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«Kills on Wheels» por Guilherme F. Alcobia

Com a barba por fazer, o cabelo comprido despenteado e um saco de comida para pássaros no colo, Rupaszov está no meio de uma praça em Budapeste a observar três homens de fato que, numa esplanada, apertam as mãos e se despedem, como quem acaba de fechar um negócio. Enquanto um deles se levanta, acompanhado por dois guarda-costas, Rupaszov está rodeado de pombos cujo tom de fuligem contrasta com o seu blusão desportivo verde. Coloca a mão dentro do saco – e metros à frente, entre os guarda-costas, cai no chão o homem, baleado. Com a arma escondida na comida de pássaro, Rupaszov afasta-se do local na sua cadeira de rodas, sem que ninguém, na multidão que entretanto se gerou, suspeite minimamente daquele paralítico.

Porque suspeitariam? O mundo em que vivemos menospreza as pessoas portadoras de deficiência, catalogando-as como inválidas, destoantes, incapazes, coitadas. Kills on Wheels insurge-se contra esta noção, provando, através dos seus três protagonistas e com muito humor, que não há nada que nos diferencie uns dos outros, quer em qualidades quer em defeitos.

Na verdade, Rupaszov pode até nem ser real, mas antes o protagonista de um graphic novel que dois jovens concebem nos seus tempos livres. Zoli é um paraplégico que, ainda em criança, foi abandonado pelo pai e, agora que precisa de uma cirurgia urgente à coluna, recusa que este pague o procedimento. O seu amigo Barba tem paralisia cerebral, mas nada que o impeça de andar ou esmoreça as suas tentativas em atrair uma pretendente. Os dois vivem juntos e elaboram uma história sobre Rupaszov, um bombeiro que tinha uma relação estável com uma enfermeira, mas que após um acidente se viu sem mobilidade da cintura para baixo, e sem namorada.

A fronteira entre o que é real e o que é imaginado pelos dois rapazes é esbatida: se por um lado parecem conhecer Rupaszov, por outro a sua existência pode ser apenas ficcional. De qualquer modo, esta personagem é alegoria tanto dos medos como dos sonhos de ambos, e é através dela que Zoli, num processo de catarse, se reconcilia com o pai.

Até que tal aconteça, os três passam por uma série de episódios, entre o crime e o desgosto amoroso, unidos por um constante humor negro. Estes homens troçam das dificuldades físicas uns dos outros, riem-se de si mesmos, confiantes e resignados da sua condição; mas a audiência não pode deixar de sentir alguma culpa por também se rir. É, em parte, esse o objetivo de Kills on Wheels: fazer-nos questionar a condescendência e o paternalismo que normalmente nutrimos pelos portadores de deficiência, muitas vezes sem sequer sabermos nada sobre a sua condição.

Os dois jovens atores deste filme são amadores e não tentam esconder que são de facto diferentes – eles possuem verdadeiramente problemas de mobilidade. Mas as diferenças acabam aí. As situações inseguras, hilariantes, amorosas, familiares por que passam atestam que não há que sentir pena por eles; afinal, reconhecemo-nos e identificamo-nos repetidamente ao longo do filme com estes rapazes. Porque efetivamente a sua história é mais comum que particularmente original ou fascinante.

É, no entanto, divertida, genuína e capaz de subverter vários dos estereótipos associados tanto a este género de personagens, como a este género de filme (thriller, ação). Não é por acaso que esta foi a seleção da Hungria para concorrer aos Oscars em 2017, visto que o segundo filme do realizador Attila Till tem detalhes na conceção das personagens, peculiaridades visuais, escolhas musicais idiossincráticas e muita ironia à mistura, que tornam Kills on Wheels uma agradável surpresa. 

Guilherme F. Alcobia



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