Em “Êxtase” a realizadora Moara Passoni usa de forma criadora a linguagem cinematográfica para construir um esplêndido e poético ensaio-fílmico do corpo em estado de anorexia. Mesclando ficção e realidade, aborda de modo consciente e com leveza um tema tão delicado, de modo a dar-nos a entender a linguagem própria do corpo anoréxico/anorético e a sua maneira de comunicar com o que é exterior a ele. O filme é composto de múltiplas camadas imagéticas e sonoras, com uma temporalidade elíptica que escapa à apreensão e foge da narrativa tradicional no cinema, imprimindo a estética primorosa e fluída criada pela realizadora.
O filme inicia com uma narração na terceira pessoa e imagens que evocam a infância, o passado de Clara. Depois acedemos ao tempo presente da sua vida e a narração externa passa a ser na primeira pessoa e no fluxo interior da sua consciência. Mas no decorrer do filme, esses tempos misturam-se. A narração, as imagens filmadas e as imagens de arquivo criam uma suspensão entre o passado e o presente da personagem, entre o que vemos, o que não temos acesso e o que nos é sugerido. Moara vai expondo na tela os acontecimentos vividos durante cerca de 10 anos pela jovem que se percebe anoréxica na pré-adolescência e em determinado momento revela que “anorexia é êxtase”, como se o sofrimento fosse algo associado ao gozo. Para entender esta frase e o que a personagem sente fui buscar no dicionário os significados da palavra êxtase para além do que sei:
Significado comum: um prazer vivíssimo, um gozo íntimo, condição daquele que está emocionalmente fora de si ou tomado por sensações adversas, intensas e contundentes como prazer, alegria, medo, solidão, sofrimento, dor, desespero.
Patologia: estado nervoso caracterizado pela perda de consciência e pela abolição da sensibilidade a toda e qualquer ação externa.
Etimologia: palavra que deriva do grego ekstasis, um movimento para fora ou perturbação mental.
Tudo isso de algum modo permeia a mente e o corpo de Clara, num misto de uma agonia íntima e perturbante sensação de êxtase. Atravessada pelo fluxo de consciência ao estilo Virgínia Woolf, Clara dialoga com sua mente, tentando dar conta do seu mundo interior e exterior, do inusitado estado de êxtase que ela sente e vive, um êxtase autodestrutivo. “Ela não sentia o tempo nem as pessoas. Tudo o que ela sentia era êxtase”.
Fui buscar também fagias artísticas que fazem parte do meu olhar, do meu modo de pensar o cinema e a vida, para melhor apreender os sentimentos da personagem, e lembrei-me do livro “Mrs. Dalloway” (1925) de Virgínia Woolf e do filme “As horas/The hours” (2003) de Stephen Daldry.

No início do séc. XX, a escritora V. Woolf lida com uma intensa depressão e está a escrever “Mrs. Dalloway“, romance que narra os preparativos de um evento social de uma mulher burguesa, independente e culta, Clarissa Dalloway, que vive na Inglaterra pós 1ª Guerra Mundial. No livro, a escritora constrói uma imagem da vida de Clarissa e sua estrutura social.

Quanto ao filme “As horas“, Stephen Daldry, conta as histórias de três mulheres à procura de sentido para suas vidas, cada uma vivendo numa época e num lugar diferente, mas conectadas pelas suas angústias, sofrimentos e anseios, pelo modo de como tentam lidar com a dor. No filme, Virginia Woolf (interpretada por Nicole Kidman) é uma mulher obcecada pela precisão, vive “exilada” nos subúrbios de Londres em 1920 e está a escrever o seu primeiro romance, Mrs Dalloway. Laura Brown (Julianne Moore), por sua vez, vive no final da 2ª Guerra Mundial, esposa e mãe aparentemente perfeita. Está deprimida e a ler Mrs. Dalloway, um romance tão avalassador que promove uma forte mudança na sua vida. E Clarissa Vaughan (Meryl Streep), uma mulher sofisticada e culta, uma versão contemporânea de Mrs. Dalloway de Woolf, vive no tempo actual na cidade de Nova Iorque e está apaixonada pelo seu amigo Richard – um brilhante poeta prestes a morrer de SIDA (AIDS). O guião do filme foi escrito-adaptado por David Hare e inspirado no livro homónimo de Michael Cunningham. Os acontecimentos narrados nos livros de Cunningham e de Woolf inspiram Daldry e compõem as vidas das protagonistas do seu filme.
As características da protagonista e a narrativa do filme “Êxtase” aproximam-se do romance “Mrs. Dalloway” (1925) e do filme de Daldry. As três obras lidam com angústia, sofrimento, solidão e dor física e existencial, entremeados por fluxos mentais da consciência, e jogam com os tempos passado e presente, amalgamando-os, sem encadeamentos explícitos.
O filme de Moara flui na tela e então vemos imagens de manifestações e atos políticos no Brasil, dando pistas de que a mãe de Clara atuava politicamente e viviam em São Paulo/SP, nos anos 90, chegando a ser eleita Deputada Federal e, portanto, foi viver para Brasília num ambiente excêntrico, calculista, frio. Uma mãe que se distancia da filha desde a sua infância. A opção pela política afastou-a de Clara, não sendo possível acompanhar as descobertas, desafios e vivências do seu mundo infanto-juvenil. A falta de laços afetivos familiares e de amigos juntamente com a insegurança e a solidão que isso causou a Clara Beatriz Benitez Costa Rossetti, provocou nela a anorexia. Ela tenta sobreviver massacrando e privando o seu corpo de alimentos, corpo controlado por uma mente profundamente doente e plena de sofrimento. Ela aniquila o corpo como modo de negar a sua potência de vida, vida essa que se tornou um peso insustentável. Estar com anorexia, parece-me que é estar em risco permanente de vida, incessantemente próximo da morte dos órgãos vitais.


Num dos internamentos de Clara e num diálogo consigo mesma, no fluxo da sua consciência, ela revela ao espectador que os métodos de tratamento habituais, em vez de curar pessoas com a doença, ameaçam-nas e punem, como declara numa frase que frequentemente ouvia dos médicos: ‘se você não comer, vai morrer’. Aos poucos, Clara vai isolando-se do mundo que a abandonou e mantém-se dentro da sua mente, uma mente violenta que nega a afirmação da vida, diante de um corpo frágil e doído, a beira do abismo.
No Anti-Édipo e em Mil-Platôs, Gilles Deleuze e Félix Guattari vão desenvolver a noção de Corpo sem Órgãos – CsO. No primeiro livro, o conceito está ligado à questão ontológica e no segundo conectado à questão ética. Prática, que eles apropriaram de Antonin Artaud. Antes de entrar no conceito interrogo: O que pode um corpo? Um corpo pode potencializar ou destruir as intensidades que o envolvem. E o que é um corpo? É o espaço onde o desejo se move, onde as intensidades vitais circulam. E o que é um órgão? É parte do todo (do corpo), é a estrutura de um organismo vivo. Organismo que se compõe de órgãos, ossos, pele, etc. destinados a sobrevivência de um corpo, de um ser.
Já um Corpo sem Órgãos é um corpo da experiência de si, com as suas próprias forças. Ele é a expressão do desejo, de intensidades múltiplas e potentes; é como o desejo se movimenta no corpo, flui ou bloqueia, aprisiona ou liberta, destrói ou vitaliza-o. O CsO não se opõe aos órgãos do corpo, mas ao corpo organismo enquanto “organização orgânica dos órgãos“. Mas é preciso prudência para criar um CsO, pois de acordo com Deleuze e Guattari, quando a experiência dá-se num corpo extremamente fixado na “organização orgânica dos órgãos”, ele pode perder-se nesse turbilhão de intensidades e enrijecer-se num determinado tipo de corpo, como o corpo hipocondríaco, o anoréxico, o masoquista, etc.; e todos esses corpos podem ser ainda CsO, mas é preciso saber desprender-se do organismo para não sucumbir num CsO vazio e doente.
Temos que saber manejar os impulsos e os desejos para criarmos um CsO pleno de potência e assegurar ao corpo essas conexões contínuas e não concentrar em destruí-lo. Como aconteceu com Clara, que construiu uma experiência negativa e destrutiva de si e das funções corporais que permite a sobrevivência humana. Ela teceu uma escrita perigosa de sangue, de carne, de pele, de ossos, um lugar de potência não afirmativa, não vital, de desejos maquínicos destrutivos de si. Não por mera fragilidade, mas era o modo de ser que sua família e o mundo lhe disponibilizava naquele momento de sua vida. Havia muita força opressiva e abandono sobre o seu corpo. Resistir à vida, era para ela criar um perigoso CsO, um corpo campo de forças e intensidades que reduziam a potência de ser e debilitava sua energia vital. A experiência de Clara mostra que nem toda desconstrução se converte em criação de um Corpo sem Órgãos vitalizado e potente positivamente. Mostra que um corpo em “êxtase” pode autodestruir-se.
Aos 11 anos de idade, isola-se no seu quarto. A anorexia fez com que Clara, num lento processo de perda de peso, tivesse prazer em ver os ossos sobressairem sobre a sua pele, em produzir uma estranha e agressiva imagem de si, do seu corpo. Aos 15 anos ela é hospitalizada com 29 quilos e uma longa batalha estabelece-se entre o seu corpo e mente, dentro e fora, sentimentos obsessivos de controle sobre o corpo tomam conta dela. Ela pesava-se frequentemente e media as partes do seu corpo para garantir a redução do peso e tentava negar a fome. Um dia, em sua casa, comenta: ‘a comida da minha mãe cheira muito. Eu sinto fome, mas não vou ceder’, numa tentativa de permanecer no comando da situação, pois ganhar peso é sinónimo de fracasso. Ela expressa assim a dificuldade no modo de vivenciar o peso e a forma corporal. A busca incansável pela magreza tomava conta da adolescente solitária, uma maneira gritante de perceber seu próprio corpo, de se isolar, confrontar e resistir à realidade a ele externa.

A voz de Clara, por vezes carrega um tom irónico, que desafia e confronta a si e o outro, como forma de resistir ao seu estado e à anormal sensação de destruir o corpo. Uma mente perigosa à qual o corpo deve obedecer. Delírios mentais como ‘não comer, faz-me sentir com mais energia” e ‘tenho cada vez mais energia, quando menos como’, como diz Clara. A repulsa por alimentos como forma de negar vida ao corpo, deteriora e deixa-o esquelético. Imagem que remete-me ao quadro “O grito” (1893), primeira versão de uma série de quatro pinturas do norueguês Edvard Munch, que está na Galeria Nacional de Oslo. Quadro que simboliza uma figura andrógina num momento de profunda angústia, medo, solidão, abandono e desespero existencial. No filme, Clara chega a expressar: “o meu corpo é um grito” – um pedido de socorro.
A composição da personagem retratada no quadro de Munch pode ser percebida no filme de Moara pela força expressiva das linhas do corpo de Clara, pelos enquadramentos mais fechados para destacar as emoções e os conflitos físicos e psicológicos dela. As formas e as marcas corporais revelam através da imagem-cinema o sofrimento, resultando numa maneira de expressão desse sentimento e estado. Clara desvitaliza seu corpo a ponto de querer reduzi-lo a ossos e pele, controla e distorce sua imagem corporal, mas isso não alivia sua angústia.


Clara, ao longo de anos, enfrentou uma luta que parecia infindável, mas aos poucos consegue escapar do distúrbio que havia tornado a sua vida temporariamente impossível. Ela retoma a saúde, a sua vida social, entra no curso de Arquitetura e supera um sofrimento extenso e profundo através de um resistente e alongado processo de cura. Ela volta a si, transgride a sua solidão e dor. Desta vez, toma a rebeldia para despedir-se da enfermidade que a deslocou do mundo e de si própria durante muitos anos. Retoma para si a potência vital do seu corpo, como podemos visualizar na imagem seguinte. Toma para si um novo corpo, desta vez um Corpo sem Órgãos vitalizado e potente positivamente. Mas nem todas as pessoas que sofrem de anoréxia conseguem mudar esta rota que as desviaram em algum momento das suas vidas para conviver com esta dor.

Moara Passoni, ela própria, dos 11 aos 18 anos, esteve em estado de anorexia, sofreu na própria pele o que a sua personagem fílmica viveu. Depois de sair deste processo, por dez anos, refletiu e transformou tal experiência na inquietante e extraordinária ficção autobiográfica que ela zelosamente construiu no cinema. Lembro ainda que a mãe de Moara foi Deputada Federal por SP, assim como a mãe da personagem Clara.
Outro filme que aborda o tema é a média-metragem “Raposa/Reinard” (2019), uma docuficção da portuguesa Leonor Noivo (uma das fundadoras da produtora Terratreme). O filme estreou em Portugal no DocLisboa. O seu argumento e narrativa surgem a partir da relação de amizade entre a realizadora e a atriz Patrícia Guerreiro, atravessada por um distúrbio alimentar comum, uma anorexia nervosa. A personagem Marta (imagem a seguir), vivida por Patrícia Guerreiro, “procura no vazio do seu corpo, o caminho para uma qualquer essência de si, numa busca abstracta de um espírito livre que pode acabar na sua própria clausura“.

Como a personagem Clara do filme “Êxtase“, Marta cria uma espécie de rituais diários, como medições corporais e contagem de alimentos, tentando controlar a fome e as suas frustrações existenciais. “Tudo é contável num corpo em luta”, um corpo em combate rigoroso e incessante que busca atingir um estranho êxtase de se auto-sacrificar, diante do desespero de viver nesta condição.
As razões que levaram as duas personagens a viverem em estado de anorexia são distintas. No filme de Moara Passoni, assim como o de Leonor Noivo, há uma encenação e poesia singular das vidas abordadas e um primor estético com as imagens em grande parte compostas por planos fechados enfatizando a situação dos corpos anoréxicos. O primeiro é filmado em ambiente urbano do Brasil. Já o segundo, na zona rural na Serra da Gardunha, na casa da atriz-protagonista. E se Moara não se coloca presencialmente nas imagens do filme, em “Raposa” ouvimos Leonor e Marta/Patrícia no diálogo via voz-off. O título do filme é uma a metáfora da raposa, deste animal astuto e sugere a capacidade de humanos para encontrar soluções para adversidades das mais difíceis, o que na prática, no caso da personagem e do tema do filme de Leonor, tal esperteza pode ser um modo de resistir e sobreviver. As obras cinematográficas das duas realizadoras falam sobre todas as pessoas que sofrem com esse distúrbio e não apenas sobre elas próprias ou das personagens por elas criadas. Teaser do filme RAPOSA.
Para terminar, deixo aqui uma questão que surgiu durante o filme “Êxtase“, para a qual não tenho resposta e que vos convido a refletir sobre. Qual o limiar entre a vida e a morte para uma pessoa que carrega a anorexia no seu corpo? Este tema e distúrbio que afeta negativamente a vida de muitas pessoas e por diferentes motivos, afeta, em geral, a vida de adolescentes, é um transtorno alimentar que está muito ligado a depressão, solidão e ao suicídio, à um sofrimento insuportável e praticamente INVISÍVEL na sociedade.
PS: Conforme dados da Organização Mundial de Saúde – (OMS), cerca de 10% dos jovens brasileiros sofrem de distúrbios alimentares (anorexia e bulimia), sendo a maioria adolescentes mulheres entre 14 e 18 anos, uma doença com alta taxa de óbitos. A pessoa com anorexia recusa a alimentar-se, tem intensa perda de peso e desnutre-se. No caso das mulheres, há ainda interrupção menstrual, entre outras sequelas. Além disso, existem bloqueios e adversidades psicológicas, afetações na saúde mental e física e dificuldade no relacionamento social. Muitos casos estão ligados a relações familiares, atuando como factor que propícia o aparecimento e manutenção dos sintomas do quadro clínico. Alguns convivem com esta doença durante anos sem serem notados por quem os rodeia, mesmo tendo sintomas visíveis para além da magreza excessiva. A pessoa estabelece metas irreais em relação ao peso corporal e nega a fome. É uma enfermidade mais comum em profissões ligadas ao corpo, como: bailarinas, modelos, atletas, e curiosamente, em estudantes de medicina, nutrição e psicologia, etc.
Com 75 min de duração, Êxtase é a primeiro longa-metragem de Moara Rosseto Passoni, que é coargumentista dos filmes “Democracia em Vertigem” (2019) e “Olmo e a Gaivota” (2015) de Petra Costa. Êxtase foi produzido pela Produtora Busca Vida Filmes de Petra Costa. Foi exibido na competição oficial do CPH: DOX 2020, passou pela 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo/2020 e foi premiado em Portugal no PORTO/POST/DOC. Merecidamente recebeu muitos prémios em festivais de cinema dentro e fora do Brasil.
Moara agradece um dos prémios recebidos

