Retornar ao passado, escavar a memória de um tempo que só é possível aceder em forma de imagens e sons, cinematizar a passagem de Glauber Rocha pela cidade de Sintra em Portugal, é o que faz Paula Gaitán no “Diário de Sintra” (2007), um belo e poético ensaio fílmico que envolve ela própria e o memorável realizador brasileiro dos filmes “Terra em Transe” e “Deus e o diabo na terra do sol“, entre outros.

Um filme “tempo redescoberto”, um fluxo temporal conservado e atualizado no presente. Gaitán, 30 anos após ter compartilhado parte da sua vida com Glauber em Sintra, refaz o caminho misturando camadas de vida, acedendo “o tempo do depois” através de imagens de arquivo filmadas pelos dois e mais recentemente outras que ela fez, além de fotografias e vídeos familiares, trechos de cartas, citações literárias e uma voz off que narra os sentimentos e os trânsitos de Glauber quando estava no exílio em terras lusas.
A realizadora enlaça cuidadosamente esta memória com conversas dispersas com antigos habitantes de Sintra, na tentativa de recuperar algo caro a ela, rastos temporais, o que ficou de Glauber. Entretanto, eles não se lembram dele. Ela conversa também com pessoas que estiveram ligadas a Glauber na sua vida em degredo. Ele que em 1975 filmou em Portugal o dia 25 de abril, a Revolução dos Cravos, colaborando no filme coletivo “As Armas e o Povo” (1975), um documentário assinado por um coletivo de Trabalhadores da Atividade Cinematográfica, que registou os primeiros dias de liberdade de um povo a viver os primeiros momentos do processo revolucionário. Ele foi o único estrangeiro convidado a colaborar neste filme.

O cineasta escolheu Sintra por ser um bom lugar para se refugiar, tendo consciência que era uma falsa pátria, um lugar onde vivia no exílio, como estrangeiro com todo o desconforto que tal condição acarreta.
Júlia Kristeva em “Estrangeiros, a nós mesmos” retrata um panorama histórico sobre a condição do estrangeiro, o modo de vida e o destino dessas pessoas em outros países e consigo mesmo. Mas não necessariamente pessoas exiladas, apesar de que ser estrangeiro, para mim, já é em si uma situação de “exílio”. Glauber de certo modo foi estrangeiro de si mesmo, um homem revolucionário para o seu tempo, estrangeiro tanto no território quanto na sua perceção do mundo: “o estranho está em nós: somos nós próprios”. Ele vivia num estado “transitório perpétuo”. Com a sua corajosa rebeldia e ventania desviante, sempre envolveu deslocamentos nos seus filmes, de lugares e pontos de vistas sobre as coisas, alguém que jamais se contentava com uma visão cristalizada da vida e do cinema, e que tomava a 7ª arte como modo de resistir e confrontar o mundo.
No filme ouvimos e vemos Glauber Rocha relatar: “Sintra é um belo lugar para morrer. Eu não gostaria de morrer, porque tenho 42 anos e ainda muitas coisas a fazer. Mas não tenho medo da morte”. O cineasta chegou em Portugal em 1974 e viveu em Sintra até 1981, ano e lugar onde adoece, ficando internado em Lisboa por uns dias. Nascido na Bahia em 1939, Glauber viria a morrer no Rio de Janeiro, aos 42 anos de idade, a 22 de agosto de 1981.


“Diário de Sintra” (2007) é um filme belíssimo e foi coproduzido pela portuguesa Filmes do Tejo. Está disponível online e gratuitamente até sábado, dia 30.01.21, na Mostra de Cinema de Tiradentes – Minas Gerais/Brasil, evento que este ano faz uma merecida homenagem a Paula Gaitán. Em exibição está este e outros filmes:
Ostinato (2021), documentário sobre o processo criativo do músico e compositor brasileiro Arrigo Barnabé.
Luz nos trópicos (2020), filme com 4h19 min de duração. Paula “tece uma densa trama de histórias, linhas de tempo e cenários, mesclados com cosmologias indígenas, relatos de viagens e literatura antropológica. Inicialmente, a realizadora acompanha um jovem de origem indígena. No início, ele está às margens do East River no inverno. Logo, ele viaja rio acima pela floresta brasileira até uma aldeia, onde é saudado como um velho amigo. Num segundo enredo, a cineasta acompanha um grupo de colonos europeus. Eles também estão viajando rio acima, coletando, possuindo e procurando uma posição de onde possam inspecionar a floresta e o rio. Cerca de 150 anos separam as duas camadas; às vezes, um mergulho na água dissolve essa separação no espaço de um segundo. Mais adiante, o filme vagueia para o norte novamente e as camadas colapsam umas nas outras. Entre o Lago Walden e a Amazônia fica apenas um corte. Luz nos Trópicos é uma homenagem à abundante vegetação da região amazônica, às matas da Nova Inglaterra no inverno e às populações indígenas das duas Américas. Um filme que flui tão livremente como um rio sinuoso”.
Ópera dos Cachorros (2020), filme experimental. Percurso de Paula Gaitán pelas ruas de São Paulo, gravando as suas canções e invenções sonoras enquanto caminha.
Se hace el camino al andar (2020), percurso de um homem através do tempo ou espaço infinito.
Mulher do fim do mundo (2017), videoclipe, sobre o devir mulher no mundo contemporâneo, a sua emancipação e lutas.
Noite (2015), “o filme mostra um registo sensorial dos corpos e dos sons urbanos. Durante à noite, uma mulher passeia pela cidade, e ouve as diversas músicas ao redor: jazz, rock, música electrónica”.
Exilados do vulcão (2013), filme lindo, livremente adaptado do romance “A neblina” de Christiane Tassis. Uma mulher cruzando montanhas e estradas refaz os passos do homem que um dia amou. Os lugares que ela visita carregam pessoas, gestos, lembranças e histórias que, pouco a pouco, tornam-se parte da sua vida.
O uso do silêncio, de textos literários e línguas estrangeiras, de fotografias e cartas, narração em off, camadas de imagens filmadas e de arquivo, atores brasileiros e de outros países e que se repetem nos filmes, gestos tênues, a quase ausência de ação, desdramatização, fragmentos de memória e tempo e experimentalismo, planos longos e movimentos lentos, imagens poéticas, belas e contemplativas, são constantes no cinema de Gaitán.
A Mostra de Cinema de Tiradentes apresenta o cinema brasileiro contemporâneo independente, está na sua 24ª edição de 22 a 30 de janeiro de 2021, sendo a primeira vez em formato online. “Traz ao público a diversidade da produção cinematográfica brasileira – uma trajetória abrangente que ocupa espaço de destaque no centro da história do audiovisual e no circuito de festivais realizados no Brasil.” E é totalmente gratuita.

