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«L'Empire de la Perfection» (John McEnroe: O Domínio da Perfeição) por Hugo Gomes

“O Cinema mente, o desporto não”

E é com a frase de Godard que Julien Faraut nos convida diretamente para o mundo do ténis, no qual somos automaticamente interpolados pelas imagens institucionais de Gil de Kermadec para depois chegarmos ao objeto de estudo desta demanda: John McEnroe.

Mas antes, questionamos o impasse dado neste inicio, como um obstáculo que nos impede de seguir diretamente o serviço. Porém, a paragem obrigatória nos registo de Kermadec impõem o dilema quanto aos desígnios da dita perfeição. É que as mesmas imagens são paradoxos abismais aqui - o contraste dos gestos robotizados ligados à perfeição de uma idealização do ténis faz-nos crer que essa economia de movimentos é somente uma cabala perante ao desengonçado modo de jogar de McEnroe, quatro vezes campeão do Mundo, que desafia toda a doutrina enraizada nos “bons costumes” do desporto. Mas é nessa imperfeição que Faraut encontra a mestria. Para ele, o norte-americano é o jogador de topo, tendo como grande virtude e característica todo um controlo do ambiente a redor. Um rei no seu espaço … ou melhor, um realizador no seu set.

Mas antes de avançarmos para McEnroe e o seu “mau feitio”, temos que interiorizar que Faraut não é um mero adepto da raquete, mas um cinéfilo, assim como o crítico Serge Daney, que certo dia encontrou as similaridades do ténis com o Cinema, o que originou um livro póstumo e vários artigos no jornal Liberátion. Para Daney e Faraut, o ténis é um desporto 100% cinematográfico, porque nele deparamos com uma noção de tempo, um trabalho, uma criação e uma gestação (nos enquadramentos dessa tese podemos então incluir o boxe como a modalidade predileta do Cinema). Nessa teoria que nos leva aos escritos de Andrei Tarkovsky (Esculpindo o Tempo), o realizador investiga as proezas de McEnroe e depara-se com um “colega seu”. Mais do que um jogador, McEnroe é um cineasta, não fosse o facto de se comportar como tal em campo. As suas constantes interrupções, a sua tremenda determinação de controlar todo o seu redor, desde o mais silencioso dos sons, ou do “olhar a mais” que se projeta na partida. McEnroe parte como um perfecionista, nem que para isso se assuma numa enzima em equilíbrio do próprio ecossistema.

Faraut compara-o a Mozart, nomeadamente à encarnação cinematográfica de Tom Hulce em Amadeus (Milos Forman, 1984). Mas não é por acaso. O próprio ator declarou que se reviu no jogador para recriar o seu compositor. Contudo, o lado a lado com estes natos de diferentes ramos não é vão. Trata-se de um consolidar de génios, a provocação de duas figuras acima do seu tempo, completamente desprezados (ou ridicularizados) na sua contemporaneidade e dotados de uma genialidade em conforto com a própria instabilidade. Para isso, e voltando a mencionar, McEnroe precisa do seu espaço apropriado, nem que batalhe diariamente, ou melhor, em cada minuto, para isso. O realizador (neste caso, refiro Faraut), consegue, através de um minucioso trabalho de arquivo, construir imageticamente uma análise psicológica e comportamental do campeão (um retrato tão profundo de uma figura desde Zidane, un portrait du 21e siècle, de Douglas Gordon e Philippe Parreno).

E não se deixem enganar por um suposto lado documental, até porque L'Empire de la Perfection trabalha sobre as nuances da tragédia ficcional, o qual reserva-nos a meia-hora final da queda de McEnroe. Uma dolorosa conclusão onde, sem perder a sua autenticidade, assistimos à derrota de um gigante e o inicio de uma nova era no Universo tenista. Possivelmente, Faraut espelhou com alguma tristeza esse desprezo pela perfeição e o arranque da imperfeição das coisas, neste caso, traduzindo em dialeto do ténis.

Sabendo que existe uma escassez de filmes sobre tal desporto, arriscamos em afirmar que a abordagem de Julien Faraut significa por enquanto o desejado casamento do ténis com o Cinema propriamente dito. Porém, a ilusão deste império não deixa dúvidas: longe de comparações temáticas, L'Empire de la Perfection é uma carta de amor à Sétima Arte. Não é perfeito, mas não está longe disso.

Quando assistimos ténis não sabemos o que vamos ver

Hugo Gomes



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