“Grizzly II” chega ao MOTELx após décadas de hibernação

(Fotos: Divulgação)

Laura Dern, George Clooney e Charlie Sheen caminham pela paisagem em busca de um local para pernoitar. Poucos momentos após acamparem, o trio é assassinado violentamente por um urso pardo gigante, uma criatura com pelo menos 5 metros de altura. Em inicio de carreira, estes três são os adolescentes de serviço prestes a serem chacinados por uma besta sanguinária nesta sequela do filme de 1976, “Grizzly: O Monstro da Floresta” (1976). A sua presença não é maior que cinco minutos, mas os seus nomes enchem agora os créditos de um projeto que levou quase 40 anos a ser concluído.

Tal como o seu antecessor, “Grizzly II: The Predator“, entretanto renomeado “Grizzly II: The Revenge“, segue em toda a linha as directrizes que “Jaws” (O Tubarão) solidificou em 1975: uma criatura gigantesca ataca um grupo de pessoas, cabendo a um agente de autoridade (um guarda-florestal), com a ajuda de um caçador místico e uma especialista, travar esta besta assassina. Aqui não temos o verão a chegar, nem um presidente da câmara a tentar salvar a economia da cidade, mas sim a superintendente de um festival de música que decorre na área onde o predador ataca.

Compreenda-se que todas as filmagens planeadas para “Grizzly II“nunca foram concluídas. Na verdade, este projeto foi elaborado por uma produtora húngara em Hollywood, Suzanne Nagy, e por Joseph Ford Proctor, outro produtor que – entretanto- desapareceu com dinheiro angariado para a concretização do filme. Proctor já tinha, uns anos antes, enganado outra figura do cinema: Jerry Lewis.

Filmagens na Hungria e um concerto épico

Poucos meses depois de Ronald Reagan declarar a URSS um “império do mal”, a produção de “Grizzly II: The Predator” deslocou-se para a Hungria devido aos menores custos e tomou conta de uma vasta base militar soviética. Foi aí, nas florestas da Hungria, que decorreram as filmagens, tudo sobre o olhar dos tanques sovietes e da presença da polícia secreta.

No meio dessas rodagens, um evento capitalizava as atenções. Um concerto de synth-pop iria entreter os fãs de música do Leste Europeu. Esse concerto era uma chave central para o filme, pois estaria a decorrer enquanto a ameaça (o urso) andava na área. Eram para ser só 20 mil espectadores, mas surgiram 50 mil figurantes para ouvir nomes como as Toto Coelo ou os Nazareth, que faziam parte do linup musical. Curiosamente, muitas das bandas convidadas e presentes no show nem sabiam que o que estava em causa era um filme.

Um elenco de luxo, mas sem ursos

Se Laura Dern, George Clooney e Charlie Sheen eram jovens em início de carreira, outros nomes já tinham alguma consagração, como Louise Fletcher, a inesquecível enfermeira Ratched, de “Voando Sobre um Ninho de Cucos“, ou John Rhys-Davies, acabadinho de dar nas vistas em “Os Salteadores da Arca Perdida“. Timothy Spall é outro dos nomes no elenco, mas curiosamente não aparece nos créditos da IMDB.

Quanto ao Urso, na verdade havia um trio de bestas mecânicas que foram armazenadas num depósito perto de Budapeste, esperando-se que seguissem para o Reino Unido e depois para os EUA, onde se iriam trabalhar as cenas dos ataques do Urso quando se conseguisse mais financiamento para a obra. Porém, pouco depois de retornar ao Reino Unido, o responsável pelos efeitos práticos, Nick Maley, foi informado de que os ursos foram apreendidos por oficiais húngaros, aparentemente frustrados com as dívidas locais não pagas. Um incêndio no armazém destruiu os ursos e tudo se complicou ainda mais. Sem dinheiro para acabar as filmagens, sem imagens propriamente ditas dos ursos, sem os ursos mecânicos, e sem um fio condutor, Grizzly II foi progressivamente abandonado, isto apesar das inúmeras tentativas de Suzanne Nagy de encontrar novos investidores.

Décadas depois, porém, ela voltou ao filme, editando-o com a adição de vídeos genéricos de floresta e animais, e nasceu “Grizzly II: The Revenge”, exibido agora em festivais de cinema, como o Motelx.

Um descalabro de filme

Grizzly II: The Revenge” é, essencialmente, uma colagem mal emaranhada de imagens incompletas e muitas vezes sem nexo, onde pontuam ainda diálogos absurdos e sequências musicais sem qualquer continuidade. No fundo, o filme tem a totalidade do interesse por causa da sua martirizada produção, algo que certamente será delicioso de ver num documentário sobre tudo o que falhou neste projeto.

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