Murder on Middle Beach: uma história sensível contada na primeira pessoa

A história de um filho que procura respostas em torno do homicídio da mãe.

(Fotos: Divulgação)

Se um documentário sobre um crime nunca é fácil, um documentário realizado por um filho que investiga a morte da própria mãe, cujos principais suspeitos são familiares, é ainda mais difícil.

O título da série documental HBO, “Murder on Middle Beach”, não faz jus à luta que Madison Hamburg leva a cabo, a título pessoal e profissional. Sim, porque ao longo de quatro episódios assistimos à luta interna deste jovem que conta a sua história e que tenta, a todo o custo e com sucesso, cumprir todas as metas de um bom documentário criminal: mostrar todas as vertentes da investigação, dar voz a todas a todos os envolvidos e que nunca, em momento algum, esquece o foco da sua pesquisa: a morte da mãe.

Em março de 2010, Barbara Hamburg foi brutalmente assassinada à porta da sua casa. Foi a sua irmã Conway e a sobrinha, filha de Barbara, irmã de Madison, que encontraram o corpo. O homicídio aconteceu no preciso dia em que Bárbara tinha que comparecer em tribunal para uma audiência, num processo contra o seu ex-marido Jeffery Hamburg.

Logo no primeiro episódio fica bastante claro que três membros da família – Jeffery, Conway e a filha de Barbara, Ali – são os principais suspeitos do crime, e Hamburg, o cineasta, não esconde esse detalhe. Com imparcialidade e de forma bastante competente, leva o espectador numa viagem em torno da investigação, compilando fontes numa história que envolve suspeitas e confiança, ou ausência dela.

O cineasta regressa à cidade onde tudo aconteceu à procura de respostas para as suas difíceis perguntas. Muitas dessas respostas não foram as que certamente esperava, e várias delas originaram novas questões.

Na sua investigação e reencontro com a família, Madison vai encontrar uma família dilacerada, o que é mau para o realizador (enquanto ser humano), mas que dá a “Murder on Middle Beach”, uma vertente de mistério ainda mais fascinante. Na sua busca pela verdade, o documentarista descobre que a mãe, tias e primas faziam parte de um esquema em pirâmide, denominado “mesas de presentes” (“gifting tables”). Eram grupos de mulheres, numa primeira fase, de classe média / alta que se reuniam nas suas casas, ao longo de toda a costa de Connecticut e que basicamente “doavam” dinheiro para uma espécie de “cadeia alimentar”, ou seja, cada membro novo, doava dinheiro à sua superior e por aí em diante [Esquema Ponzi]. Obviamente que, como qualquer falcatrua destas, o que começou [ilusoriamente] bem, terminou mal. Uns enriquecerem, outros perderam muito dinheiro. Discórdias e discutas rapidamente surgiram nos grupos e celeremente alcançaram a família de Barbara, levando mesmo a corte de relações entre a mulher, a sua irmã e tia. Este esquema de fraude foi descoberto e várias mulheres foram presas, incluído a tia do realizador.

Como se esta história não fosse, só por si, um rastilho gigante, também o pai do cineasta tem um passado obscuro. Na sua investigação, Madison descobre documentos financeiros e jurídicos de Jeffery Hamburg que sugerem operações ilegais à escala internacional.

Acresce a tudo isto, a doença que Barbara tinha e que, aparentemente é hereditária e que era partilhada com as irmãs: o alcoolismo.

O autor do documentário nunca branqueia o passado ou a investigação. A história é sempre pessoal, tratada com honestidade e sensibilidade. Madison tem a capacidade de entrevistar os seus familiares e – não esqueçamos, suspeitos – terminando-as com sentidos abraços e um “I love you”.

A investigação que levou a cabo fez com que conseguisse arrecadar mais provas do que a própria polícia. Polícia esta que Madison contactou várias vezes, sempre pronto a partilhar e receber informação, o que sempre negaram. Este obscurantismo na partilha de informação resultou mesmo numa ação judicial – que assistimos no documentário – e que resultou na obrigatoriedade de partilha de informação. Madison recorreu muitas vezes a escutas ilegais, sobretudo se tivermos em conta que gravou sempre o áudio das suas conversas com os detetives da investigação, mas também sempre que se encontrava com o fugidio pai, o suspeito número um.

O ponto fraco do jovem cineasta é sem dúvida a sua irmã. Acusada diretamente pela tia de ser a responsável pelo assassinato da mãe, Madison, luta incessantemente pela verdade, sem nunca deixar de fazer as perguntas duras e explicitas à mana.

Apesar do foco central do documentário ser uma história triste, Madison conseguiu, com grande profissionalismo, criar algo sensível, fascinante e mostrar, acima de tudo, uma devoção admirável em encontrar o(a) / os(a)s culpados pela morte da mãe, sejam quem forem.

Murder on Middle Beach” é uma excelente adição ao catálogo HBO, que está cada vez mais a apostar e bem no formato docuseries.

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