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«Bel Canto» por André Gonçalves

  • Publicado em Critica

O estilo operático que dá nome a este título do sempre difícil de categorizar Paul Weitz (American Pie, About a Boy) faz logo esperar um drama apaixonante, e também ele operático, mas Bel Canto acaba por se revelar um mero filme político de mensagem explícita, mensagem esta capaz de figurar num pacote de açúcar. A saber: a música, neste caso o canto lírico, é a grande linguagem universal capaz de unir povos de várias origens e ultimamente salvar o mundo do caos que nos encontramos. O caos aqui presente é um conflito político, que obriga forças rebeldes a fazer reféns de um evento, entre os quais a cantora de ópera mundialmente reconhecida Roxanne Coss e seus fãs de diversas nacionalidades. Ouvimos espanhol, japonês, francês, alemão... como se a maldição de Babel estivesse toda aqui focada numa sala.

Assim, entre a tentativa de alheamento da realidade através do visionamento da novela Maria la del Barrio (a ação decorre no final da década de 90), a violência sempre latente e uma vontade de aprender outras línguas, começa a nascer o amor. Não só entre um, mas dois casais. Nada como uma situação de reféns para disparar o romance entre estes, afinal.  

Sendo a música o verdadeiro motor desta narrativa, existe logo uma questão problemática à cabeça: nada contra o playback, quando bem executado. No caso de Julianne Moore, geralmente uma atriz capaz de elevar sempre o material que lhe é proposto, foi-lhe dado um presente envenenado aqui. Não se esperava que fosse cantar como uma cantora de ópera, não senhor, mas o seu jogo de lábios com a voz da Renée Fleming denuncia o truque, removendo-nos assim do filme em alturas tão cruciais (talvez problema da realização e montagem também aqui). 

Bel Canto consegue ser a pior das obras do seu género dito "humanista"- nem subtil nas suas intenções, nem substantivo ou minimamente memorável na sua pseudo-essência cinematográfica (não falta sequer o slow motion entre música de violino a "embelezar" o final), no que usa para chegar ao seu objetivo. Uma espécie de resposta nas mesmas notas de Weitz ao cinema liberal de pacotilha de Sean Penn. 

André Gonçalves

«King of Thieves» (O Rei dos Ladrões) por André Gonçalves

  • Publicado em Critica

A premissa aparenta ser refrescante, vista a uma certa distância: resgatar uma geração de atores britânicos de uma certa idade, colocando-os de novo a encabeçar uma golpada à antiga. Desta feita, trata-se do roubo "real" de diamantes de um cofre de uma das zonas mais ricas de Londres: Hatton Garden.  

O rei dos ladrões do título é Brian Reader (Michael Caine) que convoca então a sua equipa de veteranos, onde salvo uma excepção, é toda ela composta por homens, ou preocupados em levar injecções para a diabetes tipo 2, ou que "passam das brasas" muito facilmente. Assim, uma ideia de sketch pincelada com a idiossincracia que o humor britânico oferece prolonga-se até ser impossível disfarçar o aborrecimento. As piadas, ora geriátricas, ora simplesmente datadas, acumulam-se. 

Se é certo que noutros tempos, o charme destes senhores atores (para além de Caine, temos: Jim Broadbent, Tom Courteney, Ray Winstone, Michael Gambon e Paul Whitehouse) por si só desse carta branca a um veículo despudorado, não é preciso ter essa referência esfregada na cara do espectador - sim, temos literalmente as versões cinematográficas mais jovens destes atores inseridas na sala de montagem a corte e colagem. Facilitista, para dizer o mínimo. Aliás, não seria preciso tamanho truque para nos darmos conta que os atores encontram-se presos às expectativas mais básicas que possamos ter deles, de há meio século para cá: encontram-se todos dispostos a cumprir os seus maneirismos tradicionais, em segurança. As personagens deixam de ser reais para serem adaptadas às suas personas, portanto. O argumento não pede mais, afinal: veja-se, a título de exemplo básico, como o uso da perda da mulher do protagonista logo nos minutos iniciais é apenas mencionada no futuro desta narrativa um par de vezes como punchline - algo como  "Se a minha mulher nos ouve dá voltas na campa..." (parafraseado do que é efetivamente dito, mas é esta a intenção).   

Em suma: perante tamanho roubo, o maior roubo permanece ainda assim o do tempo precioso do espectador. 

André Gonçalves 

«Disobedience» por André Gonçalves

  • Publicado em Critica

Segundo o Tora, Deus criou três tipos de entidades: Anjos, Bestas, e ao último dia, o Homem, nem Besta nem Anjo, dotado de liberdade para desobedecer. 

Sebastián Lelio, responsável por alguns dos estudos de personagens femininas mais marcantes dos últimos anos (Gloria, Uma Mulher Fantastica) decidiu também ele desobedecer um pouco a esse padrão, pelo menos temporariamente, e decidiu participar numa história a três, onde cada vértice do triângulo acaba também por si por representar um ponto do espectro na devoção à comunidade judaica onde cresceram. 

Acabando de saber que o seu pai, o rabi da comunidade, morreu (após proferir o discurso presente no primeiro parágrafo), Ronit (Rachel Weisz), a renegada desobediente, regressa a casa. Aí depara-se logo com o discípulo preferido do seu pai, Dovid (Alessandro Nivola), e posteriormente com Esti (Rachel McAdams). Ronit eventualmente percebeu que, de modo para ter liberdade para pensar por si, tinha que sair do espaço que a viu crescer. Esti acaba por ser no fundo a versão dela que não conseguiu sair de casa, e acabou por assentar com Dovid, como única escapatória/cura para os seus desejos de besta que acabaram por ser notados... um compromisso que a chegada de Ronit vem abalar. 

Perante este enredo inescapavelmente novelesco, Lelio convoca até um registo clássico, Sirkiano, de "filme de mulheres", de melodrama puro. Este sempre foi um género bem discriminado, mesmo com o revisionismo por outros autores contemporâneos (Pedro Almodóvar, Todd Haynes, etc. ), porque a telenovela - i.e. o melodrama mais comercial - sempre soube também simplificá-lo. Aqui, não haja dúvidas: há cinema para dar e distribuir. 

Ora usando tracking shots para acompanhar estas personagens (ironicamente sem um rumo bem decidido), pondo-nos como testemunhas deste affair, ora aproximando então a câmara para nos revelar nuances, ou aquilo que é efetivamente importante para as personagens, Lelio vai formando uma tapeçaria complexa de emoções nas quais o trio Weisz, McAdams e Nivola são co-artesãos.  Sem os três atores, os múltiplos desenlaces e os falsos finais poderiam ser mais desorientantes do que já são. É graças à sua entrega que aceitamos esta oferta genuinamente humana de Lelio como uma obra de amor, que talvez não saiba bem como sair de cena, sim, mas até aí se mantém fiel às suas personagens. 

Que um filme tão cativante como este não consiga estreia comercial em sala é sem dúvida mais alarmante que qualquer imperfeição que possa possuir. 

 

André Gonçalves

 

«Sauvage» por André Gonçalves

  • Publicado em Critica

Tendo sido apelidado como um dos filmes-choque de uma mesma edição Cannes que recebeu também Lars von Trier no seu modo mais psicótico, Sauvage surge precisamente no tempo certo. 

Numa época onde tanto se fala em legalizar/regulamentar o trabalho sexual, ou até questionar essa atividade enquanto trabalho, argumentando que o corpo é mais mercadoria que força, esta estreia de Camille Vidal-Naquet tem tudo para incendiar ainda mais debates, e reforçar tanto noções abolicionistas (aquelas que defendem que devemos a todo o custo repudiar a prostituição como trabalho digno) como noções libertárias do corpo como instrumento deste "trabalho" em concreto. 

Leo tem 22 anos e já não sabe há quanto tempo vende o corpo em troca de dinheiro para ir sobrevivendo. Ou não quer dizer, dado que esta informação surge via uma consulta médica. Afirma-se como gay, ao contrário do seu protegé de rua pelo qual nutre um amor inconfessável, daqueles amores de adolescência que teimam em ser não correspondidos, se não contarmos a violência como correspondência...

Por um lado, não há ilusões aqui para esta Cabiria dos tempos modernos - o realismo não é o de Fellini, mas sim o de outros franceses pós-nouvelle vague. Vem até estranhamente à memória (talvez por uma revisão recente) Sans Toi Ni Loi (Sem Eira Nem Beira) de Agnés Varda (1985), no qual uma outra figura "renegada" da sociedade deambula pelas ruas, por lares diferentes, procurando o seu lugar numa sociedade que não a compreende - nesse, o olhar sempre enigmático das pretensões da protagonista e das origens para este estatuto "sem abrigo" eram discutidos pelos "olhos" de quem se cruzava em narrações episódicas; aqui, o olhar está todo concentrado no corpo desnudado entregue pelo cada vez mais impressionante Félix Maritaud (120 Batimentos Por Minuto, Un Couteau Dans Le Coeur).

E não se trata apenas de mostrar nudez (e sexo) entre homens para chocar o homem heterossexual branco, o que mais facilmente terá um instinto (social?) em querer salvar estes rebeldes, colocando-os em posições sociais mais confortáveis - mesmo que não estivesse dinheiro envolvido na transação. Trata-se, lá está, de abrir as nossas lentes limitadas constantemente por uma discussão que teima também ele em não expandir, e não aceitar que a vida de um prostituto de rua não é glamorosa, sim, mas que há um espectro nestes encontros e vão surgir outras atividades em complemento ou alternativa à penetração peniana, da manifestação de empatia e carinho terapêuticos (mesmo que a troco de dinheiro) às violências/violações de dignidade mais revoltantes, a roçar a certo ponto o masoquismo, traço não tão incomum da nossa natureza enquanto espécie como se possa pensar.  

O protagonista acaba por aturar todas estas violências - físicas, psicológicas, sentimentais - para no final querer apenas poder respirar, literalmente e metaforicamente. E se respirar implicar querer usar o corpo como um uniforme, uma máquina verhoeviana (referência assumida a Kyle Buchanon em entrevista) que se retoca, costura, e se vira do avesso, eis talvez a maior provocação. Vidal-Naquet acaba por sugerir assim, pelo menos para este espectador, que a "salvação branca" pode ser em si um final bem mais deprimente do que poderíamos esperar, também aí deitando uma acha à fogueira ao debate público... 

 

André Gonçalves

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