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«Berberian Sound Studio», por Jorge Pereira

 

Peter Strickland está de volta e com um trabalho profundamente sensorial que não é para todos os gostos. Depois do bem sucedido «Katalin Varga», o britânico que há uns tempos atrás afirmou ao c7nema que ganhava mais dinheiro como tradutor do que como cineasta, viaja até aos anos 70 em Itália e concretiza uma fita inclassificável no género, mas psicologicamente densa e angustiante que nos remete para os primeiros trabalhos Lynch, Polanski e até mesmo de De Palma (era inevitável não lembrar «Blow Out - Explosão») ou Coppola (O Vigilante).
 
Com o nome “Berberian Sound Studio”, a obra segue Gilderoy, um engenheiro de efeitos sonoros britânico (Toby  Jones) habituado a trabalhar em documentários sobre a natureza que vai ter uma experiência de pesadelo quando tem de desenvolver um trabalho nos estúdios italianos que dão título à obra. 
 
Conhecidos por serem utilizados pelas produções mais horrendas do cinema italiano dos anos 70 (era do “Giallo”), estes estúdios são claustrofóbicos e de certa maneira carregam no seu ar uma espécie de toxicidade, fruto de degradação humana. Esse peso é absorvido aos poucos pelo britânico, especialmente quando as coisas começam a dar para o torto com os colegas italianos e particularmente com Gianfranco Santini (Antonio Mancino), um cineasta que procura em Gilderoy um colaborador para a pós-produção de «Equestrian Vortex», obra que envolve satanismo, bruxas, sexualidade e castigo. E mesmo sem nunca vermos as imagens desse filme, somos constantemente percorridos pelos sons que lhe dão vida (ou morte), num misto de homenagem aos tempos analógicos do cinema, mas ao mesmo tempo mostrando o papel fulcral que os efeitos sonoros e vozes tinham no contexto de muitos clássicos da época, sempre aprimorados pelo lado mais selvagem da música italiana, onde pontificaram autores como Ennio Morricone, Franco Evangelisti, Luciano Berio, Cathy Berberian, Luigi Nono, Bruno Maderna, Bruno Nicolai e Claudio Simonetti. 
 
 
 
E é nesse uso sonoro que “Berberian Sound Studio” ganha uma vida própria, qual organismo autoimune, ambientando-nos numa posição desconfortável (como se nos colocassem junto à nossa cabeça o berbequim que o protagonista de «Pi», de Darren Arofnsky, usa). Tudo isto acontece também com Gilderoy, que começa a sentir a sua psique cada vez mais afetada pelo “trabalho” e que o fazem partir num verdadeiro cabo das tormentas mental, onde a realidade e a ficção se fundem deixando marcas eternas, e retiram uma espécie de inocência pessoal que carregava desde o início do filme.
 
Com isto, Strickland cria um filme imparável que nos absorve e confunde os sentidos, levando a uma avalanche de emoções onde até nem falta um pouco de humor. Jones está irrepreensível e transpõe em toda a linha a intensidade e desconforto que a sua personagem exigia.
 
O Melhor: O trabalho sonoro é profundamente exemplar e perfeito para levar-nos – como a Gilderoy – neste abismo
 
O Pior: Nada a apontar

Jorge Pereira
 
 
 


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