Está aberta a bolsa de apostas para Cannes

(Fotos: Divulgação)

Com a chegada das novas vacinas, Cannes marcou uma data para realizar presencialmente a sua edição de 2021: o evento é esperado ocorrer de 6 a 17 de julho, tendo Spike Lee como presidente do júri. Mas com as novas ondas da covid-19 a varrerem o mundo, ainda fala-se num adiamento ou versão online (menos provável) na luta pela Palma de Ouro.

O bom exemplo da Berlinale 71, encerrada na sexta, com a vitória da comédia “Bad Luck Banging or Loony Porn”, de Radu Jude, tornaria menos dolorosa a hipótese da Croisette transferir as suas atividades para a web. Diante do boom das narrativas de não ficção, fomentado pela pandemia, há quem aposte na escolha de um documentário para abrir o evento cannoise: “The Occupied City”, do inglês Steve McQueen (de “12 Anos de Escravidão”). Realizado em paralelo à série “Small Axe”, a longa-metragem parte da pesquisa da mulher de McQueen, a escritora Bianca Stigter, sobre a ocupação dos nazis na Holanda. Mas há quem aposte forte na escolha de um drama para abrir Cannes. Durante o Festival de Berlim, o nome mais citado foi “King Richard”, de Reinaldo Marcus Green, por trazer Will Smith no que, segundo apostam, é “a” atuação de sua carreira, no papel do instrutor de ténis Richard Williams, pai das atletas Venus e Serena. Fala-se ainda na escolha de uma produção local: “Feu”, de Claire Denis, com um triângulo amoroso envolvendo personagens vividos por Juliette Binoche e Vincent Lindon. E há ainda “The French Dispatch“, de Wes Anderson, à espera de estrear há um ano.

Para a disputa pela Palma de Ouro, há uma lista de apostas gigantesca de potenciais concorrentes. O C7nema fez uma triagem do que pode agradar à curadoria de Thierry Frémaux.

CHOCOBAR”, DE LUCRECIA MARTEL: Quatro ano depois do aclamado “Zama”, a diretora argentina aposta nas narrativas documentais, explorando os bastidores políticos da morte do militante indígena Javier Chocobar por latifundiários.

Lucrecia Martel filma “Chocobar” - C7nema
Chocobar

LINGUI”, DE MAHAMAT-SALEH HAROUN: O aclamado realizador chadiano volta às telas para narrar as angústias de uma mãe muçulmana às voltas com o desejo da filha adolescente, grávida, de fazer um aborto. Haroun ganhou fama mundial há dez anos, ao conquistar o Prémio do Júri de Cannes com “O Homem Que Grita”. À época, 2010, era o único realizador de longas de ficção em atividade no Chade. Hoje, é um dos nomes mais aclamados do continente africano quando se pensa em cinema.

BENEDETTA”, DE PAUL VERHOEVEN: Esperado desde 2019, a nova longa-metragem do génio por trás de “Elle” (2016) promete polémica ao explorar (e devassar) as mitologias católicas a partir da saga de uma freira do século XVII, dotada de poderes especiais, que entra em ascese ao viver uma paixão lésbica. Virginie Efira assume o papel principal.

Paul Verhoeven operado. Estreia de “Benedetta” adiada para 2020 - C7nema
Benedetta

COW”, DE ANDREA ARNOLD: Laureada três vezes com o Prémio do Júri, por “Red Road” (2006), “Fish Tank” (2009) e “American Honey” (2016), a inglesa pode voltar a Cannes com um documentário baseado na rotina de duas vacas, partindo delas para abrir uma discussão moral.

HOW DO YOU LIVE”, DE HAYAO MIYAZAKI: Cannes está sempre atenta às boas novas do Studio Ghibli, cujo patrono parece ter, enfim, finalizado o seu novo desenho animado sobre o processo de amadurecimento de um rapazinho e a sua convivência com um tio e com os amigos num Japão em transformação, mas ainda aberto ao lirismo e à fantasia. “Kimitachi wa dô ikiru ka” é o título original.

ANNETTE”, DE LEOS CARAX: Nove anos depois de “Holy Motors”, o mais inquieto dos realizadores franceses revelados nos anos 1980 regressa ao écrã com um drama musical sobre uma menina dotada de estranhos poderes, filha de um comediante (Adam Driver) e de uma cantora de ópera (Marion Cotillard).

PRISIONEIRO DA LIBERDADE”, DE JEFERSON DE: Reconstituição das lutas do líder abolicionista baiano Luiz Gama (1830-1882), que foi escravizado ainda em criança, mas conquistou a sua alforria, lutando para libertar o seu povo no Brasil do século XIX. No filme, a vida de Luiz Gama será contada em três fases: na infância, interpretado por Pedro Guilherme; na adolescência, por Angelo Fernandes; e na idade adulta, por César Melo. O seu realizador brilhou na Berlinale, há onze anos, com “Bróder”.

PRÉSIDENTS”, DE ANNE FONTAINE: Depois de ter encerrado a Berlinale de 2020 na mais alta graciosidade com “Police”, a atriz e realizadora de “Coco Antes de Channel” (2009) prepara uma comédia política na qual dois estadistas reformados, vividos por Jean Dujardin e Grégory Gadebois, unem forças, apesar do ódio que nutrem um pelo outro, a fim de disputar as presidenciais francesas.

Depois do drama “Police”, uma comédia para Anne Fontaine - C7nema
Présidents

È STATA LA MANO DI DIO”, DE PAOLO SORRENTINO: O realizador de “A Grande Beleza” (Oscar de melhor filme estrangeiro em 2014) promete o que pode ser seu “Amarcord”, reconstituindo a sua adolescência, em Nápoles, tendo o jogador Armando Maradona (1960-2020) como parte do seu universo. Habitué no cinema de Sorrentino, Toni Servillo integra o elenco.

THE CARD COUNTER”, DE PAUL SCHRADER: Finalizado durante a pandemia, o esperado novo filme do realizador de “First Reformed” (2017) tem Oscar Isaac como um jogador de cartas profissional que tenta controlar um novato (Ty Sheridan) às voltas com uma cruzada de vingança com um inimigo em comum. Willem Dafoe também integra este thriller encarado como um potencial filme de culto.

DISTANCIA DE RESCATE”, DE CLAUDIA LLOSA: Passados 12 anos da conquista do Urso de Ouro por “A Teta Assustada”, a cineasta peruana regressa aos cinemas com um thriller de tons sobrenaturais (e políticos) feito em esquema de coprodução entre Chile e Espanha, com base na literatura de Samanta Schweblin. A trama aborda uma série de situações no limiar do Além que cercam uma criança.

TRE PIANI”, DE NANNI MORETTI: A partir da literatura do israelita Eshkol Nevo, o realizador de “O Quarto do Filho” (Palma de Ouro de 2001) cria uma Comédia Humana a partir dos encontros e dos desencontros dos moradores de um condomínio de Roma, partilhando a observação de tragédias do dia a dia.

Tre Pianni

THE STORY OF MY WIFE”, DE ILDIKÓ ENYEDI: Quatro anos depois de levar o Urso de Ouro para a Hungria, a realizadora de “Corpo e Alma” (2017) regressa com uma história de amor dramática, orçada em 10 milhões de euros e cheia de metalinguagem, baseada na literatura de Milán Füst. Nela, Louis Garrel interpreta o capitão de navio que faz uma aposta: vai-se casar com a primeira mulher como que se cruze na sua rota. Léa Seydoux, Gjis Naber e Jasmine Trinca integram o elenco.

PETITE FLEUR”, DE SANTIAGO MITRE: No novo filme do realizador de “Paulina”, a sensação da Semana da Crítica de Cannes em 2015, Daniel Hendler, vive um homem obcecado com a ideia de que o seu vizinho é um inimigo, optando por assassiná-lo. O problema é que este renasce a cada dia, misteriosamente.

A VIAGEM DE PEDRO”, DE LAÍS BODANZKY: A aclamada realizadora de “Como Nossos Pais” (2017) retorna à realização numa trama protagonizada por Cauã Reymond, que passa-se numa viagem de barco, da volta do D. Pedro I para a Europa. Ele foi praticamente expulso do Brasil, durante uma grande crise política e pessoal. É nisto que a cineasta mergulha nesse universo interior do monarca. É, segundo disse a realizadora, em setembro, ao C7nema, “um filme de personagens, que fala muito mais do Pedro do que exatamente do D. Pedro I”.

Laís Bodanzky: a resiliência diante do bicho de sete cabeças da crise  brasileira - C7nema
A Viagem de Pedro

A HERO”, DE ASGHAR FARHADI: Depois da sua malfadada experiência em língua espanhola com “Todos Lo Saben”, que abriu Cannes em 2018, o oscarizado realizador iraniano volta com um drama social protagonizado pela nata da sua pátria no teatro e nas telas falando sobre escolhas e suas consequências.

UMAMI”, DE SLONY SOW: Um dos mais prolíficos realizadores de curta-metragens em França dirige Gérard Depardieu numa jornada de redenção e de temperos gastronómicos. Na trama, o chef Gabriel Carvin (Depardieu) recebe finalmente a sua terceira estrela, como distinção pelos seus dotes plurais para o sabor. A conquista deveria ser um momento de celebração, mas Gabriel nunca foi feliz, e não sabe o porquê. Mas numa sessão de hipnose, recorda-se de ter sido derrotado num torneio tipo masterchef no Japão, nos anos 1970, e resolver livrar-se desse trauma revisitando as iguarias nipónicas.

TRIANGLE OF SADNESS”, DE RUBEN ÖSTLUND: Muitos ainda não aceitaram bem a Palma de Ouro dada a “The Square”, em 2017, mas o seu realizador vai tentar ganhar outra láurea de peso com a história de modelos em crise em suas carreiras, tendo Woody Harrelson como um reforço para o elenco.  

Triangle of Sadness

MEMÓRIA”, DE APICHATPONG WEERASETHAKUL: Onze anos após a conquista da Palma de Ouro com o metafísico “Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas” (2010), o maior poeta do cinema tailandês volta aos ecrãs com um elenco multinacional (Tilda Swinton, Jeanne Balibar, Daniel Giménez Cacho), numa trama sobre as camadas sensoriais da nossa relação com o mistério da existência. No enredo, Tilda é uma escocesa que, em viagem pela Colômbia, começa a perceber estranhos sons, que a convidam a novas perceções da realidade. Mas que sons são esses e como eles desafiam a sua lucidez?

IMPASSE”, DE ZHANG YIMOU: Em 2019, um dos filmes mais recentes do mestre chinês, “One Second”, foi retirado da competição do Urso de Ouro sem explicações e desapareceu. Existe a tese de que o governo chinês não ficou satisfeito com o seu olhar crítico acerca das instituições políticas do seu país. Mas Yimou é prolífico e resolveu voltar ao planisfério audiovisual com este thriller de espionagem sobre agentes comunistas treinados pela URSS.

SOGGY BOTTOM”, DE PAUL THOMAS ANDERSON: Depois de colher prémios pelo mundo todo com “Linha Fantasma” (2017), o aclamado realizador americano pode voltar a Cannes com esta reconstituição da vida juvenil dos EUA dos anos 1970 a partir dos dilemas de um jovem ator. Bradley Cooper é o chamariz do elenco.

Soggy Bottom

COMPETENCIA OFICIAL”, DE MARIANO COHN E GASTÓN DUPRAT: O novo filme dos realizadores de “O Cidadão Ilustre” (2016) trocam a Argentina natal pela Espanha. Lá, a dupla narra a trama de dois atores de estilos muito diferentes (Antonio Banderas e Oscar Martínez) que entram em conflito durante a preparação de um filme financiado por um milionário notoriamente ganancioso e realizado por uma cineasta cheia das excentricidades, vivida por Penélope Cruz.

THE WAY OF THE WIND”, DE TERENCE MALICK: Apoiado num elenco monumental (Matthias Schoenaerts, Mathieu Kassovitz, Aidan Turner, Mark Rylance, Ben Kingsley), o realizador de “A Árvore da Vida” (Palma de Ouro de 2011) investiga a vida de Cristo por ângulos inusitados. 

COMÉDIE HUMANE“, DE XAVIER GIANNOLLI: Baseado nas “Ilusões Perdidas” de Balzac, o filme nas palavras do realizador ao C7nema segue “um jornalista – no início do jornalismo. Tem vinte anos, chama-se Lucien, é um idealista, poeta que se aborrece na província. Ele é amado e protegido por uma mulher, uma espécie de Madame de Bovary, que ama a literatura. Decide ir a Paris e quando chega lá descobre aquilo que vai ser o século XX: uma civilização que se vende à lei do lucro. O seu trajeto vai ser o de uma aprendizagem bastante brutal da vida, perdendo-se nessa sociedade“.

Comédie Humaine

AFTER BLUE“, DE BERTRAND MANDICO: Neste regresso do realizador de “Les garçons sauvages” estamos num futuro quimérico num planeta de outra galáxia, After Blue, um local virgem onde apenas as mulheres podem sobreviver no meio da flora e fauna inofensivas. É aí que vamos seguir Roxy, que inadvertidamente liberta uma criminosa enterrada na areia. Assim que é libertada, esta assassina várias pessoas. Responsáveis por esses crimes, Roxy e a mãe são expulsas da sua comunidade e forçadas a procurar a criminosa e matá-la. Vimala Pons volta a marcar presença no elenco.

MADELEINE COLLINS“, DE ANTOINE BARRAUD: Não é só com “Benedetta” de Paul Verhoeven que Virginie Efira poderá brilhar. Além de protagonizar uma curta-metragem de Niels Schneider que bem pode integrar a Quinzena dos Realizadores, a belga tem ainda hipóteses de chegar a Cannes com “Lui” de Guillaume Canet e com este “Madeleine Collins“, onde interpreta o papel de uma mulher com vida dupla.

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