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Motelx 2017, a machadada final: o melhor, o pior e o filme do palhaço

Terminou ontem (10/09) mais uma edição do Motelx. O C7nema propôs ao longo da última semana uma série de artigos sobre filmes de terror e conclui com um rescaldo do que por lá se passou.

Do Melhor: Machadadas no pescoço

A rica história do cinema de terror e a parceria ibero-americana através de “O Estranho Mundo do Terror Latino” trouxe: “El Vampiro”, bela fantasia mexicana no ocaso da tradição gótica; “À Meia-Noite Levarei a sua Alma”, o cartão de visitas do satanismo sádico de Zé do Caixão; “Quien Puede Matar a un Niño”? – um passo adiante na vilania infantil com terror atmosférico e um incrível final à “catanada”.

Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964)

Dois nonagenários certamente abrilhantaram a edição. Um causou o furacão Jodorowsky (entrevista brevemente): filas pela Avenida da Liberdade para a sessão de autógrafos do mestre chileno – enquanto o surrealismo sangrento de filmes tantas vezes copiado, como “Santa Sangre” e “El Topo”, passaram pelos ecrãs.

Roger Corman (entrevista aqui) também andou pelo São Jorge, no dia 6. O homem em si é um património do cinema americano; pelos ecrãs passaram o estupendo “The Masque of the Red Death” e o singular “X: The Man with the X-Rays Eyes”.

Por Lisboa andaram autores de trabalhos inestimáveis de recuperação da memória cinematográfica: Daniel Bird acompanhou o processo de restauração das obras do grande Walerian Borowczyk e escreveu um livro onde recupera até o vasto trabalho de pintor e ilustrador do artista; Tiago Monteiro investiu na “Boca do Lixo”, produção exploitation dos anos 70 de São Paulo (Brasil), acompanhado da exibição do icónico “Excitação”, de Jean Garrett; Kim Newman trouxe o seu estatuto e o facto de ter sido, nos 80, um dos principais nomes a tornar o terror um objeto académico em livros como “Midnight Movies”.

O que todos eles têm comum é o facto de terem sido entrevistados pelo C7nema: brevemente num ecrã perto de si.

X: The Man with the X-Ray Eyes (1963)

66 Machadadas

66 filmes e cem sessões tornam dura a vida do comum dos mortais num festival de cinema. Entre o melhor do que por lá passou do cinema recente: a poesia do claustro de Cate Shortland (“Berlin Syndrome”), o humor com comentário social de Alex de la Iglesia (“El Bar”), o terror com ação frenética e muuuitos zombies em “Train to Busan”; um palmo abaixo houve a nostalgia de “Boys in the Trees”, a trip distópica de “The Bad Batch”, o gore oitocentista de “The Void”, a visão feminina da era vitoriana de “The Limehouse Golem”, as narrativas paralelas de “Killing Ground”, a monstruosidade como um facto do quotidiano em “The Hounds of Love”, as sutilezas do ocultismo de “A Dark Song”.

Golpe de canivete: a curta-metragem vencedora

Os cuidados superiores de produção renderam a “Thursday Night”, de Gonçalo Almeida, o prémio de Melhor Curta-Metragem portuguesa. Com muita música ambiente (o filme é inspirado em Brian Eno; o realizador é coautor da banda sonora) e jogos de luzes, constrói-se uma recriação de algumas convenções do cinema de terror com um protagonista canino; peca por ser tão fantasmagórico que até a sua história (que era…?) se desvanece no etéreo.

Cold Hell (2017)

Faca na árvore: o “melhor” europeu

Mas se no caso acima fica a promessa, mais questionável é o prémio de Melhor Filme Europeu concedido a “Cold Hell”, do austríaco Stefan Ruzowitzky. Há atrocidades em escala suficiente, ainda que nem sempre credíveis, para (tentar) individualiza-lo na massa de filmes americanos com crimes ritualizados, vinganças à cacetada e perseguições de carros (ainda que particularmente aparatosas).

Mas o seu traço mais original está no enquadramento temático – e aqui entra-se numa galáxia nebulosa: o assassino em série é um fanático muçulmano; a heroína é uma turca abusada pelo pai (muçulmano); a mãe é omissa e ela busca refúgio na casa de um policia alemão racista. Para “compensar” essas demonstrações de um tradicionalismo espúrio, a prima da protagonista é promíscua, uma maneira tosca de insinuar que ela era “liberal” à maneira do Ocidente – seja o que isso for. Enfim, o que toda essa dubiedade traz, independente de como se queira ler o filme, é uma certa leviandade.

Super Dark Times (2017)

Faca na água: o filme de abertura

A sessão de abertura é uma experiência particularmente coletiva e não combina com a escolha um filme intimista que, eventualmente, poderia ser melhor apreciado em circunstâncias favoráveis. Como foi, a visualização de “Super Dark Times” transformou-se num exercício algo penoso na medida que todo o esforço do realizador Kevin Phillips consistiu em eliminar qualquer clímax. Quando muda de ideias, no final, muita gente (incluindo aquele que escreve) já deixou de se importar.

Episódio final: palhaçadas

E já que se está no terreno das lâminas é preciso abrir a golpes potentes o caminho até “It”, o objeto fílmico; toneladas de dólares/euros já foram gastos, aliados a todas as macaquices engendradas pelos departamentos de marketing, para o torna-lo uma sensação. Começando pelo pior: os clichés da banda sonora e os “jump-scares” são os signos universais com os quais Hollywood comunica com as massas de espectadores casuais a quem destina as suas produções terroríficas. Estão lá – mas nada a ver com os abusos de “Annabelle 2”, seu imediato antecessor.

It (2017)

Mais nada a apontar. A tecnologia confere amplos poderes aos “designers” informáticos do palhaço Pennywise; há “zombies”; Andy Muschietti abandonou Modigiliani (“Mamã”) e foi para Munch (a semelhança de “O Grito” com a mulher que sai do quadro); há um assombroso momento splatter a abrir: o palhaço dançarino não veio para fazer sorrir. Mas dá para rir: mais que comic reliefs de ocasião, os momentos cómicos são de uma graça orgânica.

Os “losers”, grupo de seis crianças, estão cercados: a cidade está “amaldiçoada”, os meninos mais velhos são os mais completos escroques, os adultos são ausentes ou pouco recomendáveis; há bullying, abusos sexuais, chantagem emocional, a dor da perda e a culpa. Mais que um filme para as pipocas, proposta e execução concretizam um belo e aterrorizante conto sobre a incomunicabilidade da infância – a qual só a “irmandade” dos “losers” pode atenuar.

Aproveitem o verão, miúdos...



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