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«Wonder Wheel» (Roda Gigante) por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Podemos reconhecer, a partir do ano 2000, dois fatores benéficos para a “sobrevivência” do cinema de Woody Allen. A primeira, Scarlet Johansson impulsionou um novo folego e dinâmica na cooperação entre ator/autor. É evidente que um dos melhores trabalhos do nova-iorquino nasceu daí, Match Point, um revisitar aos temas de adultério e crimes passionais que havia estabelecido no seu Another Woman (Uma Outra Mulher). E como segundo ponto temos a vinda do diretor de fotografia Vittorio Storaro, cuja  entrada no universo Woody enriqueceu esses emaranhados de histórias com uma visão preparada, cuidada ,e sobretudo, atribuindo a artificialidade que o seu cinema há muito desesperava.

Nesse sentido, depois de Café Society, este Wonder Wheel (Roda Gigante) é, até à data, o filme que estabelece esse bem cooperativo, a fotografia que enquadra-se no ambiente pseudo-fantasioso de Coney Island e que respira por vontade própria. O artificialismo referido assinala-se como uma leitura dessa mesma fantasia, o escapismo visual que indicia uma transformação. Deste modo, a fotografia de Storaro converte-se do dito requinte estético, o clima que nos transporta ao seu ambiente natural, para uma tendência de expressionismo. Os atores respiram através desta mesma imagem, das cores que nos transmitem, enquanto espectadores, uma atitude reativa em relação às suas emoções, pensamentos e, porque não, devaneios.

Mas fora do ponto visual, que nos saliva, Wonder Wheel é um filme que curiosamente esclarece a veia de Woody Allen enquanto, sobretudo, argumentista. O seu apetite pela tragédia e a forma como a nos entrega, um exercício de dispositivos narrativos que maltrata as suas personagens. Estas, indiciadas como cobaias desse mesmo tubo de ensaio – a busca pela tragédia propriamente dita e de que forma atingi-la. Se é bem verdade que encontramos na personagem-guia (um nadador salvador com apetite pelo dramático personalizado por Justin Timberlake) um espelho do Allen voyeurista, é também indiscutível que essa mesma raiz o condensa num marco de direção para o arranque desta desventura. As personagens vivem uma mentira, insinua a certa altura Timberlake, código genético destes peões que habitam no mais “fraudulento” dos locais, Coney Island.

Existe sobretudo uma rivalidade entre essas “mentiras” que disputam pelo quotidiano dos viventes, a feira que assume o decor e o cinema, constantemente trazido à baila, como uma alternativa aquela matéria algo circense. Estas feiras temáticas eram em tempos a prioridade na distração dos habitantes de Nova Iorque, porém, encontraram-se condenadas pela popularidade crescente das salas de cinema, pelo facilitismo da projeção e pela qualidade da experiência que se poderia experienciar aí.

Apesar da aparente extinção dessa Coney Island levada da breca, o Cinema poupou-o do esquecimento, conservou-o nas suas fitas, um tributo de um entretenimento ao seu antepassado. E acrescento, foi com Coney Island que o cinema norte-americano seguiu em passos  na sua linguagem ao encontro do real, com Little Fugitive (Ray Ashley e Morris Engel, 1953). Contudo, em Wonder Wheel, a narrativa declara o seu fascínio trágico no qual circula ao encontro dessa mesma “ferida”. A tragédia assim proclamada como um substantivo sólido é a combustão dessa mesma trama, e a rainha desta, Kate Winslet, prova ser a maravilha disputada.

Talvez em Wonder Wheel deparamos com o inicio de uma nova faceta de Woody Allen. A ver vamos.

«The Shape of Water» (A Forma da Água) por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

No universo de Guillermo Del Toro (assim o chamaremos) existe toda uma coletânea de simbolismos, elementos fantásticos e criaturas mitológicas que operam conjuntamente como uma metáfora político-social. Talvez seja por isso que adereçamos a este seu mundo fértil de dêcors e caracterizações uma profundidade alusiva que muitas das variações fantásticas atingidas pelo cinema  - sublinhando as adaptações das série infanto-juvenis que seguiram moda no rescaldo do sucesso de Harry Potter e afins - nem sequer sonharam obter.

Em The Shape of Water deparamos, indiscutivelmente, com esse cunho autoral, até porque o Cinema do mexicano é reconhecível, e muito mais a sua colaboração com o ator Doug Jones, o verdadeiro “homem das mil faces”, um exímio herdeiro do legado Lon Chaney. Existem esses recortes, aqui e ali, empréstimos de outras experiências que o cineasta viveu nos seus “anos loucos” por terras de Hollywood, como as transladações de Hellboy e de Blade ao grande ecrã, orquestradas numa diluição de mundos secretos com o realismo formalizado que o espectador indicia como déjà vu.

É verdade que este vencedor do Leão de Ouro no último Festival de Veneza, um feito para um cinema cada vez mais “série B” ou da infame etiqueta “cinema de género”, é uma obra pretensiosa, com os truques baratos da award season, para além de prolongar os lugares-comuns definidos por este cinema querido, mas é dentro dessa capa de vulgaridade que Del Toro faz das suas para implantar uma rebeldia ao bem-estar do espectador. Pequenos, mas eficazes atos de ativismo que tornam The Shape of the Water numa fábula adulta e não tão inocente como aparentemente se julga. Obviamente que todo este dispositivo fabulístico segue numa demanda pela despersonalização de um mundo tão nosso, desde a criatura até ao ar agridoce desta América fechada e pintada sob tons de pseudo-medievalismo, tudo servindo como catarse para um plano maior.

Falar da nossa natureza humana e a atualidade que nos atinge com subjetividade, sem com isso deixar que a mensagem não seja percetível, é tarefa capaz para a “forma desta água”. Identificamos esses mesmos elementos paralelos, reconhecidos e experienciados, e apercebemos a trajetória que nos conduz a uma lição “dickeana” da seriedade humana (Phillip K. Dick e não Charles Dickens): o que distingue os seres humanos dos animais? O que nos torna humanos? Mas ao invés da singela imagem de androides replicantes, agora vulgarizados por um cinema de entretenimento ansioso pelo estatuto de adulto (Blade Runner 2049 sofreu com essa saturação e a queda do dito cinema maduro que teima em marcar presença na principal industria), temos um protótipo de criatura da Lagoa Negra, a mitologia que se mistura com elementos invertidos de Hans Christian Andersen (sim, A Pequena Sereia representada por uma muda Sally Hawkins em missão do encanto ao seu “príncipe”) e os factos históricos distorcidos a perpetuar uma sensação de paralelismo.

A desigualdade, discriminação e a incompreensão pelo próximo, matéria evidente em todo este contexto. Sim, por mais rico que seja o ambiente próspero de Del Toro, ele torna-se previsível e percetível para o espectador. Não existem leituras agravantes e, possivelmente, é nesse sentido que The Shape of Water vinga de muitas construções fantásticas e de ficção cientifica que ultimamente tem sido produzidas, não existindo a pretensão de esconder ou de confundir com intelectualidade. Neste caso, o Mundo é aberto e apto para todos o usufruírem, quer como crítica sociopolítica, quer como a fábula adulta pelo qual tem sido vendido.

Se Del Toro é um artesão formidável na construção desse imaginário materializado, já a música de Alexandre Desplat acompanha esse processo e salienta os já proclamados tons fabulísticos deste amor intraespécies, que na verdade se refere ao mais antigo dos contos humanos. Dentro daquilo que tem sido produzido lá para os cantos de Hollywood, The Shape of Water é uma gema, um brilho reluzente de um cineasta que nos fascina através da criança que vive dentro de nós. Simplesmente honesto. 

Hugo Gomes

«The Shape Of Water« lidera nomeações aos Globos de Ouro

Foram revelados os nomeados aos Globos de Ouros, prémios atribuídos pela Imprensa Estrangeira em Hollywood. Entre os destaques conta-se The Shape Of Water com sete nomeações, The Post e Three Billboards Outside Ebbing, Missouri com seis.

Na TV, Big Little Lies soma seis indicações, incluíndo nomeações nas categorias de interpretação para Nicole Kidman, Reese Witherspoon, Alexander Skarsgard, Laura Dern e Shailene Woodley.

Os vencedores dos Globos de Ouro serão anunciado no próximo dia 7 de janeiro. Seth Meyers será o anfitrião.

Filme (Drama)

Dunkirk
Call Me by Your Name
The Post
The Shape of Water
Three Billboards Outside Ebbing, Missouri

 

Filme (Comédia/ Musical)

The Disaster Artist
Get Out
The Greatest Showman
I, Tonya
Lady Bird

 

Melhor Filme de Língua Estrangeira

The Square
Fantastic Women
First They Killed My Father
In the Fade
Loveless

 

Ator (Drama)

Daniel Day-Lewis, Phantom Thread
Timothée Chalamet, Call Me by Your Name
Tom Hanks, The Post
Gary Oldman, Darkest Hour
Denzel Washington, Roman J. Israel, Esq.

 

Atriz (Drama)

Jessica Chastain, Molly’s Game
Sally Hawkins, The Shape of Water
Frances McDormand, Three Billboards Outside Ebbing, Missouri
Meryl Streep, The Post
Michelle Williams, All the Money in the World

 

Atriz (Comédia/ Musical)

Saoirse Ronan, Lady Bird
Judi Dench, Victoria & Abdul
Margot Robbie, I, Tonya
Emma Stone, Battle of the Sexes
Helen Mirren, The Leisure Seeker

 

Ator (Comédia/ Musical)

Ansel Elgort, Baby Driver
Steve Carell, Battle of the Sexes
James Franco, The Disaster Artist
Hugh Jackman, The Greatest Showman
Daniel Kaluuya, Get Out

 

Realizador

Guillermo del Toro, The Shape of Water
Martin McDonagh, Three Billboards Outside Ebbing, Missouri
Christopher Nolan, Dunkirk
Ridley Scott, All The Money in the World
Steven Spielberg, The Post

 

Atriz Secundária

Octavia Spencer, The Shape of Water
Mary J. Blige, Mudbound
Hong Chau, Downsizing
Allison Janney, I, Tonya
Laurie Metcalf, Lady Bird

 

Ator Secundário

Christopher Plummer, All the Money in the World
Willem Dafoe, The Florida Project
Armie Hammer, Call Me by Your Name
Richard Jenkins, The Shape of Water
Sam Rockwell, Three Billboards Outside Ebbing, Missouri

 

Argumento

The Shape of Water
Lady Bird
The Post
Three Billboards Outside Ebbing, Missouri
Molly’s Game

 

Animação

The Boss Baby
The Breadwinner
Coco
Ferdinand
Loving Vincent

 

Banda-Sonora

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri
The Shape of Water
Phantom Thread
The Post
Dunkirk

 

Canção Original

Ferdinand
Mudbound
Coco
The Star
The Greatest Showman

 

TV

Melhor Série - Comédia ou Músical

Black-ish
The Marvelous Mrs. Maisel
Master of None
SMILF
Will & Grace


Melhor Série - Drama

The Crown
Game of Thrones
The Handmaid’s Tale
Stranger Things
This Is Us

Ator (Drama)

Bob Odenkirk, Better Call Saul
Jason Bateman, Ozark
Sterling K. Brown, This is Us
Freddie Highmore, The Good Doctor
Liev Schreiber, Ray Donovan

Ator (Comédia/ Musical)

Aziz Ansari, Master of None
Anthony Anderson, Black-ish
Kevin Bacon, I Love Dick
William H. Macy, Shameless
Eric McCormack, Will and Grace


Atriz (Drama)

Claire Foy, The Crown
Caitriona Balfe, Outlander
Maggie Gyllenhaal, The Deuce
Katherine Langford, 13 Reasons Why
Elisabeth Moss, The Handmaid’s Tale

Atriz (Comédia/ Musical)

Pamela Adlon, Better Things
Alison Brie, Glow
Issa Rae, Insecure
Rachel Brosnahan, The Marvelous Mrs. Maisel
Frankie Shaw, SMILF

Melhor Minissérie ou Telefilme 

Big Little Lies
Fargo
Feud: Bette and Joan
The Sinner
Top of the Lake: China Girl


Melhor Ator (Série, Minissérie ou Telefilme) 

Robert De Niro, The Wizard of Lies
Jude Law, The Young Pope
Kyle MacLachlan, Twin Peaks
Ewan McGregor, Fargo
Geoffrey Rush, Genius


Melhor Ator Secundário (Série, Minissérie ou Telefilme) 

Alfred Molina, Feud
Alexander Skarsgard, Big Little Lies
David Thewlis, Fargo
David Harbour, Stranger Things
Christian Slater, Mr. Robot


Melhor Atriz (Série, Minissérie ou Telefilme)

Reese Witherspoon, Big Little Lies
Jessica Biel, The Sinner
Nicole Kidman, Big Little Lies
Jessica Lange, Feud: Bette and Joan
Susan Sarandon, Feud: Bette and Joan

Melhor Atriz Secundária (Série, Minissérie ou Telefilme) 

Shailene Woodley, Big Little Lies
Laura Dern, Big Little Lies
Ann Dowd, The Handmaid’s Tale
Chrissy Metz, This is Us
Michelle Pfeiffer, The Wizard of Lies

 

«Molly's Game» (Jogada de Alta Roda) por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Existe uma imagem (uma das muitas é claro) definida naquilo o qual chamamos de senso comum do Cinema. Essa, de que a mulher é vista como uma espécie de engodo, uma distração útil nas mesas de poker. Assim como o ilusionista precisa da sua assistente para “controlar” os olhos do público, no poker, a mulher instala uma certa desestabilização na mente dos oponentes do baralho. Em Molly’s Game, tendo como base o livro da “intitulada princesa do poker” Molly Bloom, a distração encontra-se na atriz Jessica Chastain, para além da sua coleção de decotes que pavoneiam como desestabilizadores do olhar do espectador, o seu desempenho serve com isso, deixar em aberto a própria opinião do mesmo em relação do espetáculo que indiciamos.

Porque aquilo que deparamos não é mais que a primeira experiência de Aaron Sorkin (possivelmente o mais conceituado dos argumentistas do ativo em Hollywood), no cargo de realizador, o resultado era tudo que se poderia esperar de alguém que dá uso à sua imaginação para idealizar um storytelling, mas nunca a capacidade de materializa-lo no grande ecrã. Nota-se, não o nervosismo, mas a transferência de experiências que condensam a sua noção de narrativa visual. Há uma tendência ao conto “chico-esperto” à lá Scorsese (talvez a pretensão maior de arte cinematográfica fecundada para os lados de Hollywood), atravessando um registo de flashbacks sob o apoio da voz-off que não deixa pormenor algum ao espectador, a abordagem de um negócio ilícito levado como uma doutrina de etapas indulgentes, soando um livro da coleção “para totós” do que relato de vivências. 

Esta suposta transparência tenta dar a Molly’s Game um ar de irreverência, ousadia e rebeldia social em relação à temática, mero engodo que nos encaminha à cedência de uma profunda fábula moralista, com pé carregado no “preto-e-branco”, na lavagem ética da sua protagonista e nas costuras do seu passado, dando uma ênfase psicanalítica das suas ações. Dito isto, Molly’s Game é um mero produto autobiográfico sem condução para mais do que o aproveitamento do “verídico” como marketing ganho.

Em relação à sua protagonista-engodo, Jessica Chastain encontra-se, de facto, em plena forma; porém, mais uma vez referindo, uma distração que nos atraiçoa, colocando o espectador como um “cego”, frente às irregularidades desta grande “aposta” (o avanço para realizador do argumentista de The Social Network e de Steve Jobs). No final, fica o conselho: Aaron Sorkin … continua como argumentista e mantêm-te nessa posição, se faz favor. 

 

Hugo Gomes


 

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