Há melhor forma de marketing para uma série sobre pornografia do que a imagem de uma mulher bonita, dentro de um carro, com pestanas falsas, decote honrado e uma pala no olho? Havia, mas não era a mesma coisa…
Na verdade, dizer que “Adult Material” é uma série sobre pornografia não é correto. É uma série sobre a indústria pornográfica, mas é sobretudo uma história sobre uma mulher comum, que luta diariamente pelo bem-estar dos seus filhos e que trabalha, por gosto, num universo onde as mulheres são mais bem pagas do que os homens.

Numa época em que o feminismo e a sua causa tão depressa resvala entre atitudes de extremismo e de ataque, “Adult Material” é uma lufada de ar fresco neste 2020 televisivo.
A série do Channel 4, que em Portugal está disponível no catálogo HBO, gira em torno de Hayley Burrows (Hayley Squires), uma trabalhadora e dedicada mãe de três filhos. O seu trabalho é ser estrela da indústria pornográfica britânica, na qual o seu pseudónimo é Jolene Dollar. Respeitada, bem-sucedida, mulher experiente, sabe bem o que quer e tem uma visão muito clara e própria de como devia ser a indústria de que faz parte.
A experiência profissional, aliada à pessoal faz com que Hayley seja uma espécie de sindicalista da classe, mas verdade seja dita, muitas vezes, o sindicato é presidido e composto apenas por ela própria. Ao defender e salvaguardar o bem-estar psíquico e físico de uma recém-chegada à profissão, a protagonista da história intromete-se num drama que vai envolver os proprietários de produtoras, distribuidores, realizadores e atores da indústria de filmes para adulto e como consequência disso tudo, a comunicação social e a classe política. Tudo isto é envolvo numa aura de humor que dá a “Adult Material” um encanto muito próprio e ao mesmo tempo bastante emotivo.
Apesar de saber que a sua profissão coloca em causa a relação com os filhos e com o marido, Hayley sabe que é a única forma ganhar o suficiente para sustentar a casa e manter os filhos em colégios privados. Além dos filmes, a estrela pornográfica, tira proveito monetário das redes sociais e de sites (pagos) com conteúdos para adultos. Jolene Dollar não esconde que gosta da sua profissão, mas também deixa muito claro quais são os seus limites: não faz cenas de sexo anal e recusa trabalho quando não gosta do coprotagonista.
“Adult Material”, criada e escrita por Lucy Kirkwood e realizada por Dawn Shadforth é um exemplo forte de uma história séria, contada de forma leve e confiante. Na protagonista não assenta o peso de uma vítima, da vergonha ou de vulnerabilidade. Hayley Burrows é assumidamente uma mulher da empresa pornografia, que por sua vez não é retratada como um universo decadente, mas também não é exposta como algo glamoroso. Como em qualquer negócio, na pornografia há gente boa, competente e livre de opções, mas também existem pessoas más, gananciosas e sem escrúpulos.


Há três notas que a série dá conta e que são importantes realçar: sempre, depois das filmagens, as atrizes são filmadas com um documento de identificação pessoal e um contrato nas mãos e têm que responder a algumas perguntas como “durante as cenas sentiu que estava a ser violada?” a que, tratando-se de profissionais, a resposta é “não”. A cada fim de dia de trabalho, as mulheres são inquiridas no momento em que as suas defesas estão mais em baixo e assim, são confrontadas com um choque de realidade.
A outra nota, é que a certa altura, Hayley recusa marcar presença numa festa de tributo a um famoso ator pornográfico americano porque a especialidade dele é filmar cenas de sexo com “menores”. O responsável pela produtora que Hayley faz parte depressa se justifica com o argumento “elas só aparentam ter cerca de 11 anos”, a que a mulher responde, sabiamente “elas aparentam ter 11 anos. Algumas dizem: ‘Eu tenho 11 anos‘”.
Há também uma referência muito importante acerca de doenças sexualmente transmissíveis. É que apesar de todos os testes exigidos aos atores, Jolene apanha clamídia no olho. Como é que isso aconteceu? Ejaculação facial, um sucesso entre os fãs da pornografia.
Esta questões não são tratadas como ataques à milionária indústria da pornografia, mas são importantes de dar nota, sobretudo a segunda. Basta por exemplo, termos em conta o processo que o PornHub tem estado a levar a cabo com a deteção no seu catálogo de conteúdos pedófilos. A plataforma de vídeos para adultos foi obrigada a eliminar 75% dos seus conteúdos e recebeu a acusação de que não verificava a origem dos vídeos e de ser compactuante com abuso de menores.
A série protagonizada por Hayley Squires, que é soberba no seu papel, é um exercício sobre compromisso, proteção, união e não é sobre feminismo, é sobre direitos, lutas e opções de humanos, sem género. Não tem como público alvo, puritanos ou falsos moralistas pois estes vão ficar ofendidos com o conteúdo. Mas é igualmente importante esclarecer aqueles que, a propósito do título, poderão ir à procura de algo mais explicito, não o façam. Não existe nada que ultrapasse os critérios da normalidade.

