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Uma conversa «Sobre Tudo Sobre Nada» com Dídio Pestana: do cinema intimo à intimidade do Cinema

Mesmo sendo Sobre Tudo Sobre Nada a sua primeira longa-metragem como realizador, Dídio Pestana já povoa neste universo cinematográfico há bastante tempo. Habitual colaborador e companheiro de Gonçalo Tocha (para além do sound design, ambos integram uma banda musical denominada TochaPestana), o agora realizador decide aventurar-se sozinho no Cinema pessoal, algo caseiro, o qual, através de 8 anos de filmagens, percorre toda uma jornada intima e profissional da sua persona.

São as rodagens, os festivais, as amizades e os romances que não vingaram, temas e muitos, abordados e simultaneamente deixados no vazio. É por isso que entramos num mundo partilhável Sobre Tudo Sobre Nada. Aliás, será mesmo isso a essência dicotómica do Cinema.

O C7nema falou com este homem de mil ofícios (vencedor da primeira edição do Prémio do Público da KINO 2019 – Mostra de Cinema de Expressão Alemã), da sua suposta emancipação, até ao cinema caseiro pelo qual inspirou e sobretudo, sobre a definição exata (se é que existe) do Cinema com “C” grande.

 

Antes de começar, gostaria de perguntar se este projeto nasceu de uma intenção, ou a ideia do filme surgiu a meio do processo?

Sim, houve uma intenção inicial de fazer um filme, daí pegar na minha camara e no Super 8 e começar a filmar. Foram escolhas iniciais conscientes. Já a duração, a de oito anos, não foi controlada por mim, lá está, por não ter um lado diarístico, o que implica que estive à espera de um momento em que me indicasse que não precisava mais de filmar este filme. E isso aconteceu em 2016, numa viagem ao Chile, na qual me apercebi estar a filmar menos.

Dídio Pestana l Foto.: Hugo Gomes

Mas durante este processo de registo, e tendo agora o produto final nas mãos, não se sente exposto? Aliás, é uma parte da sua vida que vemos no grande ecrã, incluindo as desilusões amorosas.

Não sinto isso. É obvio que houve uma exposição, mas essa apenas deixei acontecer. O que está ali apenas não tive controlo, não selecionei o que deveria ou não deveria filmar. Parece estranho dizer isto, a verdade é que nunca experienciei a exposição, até porque no preciso momento em que começas a editar o filme – aquelas imagens, o meu intimo, as pessoas envoltas, os amores (obvio que tenho relações amorosas muito fortes ali) – tudo isso transforma-se em personagens na transcrição para a obra. E o hiato que houve ali, essa paragem ou abrandamento, serviram como distância necessária para com as imagens da edição, visto que eu próprio a fiz em conjunto com Rui Ribeiro. E na sala de edição, houve uma pré-seleção feita por mim e isso contribuiu para o afastamento. E está à vista de todos que todas aquelas imagens têm uma ligação afetiva para comigo. Então, o ato de cortar não foi um processo fácil.

A decisão de filmar em Super 8 garantiu ao espectador esse sentimento de invasão a algo intimo, a algo seu? Explique como surgiu esta ideia de filmar em tal formato.

A ideia de fazer um filme, apesar de à partida querer fazer algo intimista e próximo, que se aproximasse a esse cinema pessoal de Jonas Mekas ou de Ross McElwee. Depois é todo esse universo amador que o Super 8 proporciona. Aliás, o seu aparecimento permitiu que toda a gente pudesse pegar numa câmara, numa massificação das filmagens. Até porque foi a primeira vez que surgiram os ditos filmes caseiros.

À medida que ia filmando Sobre Tudo Sobre Nada, ia colecionando muito material caseiro vindo de outras famílias que deparava em diferentes esferas ou em leilões como o Ebay. É um universo muito interessante e cinematográfico, visto que nos inserimos num espaço muito intimo. E para dizer a verdade, pegando na tua questão da exposição, foi através desses vídeos caseiros provenientes de outros que senti que estava a invadir qualquer coisa (há uma frase no filme que refiro a isso, “invadir privacidades”). Mas tinha que ter a consciência de que estes filmes deveriam ser vistos, porque as famílias os libertaram para o Mundo.

Em Sobre Tudo Sobre Nada pretendia pegar em imagens pessoais e transformá-las num filme narrativo, uma história, neste caso diria 100% real, mas foi um processo em que permiti. Como falei, interessa-me esse lado pessoal do cinema, assim como cinema que se expõe, aquele em que vemos o realizador do filme ou o técnico de som, ou simplesmente a camara cai acidentalmente. Para isso, diversas vezes dava a câmara a outros para que pudessem filmar-me, porque no fundo o Cinema é isso, uma partilha.

De certa forma, e visto que foi um colaborador assíduo do realizador Gonçalo Tocha, este Sobre Tudo Sobre Nada é uma espécie de emancipação?

Não há necessidade de emancipação. Quanto ao Gonçalo, já me dou com ele há vários anos, temos uma relação de amizade de 20 anos, conhecemo-nos no 1º ano de Faculdade e desde então trabalhamos juntos na música e no cinema. Na verdade, ele não me incentivou para o filme, mas sim nos últimos estados do filme, em que me aconselhava a despachar a montagem e arriscar a minha sorte no envio para Locarno. É normal que exista neste tipo de relações uma interajuda, uma troca de energias. Por isso, essa ideia de emancipação não faz sentido, porque na verdade é que depois disto continuarei a colaborar com ele, não me tornei realizador e não será agora. Voltarei aos meus trabalhos na área do som e do sound design.

… e  à TouchaPestana, a vossa banda.

Sim, iremos [risos]. E na faculdade tínhamos uma banda que se chamava Malina, depois veio o Lupanar e agora o TouchaPestana. Nós dizemos que essa banda será para sempre [risos]. Sim, a nossa relação de amizade extraviou para o lado profissional, o que é bom, porque nem sempre é fácil trabalhar com amigos, mas no nosso caso resulta.

Visto que referiu Jonas Mekas e tendo em conta que o cineasta recentemente nos deixou, gostaria que falar sobre a sua influência no seu trabalho.

No fundo, não foi o Jonas Mekas a pessoa que me fez abrir os olhos a este cinema pessoal, mas sim, o Ross McKewie, do qual vi quase todos os seus filmes numa retrospetiva no Doclisboa. Na altura fiquei fascinado com o Sherman’s March, aquela ideia de uma filme de História transformar-se num diário pessoal e numa viagem pelo sul dos EUA. Por isso é que afirmo que foi o McKewie o responsável por esse despertar para este cinema.

Quanto a Mekas, o filme que mais me tocou, curiosamente, vi há pouco tempo, na altura em que começava a filmar em Super 8, e foi As I Was Moving Ahead Occasionally I Saw Brief Glimpses of Beauty. Encontrei naquele caos todo, naquela ausência de cronologia / narrativa, uma história: a sua e da sua família.

Quando vejo filmes em Super 8, deparo-me com algo mais além do universo caseiro, e sim com o uso da montagem. E apesar de Mekas referir que não a utilizou, existe no filme uma ideia desta, um discurso sobre e acima de tudo existe música. É uma montagem através de datas que se vai montando como um puzzle na cabeça do espectador. É simplesmente um filme muito bonito.

É um cliché dizer isto, mas Mekas foi uma grande perda. O que ficou foi muito bom cinema para vermos e, acima de tudo, essa ideia de pegar no amador e transformar em cinema para além das quatro paredes de casa.

Queria questionar sobre o título – Sobre Tudo Sobre Nada – que acaba por ser bastante honesto e adequado ao tom do seu filme.

Foi na altura quando procurava por um título mas não sabia qual. Enquanto filmava, coloquei como provisório este e só percebi que era o mais correto quando comecei a montar. Através desse processo, apercebi-me que estava a querer abordar muitos tópicos. Na altura não entendi e fazia-me confusão, mas descobri que a essência do filme era mesmo essa, abordar tudo e mais alguma coisa e ao mesmo tempo não processar muito sobre elas. Até porque as coisas continuavam a andar e a vida continuava. No final foi o titulo que me fez mais sentido.

Sherman's March (Ross McElwee, 1985)

O título é também uma referência a um diálogo que teve com a sua mãe.

Sim, há uma parte do filme que corresponde a um processo que não está lá, que foi o da memória familiar. Gravei algumas conversas que tive com a minha mãe e com outros membros da família de forma a criar um arquivo histórico. Algo que me interessava a mim, mas não só.

Mas é a pensar num filme que lançamos ideias e daí surge construção do que acontece no final. Neste caso tentei aflorar conversas que não tinha no meu dia-a-dia, mas que foram possíveis através do processo de criação deste filme. Dei por mim a ter quatro horas de conversa com a minha mãe, algo que não aconteceria num dia normal.

Quanto a novos projetos?

Vou continuar a trabalhar no que me dá prazer. A colaborar com realizadores dos quais gosto, gravar som em rodagem, sound design. Aliás, é isso que eu gosto de fazer.

Em Berlim, vou continuar a trabalhar com alguns artistas, na musica principalmente. Tenho ideias para uns filmes e até já comecei a trabalhar num novo. Porém, nada de concreto. Pode ser que desta vez não demore mais 10 anos [risos]. Na verdade, não quero fazer pressão a mim mesmo. Talvez pelo meio disso tudo faça mais alguma coisa.

Agora Sobre Tudo Sobre Nada [risos], o que é para si o Cinema?

Sempre gostei de cinema desde pequeno, quando ia aos Cinemas Alfa, Quarteto, Roma … cinemas que desapareceram. Eu acho que o Cinema é no fundo aquele momento em que as luzes apagam e no qual automaticamente estás preparado para entrar noutro universo. Sabendo que o Cinema também pode existir em casa, este torna-se mais especial em sala. Isso tem muito de relacionado com essa disposição, algo que não se tem no conforto de casa, muito mais quando temos um botão de Pause à nossa mercê.

Para mim o Cinema não tem que ser pessoal, mas tem que ter uma entrega por parte de quem o vê. O espectador tem que estar recetivo, assim como tudo na vida.

Jonas Mekas

E em relação ao seu futuro? O streaming e a questão da sala de cinema vs casa?

Não sei, por vezes isso tem tudo de relacionado com evoluções naturais. Não tenho nada contra, pelo contrário, mas para mim continuo fascinado por esse lado da sala. É uma experiência que não temos em lado nenhum, aquela de sentar na cadeira, as luzes apagarem-se e o filme desenrolar-se sem a tentação de pausas ou distrações. 

Gritou-se "Lula Livre" no Festival de Berlim

Com onze obras selecionadas, o Brasil apresenta um dos maiores contingentes no Festival de Berlim. Entre elas destaca-se Querência, trabalho de Helvécio Marins Jr., que na sua sessão oficial serviu de placo para manifestações politicas.

O cineasta, que em 2012 teve direito a uma retrospetiva no Curtas Vila do Conde, surgiu perante a plateia com uma t-shirt em referência a Lula, e juntamente com a sua equipa proclamaram amor ao ex-presidente, relembrando que a sua prisão é uma injustiça e “uma das mais absurdas do mundo”.

Segundo Helvécio, encontra-se em curso uma campanha para a sua nomeação ao Nobel da Paz: É uma vergonha para nós brasileiros. Lula é o maior e melhor presidente da história do Brasil”. Após a declaração, o realizador foi recebido com um forte aplauso o qual acompanhou a gritar: “Lula Livre”.

Querência

Helvécio Marins Jr mencionou ainda a vereadora Marielle Franco, assassinada no ano passado no Rio de janeiro.

Querência, descrito como um um poema audiovisual que arrancou suspiros da plateia germânica com seu olhar sobre o universo rural brasileiro, centra-se num tratador de gado que sonha com o universo dos "rodeos". 

«Cat Sticks» por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

À noite todo os gatos são pardos e nas ruas de Calcutá são testemunhas dos vagabundos deambulantes que procuram satisfazer a sua tremenda agonia, com isto integrando uma criminalidade sem rodeios. Eis um relato da droga e o seu respetivo Universo, as consequências de tais atos que se disfarçam de Noite numa cumplicidade para com a belíssima fotografia de Shreya Dev Dube e os enquadramentos perfeccionistas do estreante Ronny Sen.

Indiciamos aqui uma “sopa” de Trainspotting com toques e tiques de Tarkovisky. Sim, para primeiro filme, Cat Sticks é uma pequena pepita, um banho de técnica e destreza, filmado com punho de quem se quer afirmar num exausto panorama. Porque essa saturação vai ao encontro da realidade indiana, o senso comum que só dispara Bollywood, a exuberância desse mundo de excessos, esquecendo a vaga marginalizada do seu cinema autoral. O filme prevalece como esse herdeiro, talvez não da vanguarda da década de 60 (o circulo de Satyajit Ray ou de Ritwik Ghatak), onde a cinematografia indiana virou-se para temáticas sociais, mas sim a fasquia de autor em constante sobrevivência na penumbra da megalómana indústria (assim como as personagens de Cat Sticks que se escondem no oculto para terminar o vicioso arrasto que tornou as suas vidas).

Sob uma narrativa mosaico, Sen espelha um quadro de miserabilismo estético, quase encontrando um fascinio pela decadência destas figuras representativas que apelida de personagens, e das suas tramas em ebulição. Enfim, é uma acusação ingrata visto que muito cinema de Hollywood bebe de iguais desgraças, convertendo-as em artificios circenses, enquanto que Cat Sticks remete-nos para um olhar de uma certa sensibilidade, mesmo que distante para fins quase “higiénicos” com a sua cinematografia.

É um filme de algumas arestas a serem limadas, porém, é uma revelação quanto ao apreço pelo visual. Será Ronny Sen um nome a ter em conta no futuro? 

Hugo Gomes

«A Volta do Mundo Quando Tinhas 30 anos» por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Não há nada de novo na prolongada tese, mas mesmo assim A Volta do Mundo Quando Tinhas 30 anos, da realizadora de ascendência japonesa Aya Koretzky, é o exemplo perfeito de como o Cinema tem razões que basta para se assumir como uma capsula temporal, um baú de memórias que arquiva, preserva e partilha.

Arquivar, porque neste caso é o pai da realizadora, Jiro Koretzky, a assumir o protagonismo do relato e a selecionar as invocadas recordações que servem de mote para a preservação. Sublinhamos a segunda virtude deste cinema documental: a conversão de Jiro e das suas aventuras pelo solo soviético, passando pela Europa, Africa, Médio Oriente e EUA, a parcialidade do ‘Volta ao Mundo’ (longe do espirito verniano dos 80 dias) como matéria conservada numa narrativa pronta a ser partilhada. Afinal, é nesse ponto que reside a grande essência do Cinema – a partilha.

A Volta do Mundo Quando Tinhas 30 anos segue os trilhos definidos e estudados do documento fílmico e, como este, maleável, presta se como auxilio na redefinição do Mundo de Ontem, Hoje e de Amanhã. Para Jiro e Aya, é o passado das coisas, embutidas num álbum de fotografias como prova da existência individual, a indicar diretamente um presente em constante mutação. Jiro tornou-se o homem da atualidade, porque esse passado assim o permitiu. Grato por essas experiências, a sua emancipação embelezada pela beleza do foto/filme convida-nos a explorar esses contornos elucidados pelo destino.

Aya Koretzky constrói um filme pessoal, mas não o faz apenas com o seu devido esforço. É um trabalho conjunto, a união familiar, os traços desses afetos como “tesouros” de inveja alheia (há um respeito mutuo, uma admiração diríamos antes). É a estória a servir de história, sem com isso fazer História. É a proximidade no ecrã que nos aquece, e este tipo de Cinema volta-se apresentar como uma chama insaciável no que requer a tratar as memórias na primeira pessoa.

A Volta do Mundo Quando Tinhas 30 anos poderá não soar a sofisticação, porque a Humanidade não anseia a evolução das suas narrações. Um saudoso filme de memória. Uma lição de vida.

Hugo Gomes

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