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A «Raiva» tem uma face. Entrevista com o ator Hugo Bentes

Hugo Bentes é mais que um ator, é um rosto. O foi em Alentejo, Alentejo e agora é a personificação da Raiva no homónimo filme de Sérgio Tréfaut. Neste regresso às ficções, o realizador conta com o apoio de Bentes, alentejano orgulhoso para se converter em Palma, o angustiado camponês de teor trágico no seio de uma luta politica que o próprio desconhece. Este é a essência de Seara de Vento, o romance de Manuel da Fonseca, um dos livros críticos do regime do Estado Novo e da austeridade que abalou a região alentejana. Mais que um herói ou vilão, a personagem de Hugo Bentes é a razão da ação. A Raiva convertida.

De facto, poderemos contar este desempenho como a sua estreia na interpretação, mas é fácil reconhece-lo, você foi o cartaz de Alentejo, Alentejo, também ele da autoria de Sérgio Tréfaut.

Conheço o Sérgio há alguns anos. O seu pai era amigo do meu e trabalhei com ele no Alentejo, Alentejo, documentário que foi um dos grandes impulsores para que o cante alentejano fosse levado como Património da Humanidade. A partir dessa experiência, o Sérgio fez me o convite para participar no Raiva, numa ficção que teria como base um livro de Manuel da Fonseca.

Mas antes disso tudo, não teve qualquer experiência na atuação?

Não tive qualquer espécie de experiência nem trabalho enquanto ator. Tal foi-me garantido pelo Sérgio através do desafio proposto. O que aconteceu é que me identifiquei perfeitamente com o guião, com toda aquela história que foi verídica, que aconteceu no concelho de Beja, mais precisamente na Trindade, no Cantinho da Ribeira. A história de uma família pobre nos anos 30 onde os latifundiários ou os agricultores que tinham a maioria das terras em suas mãos eram quem decidia quem trabalhava ou não.

E como foi adquirir essa experiência através do Tréfaut?

O Sérgio é um excelente diretor de atores, para além de realizador, é uma extraordinária pessoa. Ele consegue transmitir a sua ideia no momento em que a cena está a ser desempenhada para que o ator ou os atores captassem da melhor maneira a suas respetivas performances. Por fim, foi uma grande ajuda visto que não tinha qualquer experiência enquanto ator, o qual foi muito gratificante. Mas a ‘crucial’ ajuda que tive foi mesmo na identificação para com a história e a personagem do Palma, que fazia acordar os meus antepassados, os meus avós e bisavós que sofreram isto tudo na pele e mais precisamente o povo alentejano que foi prejudicado ao longo desses anos. Sou orgulhosamente um alentejano e defendo o povo alentejano. Portanto, tais fatores levaram me a aceitar este grande desafio.

Por outras palavras, pegou nessa Raiva e materializou-a.

Peguei na raiva e transformei-a em mais raiva ainda [risos].

Em tempos em que se vive um certo revisionismo histórico, ou talvez a palavra mais exata seja a distorção, um retrato do Estado Novo como este é em certa parte uma declaração politizada?

Na altura em que decorria esta história, não havia uma definição de uma luta de classes, o que não se poderia dizer também que não existissem. Em Raiva vemos aquilo que poderá ser o principio para tal coisa, mas nessa altura não existia partidos organizados, nem sindicatos, não existia simplesmente nada disso.

Penso que foram estes tempos austeros e indefinições que ajudaram o povo alentejano a perceber que necessitava de fazer alguma coisa, teriam que se juntar pela dignidade, pelo direito e por aí fora.

Mas concorda que em Raiva, assim como o livro do qual foi adaptado, existe todo uma componente subliminar politica?

Sim, porque o filme, quer queira, quer não, é subliminarmente politico. Por exemplo, a filha do Palma começa a distribuir aqueles panfletos na vila, ou seja, é um exemplo que existia ali um certo movimento para despertar as consciências dos outros. Sentidos e lutas.

Voltando à sua entrada na interpretação, nunca em momento algum se sentiu inferiorizado por ter que contracenar com duas atrizes de peso e de longa carreira no cinema [Isabel Ruth e Leonor Silveira]?

Não me senti inferiorizado, mesmo sendo a primeira vez em filme. Porque ambas receberam-me de braços abertos. Fui muito acarinhado, não só por elas, mas por toda a equipa. Sempre me incentivaram, colocando-me sempre à vontade. A única dificuldade que tive foi o de tomar o ritmo ou conhecê-lo, visto ser um filme. Mas fui aprendendo isso ao longo do filme.

Pensa voltar a atuar?

Não penso muito sobre isso, até porque sou funcionário público [risos]. Em Portugal viver das artes não é “pera doce”, mas veremos o que o futuro reserva, se é que vá acontecer alguma coisa. Mas foi um gosto participar neste filme e o fiz com muito prazer.

Mas não tem projetos novos?

Não. Não tenho novos projetos. Fiz uma participação no novo filme do Vicente Alves do Ó – Quero-te Tanto – que penso estar em pós-produção.

E se porventura Sérgio Tréfaut voltar a convidá-lo?

Não digo que sim, nem digo que não. Acho que acima de tudo tenho que me identificar com o projeto. Não vou aceitar porque sim. A personagem e o guião terão que me dizer algo a mim, até porque não sou de artifícios, sou muito terra-a-terra. As minhas decisões têm que fazer sentido.



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