Lá se vão sete anos desde que Kevin Smith fez o seu último trabalho com status de culto, o terror “Tusk”, que, nem de longe, alcançou um prestígio parecido com aquele desfrutado pelo realizador nos anos 1990, quando “Clerks” (1994) e “Chasing Amy” (1997) deram-lhe chancela de autor, na especificidade de cronista do modus operandi nerd.
Nesses tempos, ele contentou-se em ser celebridade na Comic Con, entre fãs de BDs que até hoje sonham com seu o projeto não realizado de um filme do Super-Homem com Nicolas Cage no papel do último filho de Krypton. Mas desde sexta-feira, via Netflix, a marca Kevin Smith não pára de ser evocada – com encanto por alguns e insatisfação por muitos – em reação à estreia da série de animação Masters of the Universe: Revelation.
É uma série que deu a He-Man, um dos mais populares heróis dos anos 1980, uma chance de voltar aos holofotes, agora via streaming, tendo Smith como realizador. Detentor de uma espada mágica, conhecido pela frase “Pelos poderes de Grayskull, tenho a Força”, a personagem nasceu em meio a uma linha de brinquedos da Mattell, sem dramaturgia prévia. Tais bonecos inspiraram um projeto de desenhos animados do produtor Lou Scheimer (1928-2013), exibido originalmente de 1983 a 1985, nos EUA, que virou uma febre por todo o planeta e levou a uma longa-metragem com Dolph Lundgren e Frank Langella. Mas muito do que se viu na Eternia da década de 1980 mudou agora na releitura de Smith, a começar pelo maior protagonismo dado, agora, a guerreira Teela e à bruxa Evil-Lyn.
Sarah Michelle Gellar, da série Buffy, é a voz de Teela no regresso dos “Mestres do Universo”. Já Evil-Lyn foi confiada à atriz Lena Headey, a Cersei de “Game of Thrones”, vista recentemente na longa-metragem “Gunpowder Milkshake”.
Ao apresentar a produção à imprensa de língua portuguesa, a Netflix convocou um mestre da animação, Robert David (de “Max Steel”), produtor-executivo destas novas aventuras de He-Man, como o seu porta-voz. E o seu primeiro gesto de comemoração foi pela presença de Mark Hamill, o eterno Luke Skywalker, interpretando o vilão Skeletor. “Quando procuramos Mark com o convite, ele ficou feliz com a chance de participar neste regresso de um universo icónico, sobretudo na figura do Skeletor”, disse David ao C7nema, via Zoom. “Construímos este projeto como uma declaração de amor à série original e aos anos 1980. Há nesta história uma perceção de que a Força… ou seja… o poder de superação… está em cada um de nós. Por isso, não acredito que o foco dado aqui em Teela seja apenas em sintonia com as discussões de empoderamento feminino. Teela sempre foi uma personagem essencial à trama. Sempre teve um caminho de brio a seguir. Chegou a hora dela fazê-lo”.
Filha de Duncan, um mestre de armas chamado de Mentor, Teela é quem vai empreender uma jornada atrás da Espada do Poder, partida ao meio -e que leva ao desaparecimento do herói de Eternia, nessa reabertura do Castelo de Grayskull para as plataformas digitais.
Nos minutos iniciais do primeiro episódio, He-Man e Skeletor travam uma batalha mais feroz do que habitualmente e ambos desaparecem. Teela descobre ali que o herói é o alter ego do Príncipe Adão e resolve abandonar a sua morada, ganhando o mundo como uma amazona. “A série deu sempre espaço nobre às mulheres, basta lembrar a Feiticeira. Ninguém tinha mais poder do que ela”, explica David, que ajudou Smith a forjar uma saga (inicialmente lançada em cinco episódios) na qual a magia ficou proscrita em Eternia.
Um vilão chamado Tri-Klops (na voz de Henry Rollins) quer eliminar tudo o que há de místico em Eternia, substituindo o que houve de encantamento pelas máquinas, por metal. É um enredo que lembra muito a franquia “Terminator” (1984-2019). Com a ausência de He-Man (cuja voz é de Chris Wood, o Mon-El de “Supergirl”), Teela é convocada para resguardar o que ainda sobrou de feitiço no seu mundo. A seu lado, há dois velhos conhecidos do público: o Cringer / Battle Cat (alter ego do Gato Guerreiro) e o mago Orko, Gorpo no Brasil), famoso entre os fãs.
“Antes, os desenhos animados precisavam de terminar as suas tramas a cada episódio, pois as exibições eram semanais. No máximo, conseguíamos um to be continued… Mas com o streaming e a chance de se fazer maratonas, as narrativas podem ser serializadas, ou seja, contínuas, como uma saga”, diz David. “A vantagem de termos um cineasta como Kevin Smith connosco é que que ele ama os códigos das narrativas de género, os códigos da aventura, e conhece tudo sobre He-Man. Ele trouxe monólogos emotivos, por ter humanizado esse universo”.

