Quando tinha 14 anos, Juliette Binoche queria ser atriz ou pintora. O desejo mais antigo e enraizado levou-a a optar pela atuação, mas a sua mãe, na época já divorciada, insistia em que ela arranjasse um emprego regular. “A minha mãe via-me como professora de pintura, a reparar e envernizar móveis, ou a trabalhar em pastelaria, pois gostava de fazer bolos quando era pequena”, disse-nos a atriz em Paris, há cerca de um ano, quando nos encontramos com ela no Hotel Collectionneur.
Foi aí, enquanto promovia o seu “Manual da Boa Esposa”, ainda inédito em Portugal devido à pandemia, que nos contou um pouco dos seus tempos de juventude, bem antes de se tornar uma estrela do cinema francês com carreira internacional.
Binoche, que celebra hoje, 9 de março, os seus 57 anos, antes de iluminar o grande ecrã em filmes como “Eu Vos Saúdo Maria” de Jean-Luc Godard, “A vida de família” (1985) de Jacques Doillon, “Má Raça” (1986) de Leos Carax, e “A Insustentável Leveza do Ser” (1988), não teve outro remédio senão trabalhar durante cinco anos como caixa de uma grande loja parisiense enquanto sonhava em ser atriz.

“Não tive escolha”, disse-nos, acrescentando que aos 18 anos não tinha forma de os pais sustentarem a sua vida. “Acabei o ano do liceu em que estava e a minha mãe pagou-me um ano de aulas de teatro. Não tinha dinheiro para comer, ou dinheiro para alugar um apartamento. Ela vivia no campo, por isso tive de fazer as coisas acontecerem para seguir o sonho de ser atriz, que não é dos sonhos mais fáceis de concretizar. Graças a Deus apaixonei-me por um italiano aos 18 anos e ele tinha casa em Paris. Realmente tomou conta de mim. Se ele não tivesse aparecido na minha vida, não sei se tinha sobrevivido e tornado o meu sonho em realidade.”
Esse sentido de realidade sempre a acompanhou, muito motivada pela vida da sua avó e depois da mãe: “Aprendi muito cedo a ser independente, provavelmente porque a minha avó esteve numa instituição [para preparar mulheres para o matrimónio] pois não era do mesmo nível social do meu pai. Quando se divorciou, depois da guerra, ficou sem nada. Teve de aprender a sobreviver com dois filhos. A minha mãe assistiu a isso e inconscientemente sentiu o mesmo perigo de acreditar na vida perfeita de casal, com um marido e casa perfeita. Casou muito jovem, aos 21, e sentiu novamente a submissão de estar casada e de ter de pedir ao marido, o meu pai, para assinar um cheque para ir comprar qualquer coisa. Chegou a pedir-lhe para ter uma secretária, para poder escrever, pois era bastante intelectual. O meu pai não quis. Era algo que não entrava na sua mente, na sua educação. Quando se divorciou voltou a estudar e eu e a minha irmã começamos a aprender a ser independentes, a pensar em arranjar um emprego. Sou de uma geração que, por causa das gerações da minha avó e a da minha mãe, sempre soube que tinha de ser esperta com aquilo que a sociedade nos dava para vivermos como mulheres.”
Uma carreira de sucesso
Depois de um início de sucesso nos anos 80, a atriz francesa partiu para a década de 1990 com confiança, participando em filmes como “Os Amantes da Ponte Nova” ( 1991), “O Monte dos Vendavais” (1992) e “O Paciente Inglês” 1996) – além de brilhar na trilogia das cores de Krzysztof Kieslowski (Azul; Branco; Vermelho). Já nos anos 2000 colaborou, entre outros, com Michael Haneke (Nada a Esconder), John Boorman (Um Amor Em África), Lasse Hallström (Chocolate), Abel Ferrara (Maria Madalena) e Olivier Assayas (Tempos de Verão).

Eu Vos Saúdo Maria 
Má Raça 
O Paciente Inglês 
Chocolate 
High Life
Em 2010 surgiu nas telas sob as lides de Abbas Kiarostami (Cópia Certificada) e um ano depois deu vida a “Elas” de Malgorzata Szumowska. Seguiram-se trabalhos com nomes como David Cronenberg (Cosmopolis), Bruno Dumont (Camille Claudel 1915; Ma Loute), Erik Poppe (Mil Vezes boa noite), Isabel Coixet (Ninguém Quer a Noite), Claire Denis (O Meu Belo Sol Interior; High Life) e Hirokazu Koreeda (A Verdade), além de novas colaborações com Assayas (Vidas Duplas).
Brevemente veremos Binoche nas salas portuguesas em “Manual da Boa Esposa”, de Martin Provost; “Le quai de Ouistreham”, de Emmanuel Carrère: “Feu”, de Claire Denis; e na antologia “Together Now“, que reúne 8 segmentos cuja realização foi entregue a Catherine Hardwicke, Kátia Lund, Lucía Puenzo, Patricia Riggen, Malgorzata Szumowska, Maria Sole Tognazzi, Robin Wright e Leena Yadav.

