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Dario Argento acusa novo «Suspiria» de trair o espírito do original

Estreado mundialmente no último Festival de Veneza entre aplausos e apupos, Suspiria de Luca Guadagnino teve uma carreira comercial atribulada para dizer o mínimo (rendeu pouco mais de 6 milhões por todo o mundo) - sobretudo enquanto remake de um clássico protagonizado por Dakota Johnson, recém-saída da saga As Cinquenta Sombras de Grey. Para adensar a trama, a obra encontrou agora um inimigo de peso: Dario Argento, realizador do filme original de 1977.

Segundo Guadagnino, Argento tinha-lhe dado a benção para fazer a sua própria cena num jantar entre os dois realizadores, tendo até sugerido que Argento teria ficado contente com o seu resultado final.

No entanto, terá havido aqui um mal-entendido. O feedback oficial de um dos pais do género giallo surgiu entretanto numa entrevista para a Radio Rai 1, e as suas palavras não foram de todo simpáticas. "Não me entusiasmou, traiu o espírito do filme original: não há medo, não há música", disse, quando questionado sobre o que achou desta nova versão, que considera no global "mais ou menos", reconhecendo no entanto que a obra é "refinada, como Guadagnino ".

O filme encontra-se atualmente em streaming na Amazon Video e iTunes, estando o lançamento em Blu-ray (internacionalmente) programado para o próximo dia 29 de janeiro. 

Quanto a Dario Argento, ele está atualmente a trabalhar num novo projeto, do qual ainda não sabemos muito e ele também não quis revelar: "Nós escolhemos um título, mas eu não gostei, era mau, feio", concluiu.

«The Favourite» (A Favorita) por André Gonçalves

  • Publicado em Critica

Pioneiro de uma nova vaga do cinema grego, em plena época de crise internacional, aprendemos primeiro a pronunciar o seu nome quando o vimos a "brincar" à experiência social parental numa metáfora sobre como estamos condicionados a aceitar o que nos é dito como verdade. O seu nome é Yorgos Lanthimos e o filme era Canino, já na altura um invasor ilustre na Academia de Hollywood - mas um filme que não tinha quaisquer cedências ao mainstream. O soco no estômago era evidente. 

Passaram-se praticamente dez anos, e se calhar fomos nós espectadores mais assíduos do seu cinema que endurecemos (e também ter um Lars Von Trier particularmente sádico e deprimente logo a abrir 2019 pode ter "estragado" o restante ano, é verdade!), mas se há uma sensação difícil de abandonar depois de testemunhar esta história de amor, obsessão e traição a três, em que duas mulheres (Emma Stone e Rachel Weisz) disputam a atenção da Rainha Anne (Olivia Colman) na corte do século XVIII, em todo o seu homoerotismo evidente, é a de que o realizador amoleceu com o tempo. Vemos aqui um sadismo sempre bem domesticado, por assim dizer, para agradar não só aos gregos que acudiram ao seu cinema enquanto ainda era falado na sua língua, mas também ao público troiano que o apanhou posteriormente, ou só mesmo agora, quando na manhã de nomeações aos Oscar, se confirmar um dos principais favoritos às cobiçadas estatuetas douradas. Provavelmente estará a ler esta crítica e a pensar: "E então?" Será este um problema de expetativas? 

Olhando para os créditos pode ajudar a justificar esta nova brisa de mudança melhor: esta é efetivamente a sua primeira experiência exclusivamente como realizador desde a sua badalada terceira longa-metragem (e sim, Canino foi o seu terceiro filme!), esse filme digno de entrar em todos os cânones do novo século - quebrando assim a sua parceria com o seu co-argumentista Efthymis Filippou, formada ao longo das últimas quatro fitas. Em seu lugar estão a estreante Deborah Davis e o veterano Tony McNamara (com longo currículo em escrita para televisão e um par de créditos em cinema por comédias românticas). São eles a fornecer desta feita a carne para canhão, isto é, as linhas de diálogo para um trio de atrizes que as usa para tentar sempre ganhar vantagem pessoal.

Quanto a Lanthimos, esse parece mergulhado claramente numa fase Kubrick, desde que a sua integração numa cultura anglo-saxónica foi dando lugar. Tínhamos notado ecos de Eyes Wide Shut - De Olhos Bem Fechados em O Sacrifício de Um Cervo Sagrado (com o bónus de ter uma repetição de Nicole Kidman, a precisar de cuidados sexuais especiais), e com este seu primeiro filme de época (outra jogada atípica), temos claramente uma cinematografia emprestada a Barry Lyndon. São bons pontos de referência, talvez até os meus dois filmes favoritos do cineasta tido como mais cínico e frio do ocidente. Mas são pontos também de distração, para alguém que tínhamos como uma das vozes mais distintas da sua geração. 

Tendo este claro travo de desilusão engolido de quem segue o cineasta desde a sua grande obra-prima, resta também dar uma palmada nos ombros ao extenso hype que entretanto esta obra já gerou: sim, The Favourite é divertido q.b. - ou até em demasia! - e há ainda assim na realização um enquadramento bastante peculiar e único que coloca em perspetiva estas relações de poder, de uma maneira que este filme nunca possa ser confundido com um telefilme BBC. Falta o murro no estômago, a ambiguidade causada por Canino, A Lagosta e até Alps. Lanthimos não se vendeu totalmente à indústria, mas este não deixa ainda assim de ser o seu filme mais acessível, e atrevo-me a dizer, passando a provocação que adoraria ter sentido aqui... básico.  

 

André Gonçalves

 

«The Favourite» lidera nomeados aos BAFTA

The Favourite, filme do cineasta grego Yorgos Lanthimos,volta a fazer jus ao seu nome ao liderar a lista de nomeações aos prémios BAFTA, entregues pela Academia de Cinema e TV britânica. São assim 12 nomeações ao todo, que incluem Melhor Filme, Melhor Filme Britânico, Melhor Realizador, Melhor Atriz (Olivia Colman), Melhor Atriz Secundária (Emma Stone e Rachel Weisz) e Melhor Argumento Original.

Na corrida para Melhor Filme, seguem-se expectavelmente A Star is Born, BlacKKKlansman, Green Book e Roma

Surpresas? A total ausência de First Reformed de Paul Schrader, certamente. E de Emily Blunt (quer por Mary Poppins Returns, quer por A Quiet Place). O relativo afastamento de If Beale Street Could Talk, que incluiu a omissão da favorita da crítica e vencedora do Globo de Ouro no passado domingo Regina King (a atriz já tinha sido omitida pelos prémios dos Screen Actors Guild, ficando o caminho para o Oscar mais aberto para Amy Adams por exemplo - que arrisca, tal como Glenn Close, a ter o seu primeiro Oscar este ano). O filme de Barry Jenkins foi visto pelos membros da academia, que ainda assim lhe atribuíram duas nomeações: Argumento Adaptado e Música. 

Cold War de Paweł Pawlikowski será certamente outra surpresa, com nomeações para Realizador, Fotografia e Argumento Original a juntar à mais óbvia nomeação para Filme em Língua Não-Inglesa, tendo ficado assim bem perto do top 5. Viola Davis acaba por ser a única representante de Widows quando já ninguém dava pelo filme de Steve McQueen. E First Man de Damien Chazelle consegue ainda assim estar entre os filmes mais nomeados, mesmo tendo perdido as nomeações mais importantes (Filme, Realizador, Ator) - são 7 indicações ao todo. 

Segue-se a lista completa de nomeados (via http://www.bafta.org/film/awards/ee-british-academy-film-awards-nominees-winners-2019): 

MELHOR FILME:

  • BLACKkKLANSMAN Jason Blum, Spike Lee, Raymond Mansfield, Sean McKittrick, Jordan Peele
  • THE FAVOURITE Ceci Dempsey, Ed Guiney, Yorgos Lanthimos, Lee Magiday
  • GREEN BOOK Jim Burke, Brian Currie, Peter Farrelly, Nick Vallelonga, Charles B. Wessler
  • ROMA Alfonso Cuarón, Gabriela Rodríguez
  • A STAR IS BORN Bradley Cooper, Bill Gerber, Lynette Howell Taylor

MELHOR FILME BRITÂNICO:

  • BEAST Michael Pearce, Kristian Brodie, Lauren Dark, Ivana MacKinnon
  • BOHEMIAN RHAPSODY Bryan Singer, Graham King, Anthony McCarten
  • THE FAVOURITE Yorgos Lanthimos, Ceci Dempsey, Ed Guiney, Lee Magiday, Deborah Davis, Tony McNamara
  • McQUEEN Ian Bonhôte, Peter Ettedgui, Andee Ryder, Nick Taussig
  • STAN & OLLIE Jon S. Baird, Faye Ward, Jeff Pope
  • YOU WERE NEVER REALLY HERE Lynne Ramsay, Rosa Attab, Pascal Caucheteux, James Wilson

MELHOR ESTREIA DE UM CINEASTA BRITÂNICO (ARGUMENTISTA, REALIZADOR OU PRODUTOR):

  • APOSTASY Daniel Kokotajlo (Argumentista/Realizador)
  • BEAST Michael Pearce (Writer/Director), Lauren Dark (Produtor)
  • A CAMBODIAN SPRING Chris Kelly (Writer/Director/Produtor)
  • PILI Leanne Welham (Writer/Director), Sophie Harman (Produtor)
  • RAY & LIZ Richard Billingham (Writer/Director), Jacqui Davies (Produtor)

FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA: 

  • CAPERNAUM Nadine Labaki, Khaled Mouzanar
  • COLD WAR Paweł Pawlikowski, Tanya Seghatchian, Ewa Puszczyńska
  • DOGMAN Matteo Garrone
  • ROMA Alfonso Cuarón, Gabriela Rodríguez
  • SHOPLIFTERS Hirokazu Kore-eda, Kaoru Matsuzaki

DOCUMENTÁRIO:

  • FREE SOLO Elizabeth Chai Vasarhelyi, Jimmy Chin
  • McQUEEN Ian Bonhôte, Peter Ettedgui
  • RBG Julie Cohen, Betsy West
  • THEY SHALL NOT GROW OLD Peter Jackson
  • THREE IDENTICAL STRANGERS Tim Wardle, Grace Hughes-Hallett, Becky Read

FILME DE ANIMAÇÃO:

  • INCREDIBLES 2 Brad Bird, John Walker
  • ISLE OF DOGS Wes Anderson, Jeremy Dawson
  • SPIDER-MAN: INTO THE SPIDER-VERSE Bob Persichetti, Peter Ramsey, Rodney Rothman, Phil Lord

REALIZADOR:

  • BLACKkKLANSMAN Spike Lee
  • COLD WAR Paweł Pawlikowski
  • THE FAVOURITE Yorgos Lanthimos
  • ROMA Alfonso Cuarón
  • A STAR IS BORN Bradley Cooper

ARGUMENTO ORIGINAL:

  • COLD WAR Janusz Głowacki, Paweł Pawlikowski
  • THE FAVOURITE Deborah Davis, Tony McNamara
  • GREEN BOOK Brian Currie, Peter Farrelly, Nick Vallelonga
  • ROMA Alfonso Cuarón
  • VICE Adam McKay

ARGUMENTO ADAPTADO:

  • BLACKkKLANSMAN Spike Lee, David Rabinowitz, Charlie Wachtel, Kevin Willmott
  • CAN YOU EVER FORGIVE ME? Nicole Holofcener, Jeff Whitty
  • FIRST MAN Josh Singer
  • IF BEALE STREET COULD TALK Barry Jenkins
  • A STAR IS BORN Bradley Cooper, Will Fetters, Eric Roth

ATRIZ:

  • GLENN CLOSE The Wife
  • LADY GAGA A Star Is Born
  • MELISSA McCARTHY Can You Ever Forgive Me?
  • OLIVIA COLMAN The Favourite
  • VIOLA DAVIS Widows

ATOR:

  • BRADLEY COOPER A Star Is Born
  • CHRISTIAN BALE Vice
  • RAMI MALEK Bohemian Rhapsody
  • STEVE COOGAN Stan & Ollie
  • VIGGO MORTENSEN Green Book

ATRIZ SECUNDÁRIA:

  • AMY ADAMS Vice
  • CLAIRE FOY First Man
  • EMMA STONE The Favourite
  • MARGOT ROBBIE Mary Queen of Scots
  • RACHEL WEISZ The Favourite

ATOR SECUNDÁRIO: 

  • ADAM DRIVER BlacKkKlansman
  • MAHERSHALA ALI Green Book
  • RICHARD E. GRANT Can You Ever Forgive Me?
  • SAM ROCKWELL Vice
  • TIMOTHÉE CHALAMET Beautiful Boy

MÚSICA ORIGINAL: 

  • BLACKkKLANSMAN Terence Blanchard
  • IF BEALE STREET COULD TALK Nicholas Britell
  • ISLE OF DOGS Alexandre Desplat
  • MARY POPPINS RETURNS Marc Shaiman
  • A STAR IS BORN Bradley Cooper, Lady Gaga, Lukas Nelson

FOTOGRAFIA: 

  • BOHEMIAN RHAPSODY Newton Thomas Sigel
  • COLD WAR Łukasz Żal
  • THE FAVOURITE Robbie Ryan
  • FIRST MAN Linus Sandgren
  • ROMA Alfonso Cuarón

MONTAGEM:

  • BOHEMIAN RHAPSODY John Ottman
  • THE FAVOURITE Yorgos Mavropsaridis
  • FIRST MAN Tom Cross
  • ROMA Alfonso Cuarón, Adam Gough
  • VICE Hank Corwin

DIREÇÃO ARTÍSTICA: 

  • FANTASTIC BEASTS: THE CRIMES OF GRINDELWALD Stuart Craig, Anna Pinnock
  • THE FAVOURITE Fiona Crombie, Alice Felton
  • FIRST MAN Nathan Crowley, Kathy Lucas
  • MARY POPPINS RETURNS John Myhre, Gordon Sim
  • ROMA Eugenio Caballero, Bárbara Enríquez

GUARDA-ROUPA:

  • THE BALLAD OF BUSTER SCRUGGS Mary Zophres
  • BOHEMIAN RHAPSODY Julian Day
  • THE FAVOURITE Sandy Powell
  • MARY POPPINS RETURNS Sandy Powell
  • MARY QUEEN OF SCOTS Alexandra Byrne

CARACTERIZAÇÃO: 

  • BOHEMIAN RHAPSODY Mark Coulier, Jan Sewell
  • THE FAVOURITE Nadia Stacey
  • MARY QUEEN OF SCOTS Jenny Shircore
  • STAN & OLLIE Mark Coulier, Jeremy Woodhead
  • VICE Nomeados a determinar

SOM:

  • BOHEMIAN RHAPSODY John Casali, Tim Cavagin, Nina Hartstone, Paul Massey, John Warhurst
  • FIRST MAN Mary H. Ellis, Mildred Iatrou Morgan, Ai-Ling Lee, Frank A. Montaño, Jon Taylor
  • MISSION: IMPOSSIBLE - FALLOUT Gilbert Lake, James H. Mather, Christopher Munro, Mike Prestwood Smith
  • A QUIET PLACE Erik Aadahl, Michael Barosky, Brandon Procter, Ethan Van der Ryn
  • A STAR IS BORN Steve Morrow, Alan Robert Murray, Jason Ruder, Tom Ozanich, Dean Zupancic

EFEITOS VISUAIS:

  • AVENGERS: INFINITY WAR Dan DeLeeuw, Russell Earl, Kelly Port, Dan Sudick
  • BLACK PANTHER Geoffrey Baumann, Jesse James Chisholm, Craig Hammack, Dan Sudick
  • FANTASTIC BEASTS: THE CRIMES OF GRINDELWALD Tim Burke, Andy Kind, Christian Manz, David Watkins
  • FIRST MAN Ian Hunter, Paul Lambert, Tristan Myles, J.D. Schwalm
  • READY PLAYER ONE Matthew E. Butler, Grady Cofer, Roger Guyett, David Shirk

CURTA-METRAGEM ANIMAÇÃO BRITÂNICA:

  • I’M OK Elizabeth Hobbs, Abigail Addison, Jelena Popović
  • MARFA Gary McLeod, Myles McLeod
  • ROUGHHOUSE Jonathan Hodgson, Richard Van Den Boom

CURTA-METRAGEM BRITÂNICA:

  • 73 COWS Alex Lockwood
  • BACHELOR, 38 Angela Clarke
  • THE BLUE DOOR Ben Clark, Megan Pugh, Paul Taylor
  • THE FIELD Sandhya Suri, Balthazar de Ganay
  • WALE Barnaby Blackburn, Sophie Alexander, Catherine Slater, Edward Speleers

EE RISING STAR AWARD

  • BARRY KEOGHAN
  • CYNTHIA ERIVO
  • JESSIE BUCKLEY
  • LAKEITH STANFIELD
  • LETITIA WRIGHT

 

«Vox Lux» por André Gonçalves

  • Publicado em Critica

Conforme mencionou na sessão de perguntas e respostas a que foi convidado no último Lisbon and Sintra Film Festival, o ator tornado realizador Brady Corbet ousou desta vez em ser pior, em pisar mais o risco - sendo esta a marca ideal de muitos dos seus filmes favoritos, não necessariamente perfeitos a um nível canónico. Da "infância de um líder" no início do século XX, o realizador avança agora para os "nossos tempos", onde a cultura da celebridade acabou por ditar uma outra forma de pensar. O centro é uma estrela pop: Celeste, vítima de um atentado na sua adolescência, que consegue convertê-lo posteriormente para seu benefício. 

Engana-se no entanto o espectador que acha que vai ter aqui um mero retrato de celebridade isento de política - A Star is Born está em exibição na sala ao lado, para esse efeito. Há muito sim a unir/complementar o jovem futuramente fascista da obra anterior e uma estrela pop futuramente "Trumpiana" (Natalie Portman, a limpar o sebo à segunda metade da película com uma performance capaz de rebentar com o Tumblr com o seu rancor em tons descrewball clássico), no espectro político, religioso, cultural.

A ambição é mais que visível; é palpável: cronicar os últimos 20 anos do Ocidente - e quando falamos em Ocidente, falamos mesmo concretamente nos Estados Unidos, embora o filme nos leve pelo meio até Estocolmo. 

Ocupando um espectro de referências que vão desde o cinema de Lars Von Trier (com quem o cineasta colaborou em Melancholia) a reflexões ambiciosas anteriores sobre como operamos enquanto cultura, como o incontornável Koyaanisqatsi de Godfrey Reggio (olhe-se para a maneira como Corbet filma aqueles arranha-céus de Nova Iorque sob o som de Scott Walker, seguidos imediatamente de uma multidão em câmara lenta a passear), Corbet atinge aqui pontos de provocação bastante fortes; pesem estas referências de peso, encontra-se à sua segunda obra já a estabelecer elos de ligação entre o que está a dizer enquanto realizador.

Vox Lux não será assim um filme perfeito, pese a sua estrutura arrumadinha em dois atos mais um epílogo. Os próprios capítulos, separados pelo 11 de setembro parecem entrar em conflito entre si. Mas Corbet tem consciência disso, e terá sido afinal o seu propósito: começamos assim a preocuparmo-nos com as personagens (como nos preocuparíamos antes do virar do século), e à medida que o filme avança, vai-se instalando uma cultura de dessensitivação, tal e qual como a nossa realidade nos tempos atuais, onde já vimos de tudo que nos custa preocuparmo-nos.

Ao invés do seu professor Von Trier, o realizador é ainda assim um otimista, estando num espectro de depressão completamente diferente do cineasta dinamarquês, que no seu último filme, decidiu descer literalmente ao Inferno dantesco. Aqui, o brat Corbet não se inibe de sugerir ali um pacto faustiano, mas parece tudo um pós-pensamento sobre o filme - em primeiro lugar, porque surge no epílogo, quando ele próprio admite já não existir mise en scene; em segundo lugar, porque fica-se pelo debitar da ideia sem a explorar mais. Faltou ainda mais ousadia em ser pior, talvez, mas para já, que fique assente a noção de termos um talento em bruto que merece ser seguido com toda a atenção. 

André Gonçalves

 

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