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«Todos lo Saben» (Todos Sabem) por Guilherme F. Alcobia

A carreira do realizador e guionista iraniano Asghar Farhadi tem gravitado em torno de temas sociais e dinâmicas de família. Desde o sucesso de Uma Separação (2011) que os seus filmes têm lidado com o desvendar de segredos, o advir do passado, e o revelar das verdadeiras relações interpessoais entre personagens. Todos Lo Saben não foge a essa regra e, apesar de ser o primeiro filme do realizador que não retrata uma família inteiramente iraniana, é em larga medida uma reciclagem de temas e preocupações que Farhadi já filmou de forma mais impactante.

Laura, interpretada por Penélope Cruz, regressa à sua terra natal em Espanha para o casamento da sua irmã, acompanhada pelos filhos. A sua calorosa chegada a casa conduz-nos por um leque de familiares e amigos que fazem lembrar um romance antiquado, do género de Camilo Castelo Branco ou Eça de Queiroz, em que avós, tios e conhecidos são todos vizinhos e oscilam entre amor e ódio. Se há coisa que Farhadi sabe fazer é construir relações credíveis e coordenar os seus atores, por isso depressa somos envolvidos numa coreografia de afetos e disputas, e convidados a investigar os segredos e o passado deste grupo de pessoas. É efetivamente entre o que todos sabem e o que apenas alguns conhecem que toda a intriga se desenrola.

Farhadi doseia a informação em jogo de modo a alcançar algum suspense nos meandros do enigma que envolve esta família. As suas tentativas são, no entanto, frustradas, porque muitas das notas a serem tocadas são previsíveis e o enredo é simultaneamente sinuoso e banal. O conjunto de inversões e revelações que se vão desfazendo é mais satisfatório que propriamente impressionante. Mesmo as atuações ferventes de Cruz e de Javier Bardem, que contracena como seu ex-parceiro, não conseguem reavivar o desânimo entorpecido que se arrasta ao longo do filme. Porque a história nunca ultrapassa essa primeira engrenagem de desespero e ressentimento que ora afasta, ora aproxima as personagens.

Tal não quer dizer que não há nesta obra uma articulação cativante entre problemas familiares, questões financeiras e responsabilidades sociais – o modo como estes três fatores sufocam as personagens é, no mínimo, compreensível. O dilema em que elas se encontram é comovente e o nível de emoção só é exacerbado pelas memórias e os fantasmas que vão sendo reanimados, trazendo novas consequências que sublinham o poder disruptivo de cada ação. O problema é que o passado não é assim tão interessante, e os mistérios amorosos e económicos desta família não são suficientes para alimentar este filme de 132 minutos. O modo como as personagens são caracterizadas é quase frívolo e ao invés de complexidade psicológica, Farhadi parece preferir lugares comuns.

É neste sentido que Todos Lo Saben é dececionante, pois habitualmente o guião de Farhadi é mais forte e as decisões, frequentemente morais, que as suas personagens devem arriscar tomar costumam ser mais provocadoras. Há momentos neste filme em que o seu génio transparece – um movimento de uma personagem cuja cara é encoberta por uma sombra quando descobre um segredo; um corte a meio de um diálogo –, mas estes instantes em que a fotografia e a montagem provam a mestria do realizador são efémeros. Este é sem dúvida o drama mais fraco de Farhadi, mas o mesmo é dizer que, por se tratar de um storyteller perspicaz cujas histórias despertam sempre empatia pela sua honestidade, este filme não deixa de ser potente. 

Guilherme F. Alcobia



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