Admirável Mundo Novo: design de excelência ao serviço de uma utopia

Brutalismo, mobiliário vintage e inteligência artificial são os elementos base da estética futurista de “Nova Londres”

(Fotos: Divulgação)

Se a adaptação da obra de Aldous Huxley a série não é a mais feliz no que ao argumento ou até mesmo à escolha do elenco diz respeito, o guarda-roupa e sobretudo os cenários merecem vários louvores. Aliás, os dois elementos estéticos são tão colossais que chegam a diminuir todo o resto, o que pode ser positivo ou negativo, depende da perspetiva ou gosto dos espectadores.

Que cenário terá uma utopia que acolhe uma sociedade futurista? Terá sido esta a pergunta que o designer de produção David Lee, a decoradora Poppy Luard, o showrunner David Wiener bem como a restante equipa colocaram vezes sem conta.

Na nossa história, Nova Londres é construída sobre o dogma da própria cidade. Portanto, todas as ideias filosóficas alimentam a arquitetura, e postulamos que ela foi construída por inteligência artificial”, disse Wiener ao Architectural Digest.

Baseado no romance homônimo de Aldous Huxley (1932), a série tem como cenário uma sociedade controlada pela Indra, um programa de computador que mantém os seus elementos conectados entre si para manter estabilidade. Os bebés criados em laboratório e atribuídos a diferentes castas como embriões. Todos os habitantes de Nova Londres enxotam sentimentos desconfortáveis tomando vários comprimidos codificados por cores e designados de Soma, e todos são encorajados manterem-se felizes e ocupados sendo o mais sexualmente promíscuos possível. A monogamia não é permitida.

Para o designer a criação de um lugar assim, foi um desafio. “Queríamos algo que fosse bonito, mas não desafiador”, disse Wiener, a que acrescenta: “Isto leva a pensamentos desestabilizadores. Embora possa afirmar que a cidade inteira é uma obra de arte, tem uma ‘vibe’ moderna de meados do século – linda na sua totalidade mas que não choca nem confronta ninguém com grandes ideias, porque esse é o tipo de coisas que abalariam os habitantes de Nova Londres”.

Além dos elementos práticos da cidade utópica, como as grandes janelas e numerosos espaços comuns que acentuam a falta de privacidade, o minimalismo, a ausência de qualquer objeto de arte ou de artefactos pessoais e as diferenças decorativas e distintas nos aposentos das várias classes sociais, a equipa criou futurismo sem parecer algo saído de um projeto de ficção científica. “Pareceu relevante que uma inteligência artificial incorporasse o que consideramos elegância. Tinha um toque retro”, diz Lee.

Faz sentido que um computador procure e use os melhores exemplos de design do passado para criar uma cidade do futuro, então foi isso a equipa aplicou na sua pesquisa e que teve como referência máxima o brutalismo de Oscar Niemeyer, a obra do arquiteto italiano Carlo Scarpa e o trabalho do arquiteto francês Gérard Grandval.

A paisagem urbana contígua é frequentemente exibida através das janelas dos escritórios dos Alfas, ou de membros de alto escalão da sociedade. Essas paisagens foram na sua maioria desenhadas digitalmente mas também foram capturadas em localizações no Reino Unido e em Espanha.

Embora impessoal, uniforme e com cores suaves, os móveis de Nova Londres são tão elegantes e tão cheios de estilo quanto a arquitetura. “A fim de obter uma linguagem visual coesa e de unir os locais às construções do cenário, sabíamos que teríamos que fazer muitas coisas sob medida”, diz Luard. Isso incluiu vários sofás modulares de Osaka projetados por Pierre Paulin e feitos para a série pela La Cidivina de Itália, cadeiras baseadas na série Welle de Verner Panton, assentos estofados em forma de esfera da empresa dinamarquesa Vluv, peças personalizadas do Bohinc Studio de Londres, cadeiras de balanço feitas pela Moooi, iluminação vintage e nova com etiqueta Foscarini e muito mais. As feiras comerciais das décadas de 1930, 40 e 50 forneceram uma grande inspiração, assim como “o design dos anos 1960 que procuravam uma espécie de vida utópica”, esclareceu Luard.

Os poucos pontos de maior cor são encontrados nos comprimidos Soma, que têm cores vivas e nas atividades destinadas a ajudar os residentes a manter a tristeza sob controlo. Lee considera que o jogo de ténis Yellowball é “um dos conjuntos de maior sucesso”: ao entrar na quadra, as personagens parecem estar envoltas em neon por todos os lados. Nas festas ou no clube noturno, as luzes vermelhas e rosa giram em torno da pista de dança.

Em última análise, o cenário desta história – e a maneira como é desmontada – é fundamental a moral da mesma. “O que mais preocupava Aldous Huxley era que as pessoas se tornassem tão sexualmente estimuladas, tão farmacologicamente entorpecidas e tão preocupadas com o entretenimento que ficariam num estado em que evitariam olhar para dentro ou para fora de si de uma forma desconfortável. Eles existiriam sem ansiedade e chamariam isso de felicidade, mas na verdade o que isto é, é cegueira ”, diz Wiener. “Acho que é por isso que a história de Admirável Mundo Novo é importante neste momento. Felizmente, esta série é muito relevante e, ao mesmo tempo, infelizmente muito relevante”.

Uma pena que o design não tenha correspondência de grandiosidade na adaptação e nas interpretações na série Peacock que em Portugal está disponível no catálogo HBO.

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