Leonardo Villar, além das promessas: o legado de um titã da atuação

A morte do ator, aos 96 anos, no dia 3 de julho, trouxe à tona todo o legado desse ator que fez da discrição pessoal uma assinatura de elegância.

(Fotos: Divulgação)

Em paralelo à génese do Cinema Novo, a mais radical (politicamente) das experiências do audiovisual brasileiro do século XX, um filme sintonizado às mazelas sociais dos seu país – mas com uma estrutura narrativa sem conexão com os poemas modernos de Glauber Rocha, Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade & cia – ganhou as telas do mundo a partir do Festival de Cannes, tendo Leonardo Villar como o seu rosto mais emblemático.

La Parole Donné” era o título com que a Croisette conheceu o vencedor da Palma de Ouro de 1962, aqui chamado de “O Pagador de Promessas”. Baseado em texto teatral de Alfredo Dias Gomes, a longa-metragem trouxe a láurea máxima do palmarés cannoise para a América do Sul narrando a peleja de Zé do Burro (papel de Villar) para debelar os interditos moralistas do cristianismo, adentrando na Igreja, no coração de Salvador, para cumprir com um juramento a Deus. Zé tenta colocar a cruz no altar para fazer valer um pedido ao Altíssimo: “Salve o meu jerico e lhe faço uma oferenda”. Mas o padre repudia uma oferta ao Senhor em prol da cura de um animal. A sua zanga atrai holofotes da imprensa mais carniceira e fomenta o apetite dos predadores que farejam na mulher de Zé uma presa a ser deflorada. Para os sacerdotes, Zé é um fundamentalista. Para os fiéis da Bahia, o sacerdote é um déspota. Começa ali uma guerra que implode no olhar de Villar, carente de dignidade. O seu trabalho, de uma poesia de doer na alma, ajudou a longa-metragem a se consagrar, sendo nomeada ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Anselmo Duarte era quem dirigia tão possante estudo sobre fanatismo e desigualdade. Ele era um ator de prestígio no “cinemão” do Brasil e, ali, virou um realizador de reputação global. “Cinemanovistas” e ele nunca se entenderam bem, por questões ligadas a classicismos de linguagem, mas nada impediu que o desempenho de Villar marcasse época e se tornasse um farol em meio às técnicas de atuação das Américas.

Ainda na década de 1960, Villar surpreendeu Cannes mais uma vez à frente de “A Hora e Vez de Augusto Matraga”, encarnando um dos mais ferozes personagens da literatura brasileira, decalcado da prosa de João Guimarães Rosa. O filme passou na Croisette em 1966, mas, um ano antes, brilhou nos ecrãs do Festival de Brasília, de onde saiu com o troféu Candango de melhor filme, realização, argumento e ator. Fazendeiro arrogante, Matrga é uma síntese de toda a fúria do coronelismo latino-americano. É um senhor de terras que trata seus funcionários com desmandos e dispensa gentilezas para lidar com os comerciantes e demais latifundiários que o cercam. Traído pela sua própria mulher, cansada do seu machismo, ele cai em desgraça e é deixado à própria sorte, aos pés da morte, sendo salvo por uma família de lavradores afeita aos desígnios de Deus. Nas mãos do Salvador, Matraga renasce como um cordeiro. Mas a ave de rapina que mora em seu coração vai bater asas quando menos se espera, revelando os seus dotes para a guerra.

Foi essa, historicamente, a linha central das personagens mais marcantes de Villar: lobos em lã de ovelha, selvagens de carnes aparentemente mansas. Estocados pela moral, eles uivam e até mordem. Foi assim na TV, como o evangélico que pisava na mão da filha para não aceitar um “dinheiro sujo”, na telenovela “Barriga de Aluguel” (1990). Foi assim nos cinemas ao viver um frequentador de gafieiras (boates de samba e de bolero) avesso aos pedidos de sua mulher em “Chega de Saudade” (2007).

Mas a síntese de suas proficiências, já nos tempos de maturação, veio em 1998, com o thriller “Ação Entre Amigos”, no qual viveu um torturador da ditadura militar, hoje aposentado, que é flagrado por vítimas dos seus tempos de mocidade. Ali, grisalho, com umas poucas e mascadas palavras, Villar libertava o gênio que foi depurando ao longo de anos de profissão, em papéis que estilhaçavam arquétipos e certezas. Morreu um gigante. Mas o seu legado é igualmente agigantado. 

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