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Tiago Melo: «Sou contra o poder destruidor de algumas igrejas evangélicas»

Azougue Nazaré tem sido um dos grandes eventos cinematográficos brasileiros do ano no circuito de festivais. Em Portugal foi exibido recentemente na última edição do QueerLisboa e, depois de um longo circuito iniciado em Roterdão no início do ano, chega às salas do seu país natal a 20 de outubro.

Esse belo e original retrato de uma pequena cidade de Pernambuco, estado do Nordeste brasileiro, conta a história de diversos personagens inseridos nos seus dramas pessoais, enquanto esperam a festa do maracatu e lutam contra o patrulhamento ideológico proposto pela igreja evangélica da cidade. Ao mesmo tempo, forças “sobrenaturais” deste imaginário parecem irromper pelas redondezas…

O C7nema conversou com o realizador Tiago Melo, que espera começar daqui a um ano as filmagens para o seu próximo projeto – um investimento na ficção científica chamado Yellow Cake. O projeto encontra-se em fase de captação de recursos.

Para começar, como é que explicaria para um público europeu um pouco das práticas e do encanto do maracatu?

Maracatu é uma tradição pernambucana remanescente dos escravos que vieram para o Brasil e foram instalados no plantio e no corte da cana-de-açúcar. Então foi criado esse tipo de festejo popular denominado maracatu rural.

Para um público europeu é bem curioso, especialmente por ser muito forte e autêntico, visualmente possui uma fonte muito grande de cores e vestimentas e não é parecido com nada. É um mundo muito novo para os europeus, algo que eu tenho percebido quando temos passado o filme em vários festivais do continente.

O maracatu rural é trabalhado durante todo o ano pelos participantes, nasce de uma dedicação muito grande por parte dos envolvidos. É uma arte popular que não tem incentivos do governo e, se existe ainda hoje, é pelo esforço dos trabalhadores que ali estão. Por mais que todos ganhem muito pouco e sejam muito humildes, eles usam os seus próprios recursos para poder confecionar e fazer as roupas e as fantasias com as quais vão brincar no carnaval.

Essa parte folclórica existe a parte religiosa que é muito forte também. É como uma força religiosa que prende as pessoas ali também. Não é uma religião mas são forças que estão ali que alimentam a vida daquelas pessoas.

No seu filme a cultura do maracatu representa as forças da libertação contra as forças de repressão evangélicas, que têm uma presença importante na sua história…

Sim, hoje no Brasil há um crescimento da religião evangélica muito forte. Não tenho nada contra nenhuma religião ou crença, todas tem que ser respeitadas e a fé não pode ser discriminada. Acredito e confio e respeito a fé de cada um.

Faço uma crítica não a religião em si, mas ao sentido de dominação que algumas igrejas evangélicas possuem. Elas usam um poder destrutivo contra as culturas populares centenárias. Muitas destas igrejas estão envolvidas com política, com projetos de dominação, em defesa da família tradicional brasileiro.

Para mim aí já está um grande erro: a família tradicional brasileira são os índios, que têm uma sociedade igualitária, não é essa sociedade que os evangélicos pregam. Então uma das coisas que acontecem com frequência são as pregações de certos pastores, que afirmam que o maracatu é uma prática do demónio, contrária a Deus, com o intuito de converter os participantes e desviá-los da prática do maracatu.

Acho isso muito ruim para a cultura brasileira. Esta é uma tradição centenária que tem sobrevivido bem até hoje e não pode ser simplesmente interrompida por alguém dizendo o que é certo ou o que é errado.

Eu acho que a religião de cada um está acima de tudo e não haveria problema se não existisse esse projeto de dominação. O maracatu também tem um aspeto religioso vindo a África, com o candomblé e os pais de santo a segurarem a força espiritual do grupo. Daí o embate com essa ala mais extremista, que prega um discurso de ódio a todas as religiões de matriz africana.

Os diversos personagens da histórias e as suas histórias quotidianas emergem de um pano de fundo real, que é uma pequena cidade do Nordeste brasileiro… Certo?

Sim, são inspirados em pessoas que participam do universo do maracatu. Mas são personagens de ficção, interpretado por atores – com base numa preparação de elenco muito forte que nós fizemos. Ou seja, o universo é real, os personagens são fictícios.

Nazaré da Mata é uma cidade do interior de Pernambuco, fica a cerca de 100 quilómetros de Recife num local conhecido como zona da mata. Tem quase 60 mil habitantes e é muito forte na área da cana-de-açúcar.

Ao mesmo tempo você intercala o realismo com elementos fantásticos e de suspense… Você quis misturar esses dois caminhos do cinema – um mais documental e outro mais ficcional?

O Azougue Nazaré também inspira-se em alguns relatos de acontecimentos do passado. Hoje em dia os participantes contam histórias sobre caboclos que incorporavam e ganhavam superpoderes, podiam sumir e aparecer quase no ar. Eu gosto destas lendas e o que eu fiz foi coloca-las como elementos fantásticos e de suspense – penso que é um dos pontos fortes do filme.

Já o universo documental está presente pela forma como nós filmamos e também por termos permitido um processo muito livre de interpretação. No primeiro caso, eu e o fotógrafo, Gustavo Pessoa, sempre tivemos a ideia de não usar tripé nem nada nada de maquinário, é tudo filmado a mão, justamente para termos mais liberdade e dar essa cara de documentário misturado com a ficção. No caso dos atores, estivemos junto deles de uma forma muito leve, tentando estabelecer um diálogo sem sermos demasiado “pesados”.

O filme foi premiado em Roterdão. O que representou para si e como foi a passagem pelo festival?

Azougue Nazaré ganhou um prémio na seção Bright Future, foi muito emocionante. Chegar lá já foi incrível, imagina receber um prémio. Desde lá já passamos por cerca de 20 países em quase todos os continentes e recebemos mais algumas distinções em festivais de Toulouse, Lima e prémios BAFICI na Argentina.



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