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Álex de la Iglesia: «Todos podemos ser criminosos.»

Uma das estreias nacionais que nos chega com esta edição do MotelX é a nova longa-metragem de Álex de la Iglesia, El Bar, filme onde um grupo de pessoas que se desconhecem fecha-se no estabelecimento do título, para se proteger de um sniper no exterior.

O C7nema teve o privilégio de entrevistar o realizador na última edição do Festival de Berlim.

Uma das coisas que mais me apelou no seu filme foi a cena de abertura em que todas as personagens são apresentadas num plano-sequência. É muito interessante porque o espetador fica com a noção de como é o caráter de cada uma. Foi uma cena difícil de filmar?

Foram precisos 17 takes e levou a manhã inteira até chegar ao resultado final. Mas a mim interessava-me juntar todas as personagens no mesmo plano, como se fosse um instante das suas vidas que lhes estivesse a ser roubado. E o espetador entende quem eram estas personagens em situações normais, vê-as antes de todas as transformações que irão ocorrer. De todas, a de Blanca [Suárez] é a que aparenta ter um maior futuro.

É por isso que começa com ela?

Sim, as mulheres pensam muito mais no presente do que os homens, que estão sempre a pensar no que fizeram e no que farão a seguir. O que é divertido quando entras num bar, é que tu te sentas e não falas com a pessoa que está ao teu lado. No entanto, podes fazê-lo e essa conversa pode mudar radicalmente a tua vida, para melhor ou pior. Essa pessoa pode até ser um assassino. O mesmo podia acontecer aqui, qualquer uma destas pessoas que estão aqui a passar [faz um movimento circular com um braço] poderia, por exemplo, matar-nos agora. E isso angustia-me, saber que posso estar rodeado de milhares de histórias e que não as sei, mas que com o seu progredir podem cruzar-se com a minha de uma forma irreversível. Tudo isto enquanto estamos apenas aqui sentados.

Na conferência de imprensa disse que as suas influências são Buñuel e Carpenter.

É um exemplo. O que queria era salientar era um contraste. Buñuel é considerado importante e Carpenter é um cineasta que faz filmes de série-B. Esta combinação, entre coisas consideradas importantes e coisas vistas como “estúpidas” é o que faz o meu cérebro. Influenciam-me mais os filmes maus que os bons. Podes dizer Dreyer, Bergman ou Ford, mas é uma farsa. Não quer dizer que os teus filmes tenham alguma coisa a ver.

Curiosamente, quando vi o seu filme pensei no Anjo Exterminador (1962) de Buñuel e no Veio do Outro Mundo (1982) de Carpenter. Pretende combiná-los?

As comparações fazem todo o sentido, mas não há aqui nenhuma combinação. Adoro o conceito surrealista do primeiro onde uma série de pessoas não consegue fugir do mesmo sítio, sem haver razão para isso. Aqui há uma razão. Chama-se medo. Todas as personagens estão completamente assustadas com a hipótese de morrerem subitamente. Na vida real lidamos com o medo. Vivemos diariamente no mesmo sítio com as mesmas pessoas e a fazer as mesmas coisas. Porque temos medo da liberdade real. E nada te obriga a tomares essas escolhas. Mas, no fim, és um escravo do teu medo. Como no filme.

Medo da liberdade?

Sim, aquilo de que temos mais medo é de sermos livres, sabermos que podemos fazer qualquer coisa. Vivo com a minha família a fazer filmes em Madrid e a minha vida está construída assim e agrada-nos que assim seja. Porquê? Porque nos dá medo que mudemos num instante súbito. Hoje sou isto, mas nada me impede que amanhã possa ser um assassino. Ou que vá lutar para África. Ou então ser um acionista em Wall Street. Poderia ser qualquer coisa. Saber que temos uma vida tão curta é-nos impensável. Tal como nos é impensável que tenhamos uma vida tão rígida e conversacional. Porquê? Porque temos medo da liberdade, o maior dos medos. Todos podemos ser criminosos. Temos de reconhecer que somos pecadores, cobardes e que nada nos vai salvar disso.

Queria também falar da religião. Há momentos muito religiosos neste filme, não só na conversa sobre o Apocalipse, mas também quando uma das personagens põe num defunto moedas nos seus olhos (alusão ao óbolo de Caronte) e quando a mãe queima as palmas das mãos como se tivesse sido crucificada.

Eu sou um homem católico. A religião é uma das minhas obsessões. Estudei filosofia na universidade e sou verdadeiramente preocupado com ela. Mas não como um pensador. Sou preocupado em encontrar soluções na minha vida quotidiana. Não tem a ver com o querer saber o que quer dizer tudo isto de vez em quando. Todos os dias há atrocidades no mundo. É nesses sítios que habita o verdadeiro “terror”. Todos desejamos que venha alguém que nos dê soluções para estas atrocidades. A religião não é mais que uma maneira de buscar uma solução irracional para elas.



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