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Cannes sob o "triunfo" dos provocadores

Está mais que provado, Cannes pertence aos provocadores, com Godard incluído. Na Quinzena, Gaspar Noé publicitou, prometeu, jurou mas não fez cumprir o seu novo choque, a sua trip que dá para o torto é Hello Kitty comparado com o mais recente devaneio de Lars Von Trier e o seu The House that Jack Built.

Com certeza, o leitor é conhecedor de algumas manchetes sobre a primeira projeção do filme no Croisette, a debandada de espectadores (fala-se cerca de 100 no Grand Théatre Lumière, cinema com mais de 2000 lugares), os vómitos, o grotesco que repugnou os espectadores que lhe dirigiram os mais variados adjetivos, má publicidade como muitos devem pensar, porém, tudo se resume a promoção … e da boa. Em questão no artificio de chocar, Lars Von Trier é uma espécie de génio, e nesse aspeto The House that Jack Built é um cavalo dinheiro de boa “má” publicidade.

Quanto ao filme em si, a história de um serial killer contado na primeira pessoa, deparamos com uma reciclagem do até então perturbador Henry: A Sombra do Assassino (John McNaughton, 1986) e assumidas influências de Goethe e Dante Alighieri.

A introspeção existencial de um arquiteto (Matt Dillon) que descobre arte na “matança”. Tal como os anteriores Ninfomaníaca, The House’ é narrado através de capítulos, onde uma voz off … aliás duas … intervêm para além do relato, para analisar as diferentes situações e com isto teorizar como divagações de um demente. É a arte total, assim descrevem as vozes, um engenho que torna-se mais tormentoso que o visual, este recheado de um gore desafiante para muitos dos habitués de Cannes, os que não estão confortáveis com a violência gráfica. Contudo, são as palavras que acabam por se tornar no dispositivo aberrante, um relato alucinado, por vezes manipulador que nos leva a uma conclusão arrepiante: Lars Von Trier tem que acreditar minimamente nisto, o filme assume-se credível na sua pedante loucura.

Lars Von Trier levou o troféu, a concorrência nem sequer chegou a ser desafiante, mas cada um à sua maneira, a provocação foi palco principal. Spike Lee apresentou-nos BlacKkKlansman, a sua já prevista resposta a The Birth of Nation, de Griffith. A intriga de um detetive afro-americano que nos anos 70 consegue infiltra-se na sede do Klux Klux Klan revelou-se ainda mais, mesmo sob a capa de comédia negra, um Spike Lee em estado de fúria para com a situação atual da América e em particular com a expansão da extrema direita. O realizador comete um exercício de reflexão através da sátira e da ridicularização dos seus inimigos, mas é no seu final que a cólera é revelada, um ativismo urgente que não deixou ninguém em Cannes indiferente. Talvez seja o seu melhor filme desde 25th Hour, mas infelizmente, é uma obra que adquire uma força quase total na sua mensagem.

Com mensagens, também Stéphane Brizé confronta o festival com En Guerre, novamente usando Vincent Lindon como dispositivo dramático, um contagio de uma realidade encenada que se depara como uma relato do sindicalismo. Brizé filma o coletivo e transforma o seu ator-fetiche num símbolo, enquanto intercala a narrativa com trechos da imprensa para explicitar a relevância desta, assim como a manipulação propicia do “Quarto Poder”. Em termos políticos é um “filme de esquerda”, designação reduzida no qual muitos órgãos irão catalogar. Mas Brizé prova ser capaz de responder a esse apelo e ascender os formatos quase à La Laurent Cantet a que se encontrava preso.

Contudo, indiciamos o grande fracasso de Cannes: David Robert Mitchell que “encantou” com o invulgar exercício de terror It Follows, invoca um registo lyncheano em Under the Silver Lake. Um subúrbio hollywoodesco aterrorizado por assassinos de cães e espectros de corujas, onde Andrew Garfield, um pseudo-hedonista, tenta decifrar um misterioso desaparecimento. É um filme sob os signos do meta-cinema que procura a sua afirmação num surrealismo de fábrica. Nunca cria uma atmosfera e cai no erro de tentar explicar, detalhe-por-detalhe, o folclore criado. Robert Mitchell tentou ser chico-esperto, mas saiu-se desengonçado como fora Richard Kelly na sua segunda longa-metragem [Southland Tales] ou a tentativa de Ryan Gosling na realização [Lost River]. Nesses moldes, Paul Thomas Anderson e o seu Inherent Vice saíram-se um pouco melhor na fotografia.

Já o coreano Lee Chang-Dong, o mesmo do meloso Poetry (há 8 anos atrás), cedeu-se a histórias de psicopatas em Burning, mas não foi capaz de surpreender. Demasiado prolixo, sem um ritmo constante nem inventivo, o realizador tenta centrar-se num slow-cinema em psicopatia, mas o projeto já estava desconcentrado desde o inicio. O final é previsível nos parâmetros deste tipo de universo. Não houve surpresas, nem sequer provocações. Nesse sentido, já tínhamos o Han Solo, o episodio paralelo da saga original de George Lucas que prova como a industria nem esforço faz para se renovar.



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