No meio da promoção organizada para “Vitalina Varela” chegar aos Oscars, a longa-metragem que deu o Leopardo de Ouro de Locarno a Pedro Costa será exibido presencialmente, no Rio de Janeiro esta quarta-feira, na abertura do que promete ser uma das mais completas mostras do cinema português contemporâneo em território brasileiro, tendo o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ) como arena de exibições.
A escolha doseu curador, Pedro Henrique Ferreira, para o título da retrospetiva é dos mais reverentes, abrangentes e precisas: De Portugal Para o Mundo. O evento segue desde 3 de fevereiro a 1 de março, indo de “Balada de um Batráquio”, de Leonor Teles, a “Colo”, de Teresa Villaverde, passando por “John From”, de João Nicolau. “A Fábrica de Nada”, que saiu de Cannes, há quatro anos, com o prémio da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci), também estará no menu do evento.
Nesta sexta-feira, às 17h30 (20h30 em Lisboa), o CCBB exibe “O Estranho Caso de Angélica” (2010), um dos filmes mais aclamados de Manoel de Oliveira (1908-2015). No dia 12, é dia da retrospetiva revisitar a ironia de Miguel Gomes e o seu “Tabu”, que saiu do Festival de Berlim com o Prémio de Inovação de Linguagem, tendo o ator brasileiro Ivo Müller no seu elenco, ao lado dos portugueses Teresa Madruga, Laura Soveral, Ana Moreira, Carloto Cotta e Isabel Cardoso. Na entrevista a seguir, Pedro Henrique explica ao C7nema o seu foco curatorial.
Que verbos de ação impulsionam a polifonia de vozes do cinema português deste recorte de 2010 a 2020 e que substantivos mais e melhor ganham subjetivação no discurso cinematográfico desse período?
Creio que alguns verbos muito significativos para o cinema português desta década seriam o ‘fabular’, o ‘posar’ e o ‘esperar’. Acho que estas três coisas caminham juntas em propostas às vezes muito diferentes entre si. Entre a austeridade formal de um Pedro Costa e a dispersão de um Miguel Gomes, ou entre experiências documentais mais experimentais, como as de Salomé Lamas, e várias das ficções mais frontais da mostra, há quase sempre uma ética da espera e uma tentativa de fabular sobre o real, fazê-lo posar para a câmara de alguma maneira. Para contrapor a estes verbos, escolheria substantivos como “real”, “presente” e “política”, pois creio que este trabalho estético é sempre atravessado pela necessidade de se refletir sobre o momento presente da Europa, as sequelas da crise económica, da herança colonizadora ou ditatorial, por exemplo.
O que a miscelânea Portugal x Cabo Verde dá às Fontainhas de Pedro Costa e o que ele dá ao cinema do seu país?
Pedro Costa fez de Fontainhas o seu objeto de escrutínio, de estudo da matéria que compõe aquele lugar e o mundo daquelas pessoas, ao mesmo tempo em que Fontainhas resiste a esta apreensão, mostra-lhe uma inconciliação entre duas formas de estar, devolve-lhe vida ao resistir a ele. Este embate entre o seu desejo de fazer uma retratística e a mera existência de um povo real, com uma história própria, vitimada pela colonização, é certamente das coisas mais interessantes que o cinema contemporâneo nos deu. Quando falamos de Pedro Costa, certamente estamos falando de um dos diretores mais importantes dos nossos tempos, que deixou um legado ímpar à história do cinema. Por isso, uma obra como “Vitalina Varela” merece tanto destaque.
Qual é a dimensão de realismo e qual é a dimensão de fábula que mais parece mover o cinema português?
Como disse acima, uma das coisas que parecem ponto comuns nesta seleção de filmes é este movimento cíclico que vai do real à fábula e da fábula ao real o tempo todo. Poderíamos argumentar que todo cinema faz isto, mas este conjunto de filmes parece que muitas vezes sente a vontade de deixar este jogo às mostras. Podemos sentir na produção desta década todos os efeitos da crise económica de 2008 sobre o país, ao mesmo tempo em que, do ponto de vista narrativo, não raro, eles flertam com algum elemento fantástico. Não há aqui a necessidade de se opor fábula e realidade. Pelo contrário, explorar as formas como uma nasce da outra.
De que maneira Manoel de Oliveira, até hoje ainda mítico entre nós como o grande pilar do cinema português cá nas telas, entra como influência para os demais diretores?
Vejo que muita da herança literária, o gosto pela palavra e pela exploração das entonações, bem como o desejo pictórico do plano cinematográfico, de fazer do tableaux uma tábula rasa para a criação imagética, do misé-en-place, da luz, etc… vem deste cânone que é Manoel de Oliveira. Não só dele, é claro, mas também de António Reis, João Bernard da Costa e outros. E há a marca da irreverência transgressora de João César Monteiro nesta geração, certamente. Só que Manoel de Oliveira é não apenas uma referência, mas um verdadeiro símbolo de um conjunto de recursos eternamente associados ao cinema português. Por isso, fizemos questão também de marcar a retrospectiva exibindo “O Estranho Caso de Angélica” e “O Velho do Restelho”. O cinema contemporâneo, com frequência, não cessa de beber dele.
É possível falar em cinema de género nessa tua seleção? Como e porquê (sim ou não)?
Em princípio, não. São filmes que estão mais ligados ao campo do cinema de autor, em suas formas de produção e circulação, do que a um cinema comercial. Circulam internacionalmente, ganham validade em circuito de festivais, são, frequentemente, coproduções internacionais, e participam de um cenário onde a figura do realizador é de suma importância. Dito isto, é claro que muitos destes filmes flertam eventualmente com géneros cinematográficos e se aproveitam de seus elementos – dramas, comédias, musicais, etc.
3 de fevereiro – Quarta-feira
15h30 – Curtas 1
Nyo Vweta Nafta, de Ico Costa, 2017, 22 minutos, Cor, 16 anos
Farpões, baldios, de Marta Mateus, 2017, 25 minutos, Cor, 12 anos
Balada de um batráquio, de Leonor Teles, 2016, 12 minutos, Cor, 12 anos
17h30 – Pré-estreia: Vitalina Varela, de Pedro Costa, 2019, Cor, 124 minutos, 12 anos
4 de fevereiro – Quinta-feira
15h30 – Curtas 2
O corcunda, de Gabriel Abrantes e Ben Rivers, 2016, 29 minutos, Cor, 14 anos
Ascensão, de Pedro Peralta, 2016, 17 minutos, Cor, 16 anos
Redenção, de Miguel Gomes, 2013, 26 minutos, Cor e P&B, Livre
17h30 – Ramiro, de Manuel Mozos, 2017, Cor, 104 minutos, 14 anos
5 de fevereiro – Sexta-feira
14h30 – Colo, de Teresa Villaverde, 2017, Cor, 136 minutos, 14 anos
17h30 – O estranho caso de Angélica, de Manoel de Oliveira, 2010, Cor, 97 minutos, 12 anos
6 de fevereiro – Sábado
15h – Fantasia lusitana, de João Canijo, 2010, P&B e Cor, 66 minutos, 14 anos
17h – A portuguesa, de Rita Azevedo Gomes, 2019, Cor, 136 minutos, 12 anos
7 de fevereiro – Domingo
14h – O ornitólogo, de João Pedro Rodrigues, 2016, Cor, 118 minutos, 14 anos
17h – E agora? Lembra-me, de Joaquim Pinto, 2013, Cor, 164 minutos, 16 anos
8 de fevereiro – Segunda-feira
16h – Fordlandia Malaise, de Susana de Sousa Dias, 2019, 40 minutos, P&B, 10 anos
17h30 – Cartas da guerra, de Ivo M. Ferreira, 2010, P&B, 105 minutos, 14 anos
10 de fevereiro – Quarta-feira
15h30 – Understory, de Margarida Cardoso, 2019, Cor, 81 minutos, 12 anos
17h30 – Curtas 3
Como Fernando Pessoa salvou Portugal, de Eugene Green, 2018, 26 minutos, Cor, 14 anos
O velho do Restelo, de Manoel de Oliveira, 2014, 19 minutos, Cor, 10 anos
O mar enrola na areia, de Catarina Mourão, 2019, 15 minutos, P&B, Livre
11 de fevereiro – Quinta-feira
15h – Volta à terra, de João Pedro Plácido, 2014, Cor, 78 minutos, 16 anos
17h – É na terra, não é na lua, de Gonçalo Tocha, 2011, Cor, 180 minutos, Livre
19h – Debate online – “Portugal e as colónias” – pelo aplicativo Zoom, Livre.
12 de fevereiro – Sexta-feira
14h – Conversa online com o diretor Gonçalo Tocha, de É na terra, não é na lua, pelo aplicativo Zoom, Livre.
15h – A vida invisível, de Vítor Gonçalves, 2013, Cor, 73 minutos, 12 anos
17h30 – Tabu, de Miguel Gomes, 2013, P&B, 118 minutos, 12 anos
13 de fevereiro – Sábado
14h – John From, de João Nicolau, 2015, Cor, 100 minutos, Livre
17h – A fábrica de nada, de Pedro Pinho, 2017, Cor, 177 minutos, 14 anos
14 de fevereiro – Domingo
14h – A árvore, de André Gil Mata, 2018, P&B e Cor, 104 minutos, 12 anos
17h – Eldorado XXI, de Salomé Lamas, 2016, Cor, 125 minutos, 12 anos
17 de fevereiro – Quarta-feira
15h – Understory, de Margarida Cardoso, 2019, Cor, 81 minutos, 12 anos
17h30 – Fordlandia Malaise, de Susana de Sousa Dias, 2019, 40 minutos, P&B, 10 anos
18 de fevereiro – Quinta-feira
14h – Conversa online com a realizadora Susana de Sousa Dias, de Fordlandia Malaise, pelo aplicativo Zoom, Livre.
15h – Cartas da guerra, de Ivo M. Ferreira, 2010, P&B, 105 minutos, 14 anos
19 de fevereiro – Sexta-feira
15h – Curtas 1
Nyo Vweta Nafta, de Ico Costa, 2017, 22 minutos, Cor, 16 anos
Farpões, baldios, de Marta Mateus, 2017, 25 minutos, Cor, 12 anos
Balada de um batráquio, de Leonor Teles, 2016, 12 minutos, Cor, 12 anos
17h – O ornitólogo, de João Pedro Rodrigues, 2016, Cor, 118 minutos, 14 anos
20 de fevereiro – Sábado
14h – Tabu, de Miguel Gomes, 2013, P&B, 118 minutos, 12 anos
17h – Vitalina Varela, de Pedro Costa, 2019, Cor, 124 minutos, 12 anos
21 de fevereiro – Domingo
15h – Curtas 3
Como Fernando Pessoa salvou Portugal, de Eugene Green, 2018, 26 minutos, Cor, 14 anos
O velho do restelo, de Manoel de Oliveira, 2014, 19 minutos, Cor, 10 anos
O mar enrola na areia, de Catarina Mourão, 2019, 15 minutos, P&B, Livre
17h – A portuguesa, de Rita Azevedo Gomes, 2019, Cor, 136 minutos, 12 anos
22 de fevereiro – Segunda-feira
15h – Fantasia lusitana, de João Canijo, 2010, P&B e Cor, 66 minutos, 14 anos
17h30 – Volta à terra, de João Pedro Plácido, 2014, Cor, 78 minutos, 16 anos
24 de fevereiro – Quarta-feira
15h – Curtas 2
O corcunda, de Gabriel Abrantes e Ben Rivers, 2016, 29 minutos, Cor, 14 anos
Ascensão, de Pedro Peralta, 2016, 17 minutos, Cor, 16 anos
Redenção, de Miguel Gomes, 2013, 26 minutos, Cor e P&B, Livre
17h – A árvore, de André Gil Mata, 2018, P&B e Cor, 104 minutos, 12 anos
(sessão com audiodescrição e legenda descritiva)
25 de fevereiro – Quinta-feira
15h – É na terra, não é na lua, de Gonçalo Tocha, 2011, Cor, 180 minutos, Livre
19h – Debate online – “Onde está o Mundo? Ou das estratégias de aproximação” – pelo aplicativo Zoom, Livre.
26 de fevereiro – Sexta-feira
14h – A vida invisível, de Vítor Gonçalves, 2013, Cor, 73 minutos, 12 anos
17h – E agora? Lembra-me, de Joaquim Pinto, 2013, Cor, 164 minutos, 16 anos
27 de fevereiro – Sábado
14h30 – Eldorado XXI, de Salomé Lamas, 2016, Cor, 125 minutos, 12 anos
17h30 – John From, de João Nicolau, 2015, Cor, 100 minutos, Livre
28 de fevereiro – Domingo
15h – Ramiro, de Manuel Mozos, 2017, Cor, 104 minutos, 14 anos
17h30 – O estranho caso de Angélica, de Manoel de Oliveira, 2010, Cor, 97 minutos, 12 anos
1º de março – Segunda-feira
14h – A fábrica de nada, de Pedro Pinho, 2017, Cor, 177 minutos, 14 anos
17h30 – Colo, de Teresa Villaverde, 2017, Cor, 136 minutos, 14 anos

