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«Cold Pursuit» (Vingança Perfeita) por Jorge Pereira

Estavamos em 2014 quando Hans Petter Moland invade o Festival de Berlim com o seu concorrente ao Urso de Ouro, Kraftidioten. Seguindo uma tendência que explodiu após o sucesso de Taken de Pierre Morel, no filme acompanhamos um homem de meia idade (Stellan Skarsgård) que parte numa busca incessante pelos responsáveis pela morte do filho, à procura de justiça (ou mera vingança). Essa personagem, o responsável pela limpeza da neve numa localidade gélida, e que foi considerado recentemente "O Homem do Ano" da sua terriola, era o típico cinquentão que já só deseja "sopas e descanso" quando é confrontado com um evento trágico que irá revelar as suas capacidades ocultas de extrema violência contra inúmeros vilões que lhe vão aparecendo pela frente.

Quatro anos depois, o mesmo realizador - tal como Michael Haneke com Brincadeiras Perigosas ou Takashi Shimizu com o seu Ju-On - assinou a versão americana do seu próprio filme, produzindo ligeiras mudanças no enredo, mas mantendo o espírito e o tom na comédia negra, por vezes totalmente absurda, popularizada no cinema por nomes como os irmãos Coen. Esse sentimento e atmosfera bizarra é muito sentido neste Cold Persuit, onde os nevões, as paisagens gélidas, personagens burlescas e bizarras e até uma banda-sonora nos remetem a Fargo. A diferença é que Liam Neeson e o seu modo habitual de cinema de ação mecanizado pela vingança toma conta de uma história com pouco a acrescentar em relação ao filme original. Até muito do humor (negro), como a interminável cena inicial da morgue em que se vai subindo a maca onde está o falecido rapaz, são trasladadas do original para o americano, ficando assim na mente do espectador uma terrível sensação de dèjá vu.

Se narrativamente não temos alterações de maior (um ajuste aqui e ali), esteticamente, Mooler aplica diversos pontos igualmente semelhantes ao filme de 2014, a começar pelos separadores que anunciam óbitos atrás de óbitos ao longo do filme. Depois, e mantendo-se a ação em zonas gélidas, todo o trabalho de fotografia e direção artística é  reminiscente, soando apenas a pequenas alterações ou ajustes, aplicando-se o mesmo às sequências de ação e até à direção de arte.

Já onde este remake perde pontos em relação ao original é na perda de carisma por um dos papéis adversos no original estar entregue ao sempre marcante Bruno Ganz. Nesta versão, e apesar de haver algum fulgor na confrontação entre criminosos, tendo parte deles raízes nativas americanas, no total isso acaba por saber a muito pouco para podermos dizer que toda esta refilmagem era necessária. Um dos pontos que poderia ter sido facilmente melhorado era a importância da mulher do protagonista, reduzida no primeiro filme a uma personagem de cartão, e aqui entregue e desbaratada a uma Laura Dern igualmente desaproveitada.

E se é verdade que existe constantemente um sentimento de queda na autoparódia quando se vai encerrando um ciclo de filmes, como neste caso o de cinquentões em busca da vingança (um filme à Liam Neeson como já se vulgarizou), também é verdade que isso deve ser feito com material mais original, que verdadeiramente se afaste e ganhe uma nova dimensão em relação ao que se baseia, que por si só já era derivativo. Aqui, e infelizmente, para além de pouco de novo a mostrar, parece que nunca encontramos o tom certo para seguir os eventos, não funcionando como filme de vingança, nem como filme de gangsters, nem como comédia negra de microcosmos locais repletos de rufias.

No final, fica uma fita que já tínhamos visto, mas agora pior. Fica também a triste recordação que este poderá ser um fim sem glória para Neeson e para os seus vingadores no cinema. Sim, porque se falou mais do que ele disse durante a promoção ao filme, do que o que fez nele...


Jorge Pereira



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