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“Não existe invisibilidade no cinema": a América indigesta de Frederick Wiseman

Fundada em 1970, no auge da contestação política que nutriu os realizadores da Nova Hollywood de inquietação ética, a Zipporah Films trabalha há quase cinco décadas na distribuição de um tipo de projeto que não interessa em nada aos grandes estúdios, mas que faz evoluir a compreensão que a América tem de si mesmo. É sob essa grife que nascem olhares sobre a génese da intolerância que conduziu Donald Trump à Casa Branca, como se vê em Monrovia, Indiana, uma crónica de costumes sobre o lado menos glamouroso dos Estados Unidos. Há pouco movimento de câmara, mas existe uma observação paciente e crítica. Por detrás dela vem um dos mais prolíficos e respeitados documentaristas dos últimos 50 anos: Frederick Wiseman. Tendo estreado no Festival de Veneza, o documentário passou pela programação do Doclisboa e prepara-se para uma garantida passagem no Festival do Rio.

De acordo com estatísticas do censo dos Estados Unidos, a cidadezinha de Monrovia, Indiana - cujo nome dá título à nova longa-metragem do cultuado cineasta – contabiliza cerca de 1.060 habitantes, espalhados pela sua área de 4,6 km2 dedicada à criação de gado e a pequenas atividades agrícolas. Foram graças a lugares como esse, assumidamente conservadores em relação a valores políticos e transgressões morais - que Trump foi eleito presidente. Daí todo o interesse e todo o empenho do octogenário realizador, responsável por marcos do Real nas telas como Near Death (1989) e Titicut Follies (1967), em dissecar aquele ambiente rural. A sua narrativa é pautada pela perplexidade e encantou espectadores durante a sua passagem pelos festivais de Veneza e de Toronto. Em ambos os eventos, a produção foi apontada como um potencial concorrente ao Oscar na secção de Documentário, sobretudo pelo facto de o cineasta ter recebido da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood uma estatueta honorária pelo conjunto da sua obra, iniciada há 51 anos.

Resistir não é um gesto mediático. Resistir é algo que tem a ver com a necessidade de se dizer algo ou de investigar algo. Por isso, não venham com essa de me chamar de pop. O cinema que faço não se encaixa nessa designação. Fico feliz que o Brasil se interesse por mim, ao convidar os meus filmes para os seus festivais mais importantes e gosto de saber que as pessoas ainda possam se interessar pelos recortes da Realidade que eu busco fazer. Mas não aceito o tratamento de popstar que tentam me dar, agora, depois de cinco décadas de trabalho, para tentarem fazer o cinema documental um produto. Não estou preocupado com uma vida badalada”, disse Wiseman em recente entrevista ao C7nema.

Azedo à primeira vista, quando começa a ser assediado pela imprensa, Wiseman, hoje com 88 anos, fez da discrição uma virtude essencial a seu trabalho: em meio a celebridades do cinema, ele passa despercebido, embora tenha uma filmografia estudada pelo mundo fora, sempre presente em festivais como os de Cannes, Veneza, Berlim e o brasileiríssimo É Tudo Verdade. Já ganhou o Emmy (por Hospital e Law and Order), o prémio de melhor documentário no Festival de Marselha (por Public Housing), um troféu da Federação de Críticos e uma série de láureas pelo conjunto de sua carreira. Filmes recentes, como La Danse (2009) e Crazy Horse (2011), tornaram-se sucessos de audiência. Mas nada disso mudou o seu método de trabalho: observar e deixar o objeto se revelar para a câmara sem interferências, sem proselitismos.

O que eu aprendo de cada realidade é aquilo que se vê nos filmes, sem teses prévias. Tenho uma técnica, que é sempre a mesma: olhar e deixar a vida acontecer. Busco estabelecer relações entre os universos que filmo”, disse Wiseman em Veneza, ao explicar a natureza estética de Monrovia, Indiana com imagens da vida no campo, com vacas a pastar, buscando rituais quotidianos de pessoas que encaram Trump como um salvador da economia dos EUA. “Autocrítica depende de uma observação cuidadosa sobre a realidade”.

Parte de uma trilogia que Wiseman iniciou em 2015, com Em Jackson Heights, e seguiu em Ex Libris: The New York Public Library, de 2017, Monrovia, Indiana é um retrato cru dos recantos da América, com pessoas que discutem sobre a importância de um banco de praça e sobre a gravidade de uma paralisação do serviço dos Correios. “Sabemos muito sobre a vida nas metrópoles americanas, pois o cinema de ficção se debruça sobre os mais variados pontos da geografia das grandes cidades. Mas pouco se fala sobre a importância de uma comunidade agrícola para a realidade contemporânea dos EUA. Este meu novo filme é apenas um modo de compartilhar aquilo que observei desse pequeno mundo de cidades do interior”, disse Wiseman em um comunicado à imprensa em Veneza, contestando a ideia de as pessoas que filmou sejam figuras invisíveis. “Não existe invisibilidade no cinema. Assim que a câmara passa por alguém e flagra este indivíduo em suas atividades mais simples, ele já ganha subjetividade poética”.



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