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O tango de Béla Tarr nos tímpanos da Berlinale

Fofo, mas morno, o melodrama The Kindness of strangers, da dinamarquesa Lone Scherfig, deu a largada para o 69º Festival de Berlim nesta quinta-feira, dia em que o evento já volta os seus olhos para seu encerramento, não por desdém, mas por expetativa para ver... ou rever... O tango de satã (“Satantango”), do húngaro Béla Tarr (na imagem acima), com os seus 450 minutos de fervorosa potência plástica, em cópia restaurada em 4k. A produção de 1994 será exibida na mostra Fórum, no dia 16, e há rumores de que Tarr apareça por aqui. Foi a Berlinale que deu a ele uma de suas mais merecidas honras: o Urso de Prata de melhor direção, de 2011, por O cavalo de Turim, a sua última longa-metragem até agora, diante de uma anunciada (e prematura) reforma.

Venho de uma pátria que sentiu o peso da História na forma da fome. Mas que, mesmo abalada pelo ronco em seu estômago, nunca desistiu do prazer da criação. Criar é celebrar a alegria de resistir à castração da ordem”, disse Béla Tarr em uma entrevista (inédita) ao C7nema em 2015, quando foi lançado o documentário “Um filme de cinema”, do paraibano Walter Carvalho, no qual ele é um dos entrevistados. “Eu resolvi afastar-me da direção no ato em que me dei conta do peso da idade e do quanto a vida é curta. Na cultura da escassez, a abundância da vida precisa ser aproveitada”.

Filmes como Maldição ("Kárhozat", 1987) e Harmonias de Werckmeister ("Werckmeister harmóniák", 2000) fizeram de Tarr um dos realizadores mais estudados da atualidade. Ele não quer mais filmar, mas segue lecionando. László Nemes, o oscarizado diretor de O filho de Saul (2015), foi um de seus discípulos. “Não faço filmes para estrelas da cultura pop terem holofotes. A minha estrela é o Tempo e seu efeito sensível sobre nossas vidas. Também não tenho a vaidade de aderir ao digital. A tecnologia digital humilha a imagem, porque não tem a qualidade da impressão da fotografia em película. A imagem deve ser preservada em sua força plena”, disse Tarr.

Entre os títulos exibidos no primeiro dia de Berlinale, o Brasil conquistou destaque, a partir de um mergulho naturalista no sertão de Minas Gerais, numa narrativa que evoca o mítico diretor Humberto Mauro (1897-1983) e seu Carro de bois (1974). A mostra Fórum embarcou numa viagem afetiva, sensorial e mauriana para Unaí, a 590 km de Belo Horizonte. Foi lá que Helvécio Marins Jr. (codiretor de Girimunho, com Clarissa Campolina) estruturou a narrativa de Querência, um poema audiovisual que arrancou suspiros da plateia germânica com seu olhar sobre o universo rural brasileiro.

A narrativa, de um naturalismo que observa (obediente) o fluxo de vidas aparentemente simples, segue os ritos cotidianos de um tratador de gado que dá nome aos animais que cuida, enquanto sonha com o universo dos rodeios. Entre orações, modas de violas e fatias de um queijo branco artesanal, ele encara a violência de invasões a propriedades no campo e o descaso de autoridades com a justiça da dita “roça”. A sequência em que a personagem se recorda de uma oração familiar de sua infância é para levar o mais duro dos corações às lágrimas.    

A Berlinale termina no dia 17 de fevereiro.



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