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Barbáries da História na ótica de Denys Arcand


Denys Arcand

Em seu primeiro dia de exibições abertas ao público pagante, após uma arrancada regada a adrenalina com Widows, de Steve McQueen, o Festival do Rio 2018 elegeu Denys Arcand como o seu pastor para conduzir os espectadores pela homilia da autoralidade cinéfila. Objeto de adoração no Brasil, graças a êxitos de outrora, como Jesus de Montreal (1989), o diretor e historiador canadiano de 77 anos apresentou uma joia nos grandes ecrãs cariocas na sexta-feira: A Queda do Império Americano ("La chute de l'empire américain" – 2018).

Selecionado para a Mostra Panorama do Cinema Mundial, a nova longa-metragem de Arcand é o último capítulo da trilogia iniciada em meados dos anos 1980, composta pelo ácido O Declínio do Império Americano (Le déclin de l'empire américain, 1986) e As Invasões Bárbaras (Les invasions barbares, 2003), que venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro. Sem data de estreia anunciada, A Queda do Império Americano é um conto moral, quase um apêndice das discussões abertas por Arcand há alguns anos, que conta com boas sequências de ação e descortina o humor em momentos de tragédia social. A atuação de Maripier Morin como a acompanhante Aspasie, fã de Racine, é memorável. As plateias do Rio aplaudiram o filme com ardor no fim da projeção.



Em meio ao debate sobre o avanço da Extrema Direita no mundo e o recrudescimento do conservadorismo intolerante, soa grave (sintomático das crises simbólicas atuais) o facto de não estar sendo comemorada a presença de um Denys Arcand novo em folha no cardápio do Festival do Rio 2018 (1 a 11 de novembro). Há quem se pergunte até quem é esse tal Denys, o que agrava ainda mais as questões acerca da força cinematográfica das sátiras sociais. La chute de l'empire américain é o título do filme inédito deste mestre da História, que filma maioritariamente em francês: o Festival de Toronto já pôde ver o filme e aplaudi-lo, assim como Valladolid, em Espanha."Não tenho ideia de qual seja o meu papel em qualquer lugar, nem nas aulas de História. E não dou a mínima importância a isso", disse Arcand por email ao C7nema. "Filmo quando tenho algo a dizer e quando percebo que o mundo precisa ouvir coisas que o façam crescer. O cinema é um ritual estético. E a estética é o lugar da Beleza. Beleza é uma aspiração fundamental para a Humanidade, ainda que cada classe social tenha sua própria definição desse termo".


A Queda do Império Americano

Em A Queda do Império Americano, o cineasta põe a sua lupa moral sobre o cotidiano de um intelectual amargurado, confinado a um trabalho braçal numa transportadora, que se apropria, ilegalmente, de dinheiro alheio, após um assalto, deflagrando um carrossel de perseguições policiais e reflexões. Em Cannes, a longa-metragem, ainda inacabada, recebeu uma farta promoção mercadológica em capas de revistas como a Variety e a The Hollywood Reporter, graças ao prestígio do seu realizador e aos conflitos éticos dos EUA na atualidade.

"Não é da América dos Estados Unidos, que eu falo quando uso o nome pela qual os EUA se reconhecem. Eu falo do mundo como um todo, incluindo o Canadá, pois estamos todos vivendo o mesmo surto de desatenção com os pobres. As desigualdades só crescem e a idade mental dos espectadores de cinema só diminui. Precisamos de filmes que nos tirem da letargia", disse Arcand.

 Laureado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2004, As Invasões Bárbaras foi um fenómeno de público e crítica na forma de "dramédia" familiar. Falava sobre o avanço do neoliberalismo pelo mundo. Era uma sequência direta de O Declínio do Império Americano, feito nos anos 1980, no meio da histeria da Era Ronald Reagan nos EUA. De lá para cá, dedicado a projetos académicos e pequenas produções, Arcand não filmou mais nada à altura de seu humor abrasivo e de sua visão niilista das relações mediadas pelo capitalismo. É hora de ele voltar à ação e reviver um grupo de personagens da cena intelectual do Canadá, hoje na casa dos 60, 70 anos. "Evito referências visuais especificas quando começo um filme. O que define a minha estética é a trama, o local das filmagens, os atores... ou seja, a vida, que anda dura".



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