toque artístico além do mero ensaio informativo e reflexivo.

E isso sente-se pela forma como Peck articula tudo, misturado as mais diferentes formas numa colagem de clipes de filmes, pintura, fotografia, mapas, citações da literatura, músicas pop e até vídeos caseiros da sua infância, colocando assim também em cena o seu trabalho como um autor que durante todo o percurso artístico sempre tocou, de uma ou outra maneira, numa História regida a dominadores e dominados. E nisto o cineasta oferece também uma análise que necessariamente não é cronológica dos eventos, mas alargada de como o pensamento colonial e neocolonial ainda paira no ar. Um desses brilhantes exemplos é quando Peck pega na operação de caça a Bin Laden, liderada pela administração Barack Obama, que teve o nome de Gerónimo. Ora, Gerónimo é um dos mais reverenciados nomes históricos da luta indígena contra a colonização dos EUA, o que demonstra – segundo Peck – como a missão imperialista de “Exterminar todas as Bestas” . E quem diz os EUA diz outros países, naturalmente Europeus, mas também de antigas colónias, com Jair Bolsonaro a também surgir em cena em todo o seu esplendor de estupidez.

Não, não é apenas educação que precisamos para mudar as coisas, salienta Peck. Não, não é apenas isso…

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