Hugo Gomes - C7nema
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«BlacKkKlansman» (O Infiltrado) por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Fora as questão de cinematografia, convém referir que nos anos 90, e não há tanto tempo assim, Spike Lee era visto como uma espécie de caricatura de um certo fundamentalismo afro-americano, nesse sentido, um filme como Malcolm X correspondia com exatidão à sua natureza. Com a passagem para o novo século, Lee foi de certa forma ostracizado pela indústria, como tal, tentou integrar-se perante projetos fora das suas amenas águas. Filmes como Inside Man e até mesmo o esquecível remake de Oldboy eram encarados como tarefas de subsistência perante uma Hollywood que definitivamente o desprezava. Não somente a sua figura, mas como evidenciava um inerente racismo e colonialismo no seio desta “utopia cinematográfica”. A América, porém, não mudou em paralelo com o circuito de Lee, apenas revelou os seus demónios interiores, sendo que, tendo em conta os tempos que vivemos, sentimos na obrigação de pedir clemência ao realizador, que se assumiria não mais, nem menos, que um subestimado messias sociopolítico.

Em BlacKkKlansman, Spike Lee subverte o caso real de Ron Stallworth (um detetive afro-americano que infiltra-se na sede do Klux Klux Klan, em plena década de 70) para abordar uma América de hoje, sob os enfeites dos movimentos trumpistas e da expansão extrema-direita. O filme soa a projeto antigo, com o cineasta a indiciar força de vontade para espelhar os seus profundos dilemas, entre os quais a repugnância por The Birth of a Nation, de D.W. Griffith, e pelo retrato exposto em outro clássico norte-americano, Gone with the Wind. Como sabem, Spike Lee sempre fora um apoiante à censura do incontornável filme de Griffith (incontornável no sentido da História Técnica e Narrativa do Cinema), sendo que nos seus anos enquanto estudante de Cinema protestava incendiariamente à inclusão da obra nessa História centenária. Como trabalho de graduação, Lee respondeu, literalmente, com The Answer (1980), onde transformou o filme com mais de três horas de duração numa metragem de 10 minutos.

E desse ‘Answer prolongado em toda a sua obra (mesmo as ditas contas industriais que se resistiam aos seus dilemas) chegamos a BlacKkKlansman, o qual somos correspondidos, por fim, ao seu ácido e por vezes urgente ativismo. Em tempos que filmes politizados à direita se convertem em êxitos sem precedentes (de American Sniper a quase tudo composto por Berg / Wahlberg), uma obra inteirada nas questões raciais e sociopolíticas que evadem todo um sistema bajulador da bandeira estrelada, assume-se, como diria os yankees, num must-see.

Mesmo sob um humor matreiro a ser confundido com os tons coenescos (por aqui aposta-se influência de Jordan Peele, realizador de Get Out reivindica a produção deste BlacKkKlansman), deparamos com um Spike Lee em estado de fúria, libertador do seu enclausuramento cinematográfico o qual encontra neste curioso ficheiro policial um pretexto para prosseguir o seu discurso. É sim, um filme de demagogia politica centrada no seu alvo, visto que o realizador nunca exerce de maneira igualitária os mesmos julgamentos perante organizações tão opostas e igualmente propagadoras de ódio (os Black Panthers de um lado, a terem como punição um sermão ao de leve, e os Klux Klux Klan a ser ridicularizados … sublinha-se … deliciosamente ridicularizados). Esta desigualdade é tão própria de Spike Lee, mas assumimos BlacKkKlansman como um filme do seu tempo (precisamente o nosso), cujo objetivo principal requer toda a nossa e merecida atenção.

Mas é nesses signos de The Answer, que o filme tende por vezes cair num discurso incansavelmente reacionário, e propicio à imagem dos mais recentes movimentos que anseiam apagar obras inteiras perante o seu conteúdo temático. The Birth of a Nation, é assim, a vitima da fúria de Lee, despachada para novas gerações como um somente “filme inconsequente e irresponsável” da História cinematográfica, ao invés de salientar a sua importância na linguagem da mesma. É óbvio que datado como se encontra, a obra de Griffith é uma tenebrosa e indigesta visão de um Mundo fabulista, idealizado por alguns loucos (e não são poucos), mas sem a existência desta controversa peça não existiria, estruturalmente, este BlacKkKlansman. Talvez estejamos a cair em conversas de sensibilidades puras ao invés de construímos uma consciência exata e racional. Contudo, o debate de obra acima do autor / conteúdo tem mais que se diga e não iremos centra-nos nestas questões perante um filme como este. BlacKkKlansman encontra firmeza nas suas palavras e atos, é uma produção vingativa, mas sabiamente vingativa que se reencontra constantemente. E por mais defeitos que possamos apontar a Spike Lee, nunca iremos acusá-lo de incoerência nesse mesmo discurso.

O realizador regressa naquilo que poderemos afirmar como um dos seus melhores trabalhos dos últimos anos, conseguindo reunir um elenco capaz e vigorosamente carismático (desde o achado que é John David Washington, filho de Denzel Washington, até ao caricatural Topher Grace na pele do infame David Duke) e providenciando momentos de um cinema estruturado e tecnicamente expressivo (a reunião com os Black Panthers revela-se num onirismo aludido e metaforizado). Confirma-se, Spike Lee continua a demonstrar sangue na guelra.


Hugo Gomes

 

«Ant-Man and the Wasp» (Homem-Formiga e a Vespa) por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

No calor do Infinity War e o seu climax que termina em cliffhanger (a esta altura do campeonato todo o Mundo já deve conhecer) a Marvel Studios lança em pleno verão escaldante uma espécie de resfriamento à megalómana pretensão do estúdio. A sequela que ninguém pediu, mas que mesmo assim, provando ser capaz de vender gato por lebre, eis Ant-man and the Wasp, onde Peyton Reed, novamente no leme, suspira de alivio pelo desvanecer da sombra de Edgar Wright, porém, nada de ingenuidades aqui, as correntes ainda são muito Kevin Feige.

Convém salientar que dentro dos atiradores furtivos com vista ao mercado que foram as últimas incursões deste departamento da Disney, este “Ant-Man 2” é um exemplar modesto longe das ambições de inovar / alterar o curso de um franchise (pedimos desculpa pelo lapso – Universo Partilhado). Assim sendo, sob doses favoráveis de humor familiar e um Paul Rudd como “peixe na água” neste registo, Reed orquestra as mesmas e anteriores notas do arquétipo do heist movie, apimentado toda esta ação mirabolante e pontuada pela comédia já reconhecida com um maior apreço pela personagem feminina.

Esqueçam as vergonhosas inserções de Black Widow (Scarlett Johansson que servia de par romântico disponível e partilhado) e Natalie Portman que tantos bocejos trouxeram como dama em apuros, este Ant-Man é a peça mais feminina do estúdio em conjunto com BlackPanther e as suas sentinelas “over-the-top”. Nesse sentido, Evangeline Lilly enquadra na perfeição esta heroína acima do sidekick (mas vamos com calma porque o foco principal continua direcionado a Paul Rudd e o seu alter-ego). Estando possivelmente a uns pontos do filme domingueiro que se converteu na primeira estância do Homem-Formiga, esta nova aventura dos insectoídes é somente uma demonstração de poder do estúdio, oleado e refinado como manda a sua indústria que se confunde mais com uma prova de vinho sintéticos, sem nunca enriquecer o paladar do seu freguês.

Automatizado, previsível, sem foco para o além-entretenimento passageiro com toques e retoques disnescos sem salvação. Mesmo com novas aquisições de luxo (Lawrence Fishburne e Michelle Pfeiffer) e uma figura antagónica (Hannah John-Kamen) longe dos requisitos básicos da vilania (começamos a pensar que na realidade são os Vingadores os piores inimigos da Humanidade), Ant-Man and the Wasp é a modéstia o qual tínhamos saudades nesta saga prolongada, mas fora isso, não é sinal que a formiga tenha por fim o seu catarro.

Hugo Gomes

«The Darkest Minds» (Mentes Poderosas) por Hugo Gomes

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O que é que torna The Darkest Minds no filme mais desinteressante desta temporada? Primeiro, o conceito que transpira a um "wannabe" X-Men com jovens prodígios e poderes vários a tomar conta da enésima temática distópica. Segundo, a inspiração de sagas infantojuvenis de tal natureza (são quatro livros da autoria de Alexandra Bracken [tendo em conta as bilheteiras, só iremos ficar por um volume no cinema]), e nesse “mundinho” o efeito déjá vu das fações, das divisórias e, por fim, dos vilões megalómanos que possuem influências na militarização e no seio politico.

Por último, de forma a engrossar toda esta visão míope de entretenimento para os mais jovens (Hollywood tem culpa no cartório em persistir em matérias bocejantes e revistas na indústria), é uma espécie de “adultofobia”, com os jovens a tomar, inconsequentemente, papéis ou figurões de maturidade numa guerra entre faixas etárias. Prevalecem esses sintomas de recursos gastos para o vácuo da criatividade, onde se poderia ao menos salientar o bem empregue rigor técnico e narrativo. Ora vejamos, se em técnica este The Darkest Minds é acima da competência entediante (novamente a palmadinha das costas e os “good job!” desta vida), em narrativa é o pão que o diabo amassou.

A padronizar os filmes e as audiências perante a puerilidade das personagens, relações e situações, para que no fim não exista sensação de perda, consequência, ou crítica político-social (nesse ramo, o seu congénere The Hunger Games saiu obviamente a ganhar). E falando em Jogos da Fome, a protagonista - Amanda Stenberg - encontra-se novamente presa a este tipo de produções (relembramos que ela fora a Rue, a impulsora da revolução da pseudo-heroína Jennifer Lawrence na mencionada saga).

The Darkest Minds é somente isto, a mera gota no Oceano e, a esta altura do campeonato, é de uma profunda descartabilidade.

Hugo Gomes

«The Spy Who Dumped Me» (O Espião que me Tramou) por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Até certo ponto chega a ser saturante o número de paródias ao subgénero de espionagem que são produzidos, tendo sobretudo alvo às enésimas missões de 007. Em The Spy Who Dumped Me, o título é por si um bilhete de boas-vindas a essa mesmo "spoof", foca-se no entretanto ao dito arquétipo de bond girl, ao invés do irresistível espião da MI6.

Mila Kunis é a protagonista e vítima da sua personagem-tipo, a mulher sem autoestima, insegura e cuja caótica vida a torna no exemplo perfeito para ser um caso improvável de sucesso (pelo menos não contamos em revê-la a limpar sanitas). Apesar da atriz subjugar-se a este tipo de papéis, que nada condizem com a sua imagem, é lhe dada uma sidekick (Hollywood, e não só, parece não conseguir fugir ao mesmo vicio). Essa, em forma de Kate McKinnon (que tem tentado conquistar o grande ecrã, porém, perdida em figuras demasiado caricaturais), é arrastada para uma missão involuntária bem ao jeito dos últimos sucessos do subgénero que o filme tende em citar.

E é aí que entramos no maior dilema deste produto, um objeto dedicado na sua vertente de ação mas denegrido pela comédia de estúdio que tenta forçosamente ser. Assim, somos presenteados com um trabalho esforçado na área dos "stunts" e dos códigos previsíveis da ação, até mesmo a missão que serve de subenredo ostenta o seu quê de astucia. Contudo, a versatilidade fica-se pelo físico. The Spy Who Dumped Me retém-se pela comédia livre quase improvisada que não tem noção quanto às suas doses recomendáveis. Caímos em histerismos, em escatologias e muito humor sitcom dignamente televisivo para “encher chouriço”. A salientar também pelo falso-feminismo que tenta desesperadamente tecer, citando o capitalismo infiltrado deste movimento sobretudo social.

Está difícil Mila Kunis vingar com personagens e filmes assim, caindo na desgraça da imperativa indústria ao serviço de tendências e igualmente de velhos costumes difíceis de matar. Sinceramente, vindo de um filme com este título esperávamos muito mais do que uma futura exibição domingueira. É a silly season, como já dizia o outro.

Hugo Gomes

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