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«Velvet Buzzsaw» por Hugo Gomes

Critique is so limiting and emotionally draining.” Qualquer que seja a “arte”, o campo de procura de um vinculo entre o coração palpitante do maior dos apreciadores para com o objeto pretendido, o crítico, essa “vil criatura”, não é mais que um ser exausto que mexe e remexe na esperança de ir ao encontro duma nova forma de vida.

Para o crítico de arte Morf Vanderwalt (Jake Gyllenhaal), a surpresa de observar um novo artista, completamente desconhecido, mas talentoso e igualmente enigmático, converte-se numa oportunidade para demarcar uma nova etapa na sua visão intelectual, que segundo este,trata-se do recomeço para se deparar com um novo inicio e assim persistir em algo mais do que a simples opinião. Ou seja, conforme a “arte” aplicada, todo o crítico esforça-se para preencher um vazio cometido pela saturação de esforços (o universo pelo qual se inserem), de forma a dar de caras com um diferente OVNI que incentiva a escrever as mais derradeiras palavras e mirabolantes teses que se atentam como achados iluminados de uma verdade fabulista. Enfim … spoiler alert … esse Santo Graal não está em Velvet Buzzsaw, a segunda longa-metragem do argumentista Dan Gilroy, que após conquistar tudo e todos com Nightcrawler, essa volta pela imunda guerra entre os medias pela liderança do horário noturno, desilude-nos com este pedaço de veludo contrafeito.

Gilroy torna-se então num charlatão, utilizando e reciclando matéria para gerar um objeto inanimado, uma quimera em nome de uma apreciação ingrata, um tipo de objeto que nos faz questionar se Nightcrawler foi mesmo um caso isolado e se o realizador apenas se reduz a uma mediocridade, ou simplesmente encontra-se numa posição que não lhe cabe. Possivelmente melhor no papel que no ecrã, o filme que nos presenteia evolui de uma crítica falível à industria da Arte e todos os rodriguinhos da sua transação duvidosa (com umas quantas denúncias à amoralidade do crítico, algo a questionar em próximos episódios) para um enredo de um terror dito industrial.

Apesar do gozo pelo visual e as brincadeiras trazidas pela gratificação do CGI, Velvet Buzzsaw falha em quase todos os campos, desde a narrativa que avança em passo lento para a trama sobrenatural alicerçada numa técnico-narrativa saída da instantaneidade televisiva até ao desenvolvimento trapalhão das suas personagens (Gyllenhaal tão deslocado da intriga que soa estar num filme próprio). Além de tudo, temos em demasia estas que não são mais que vitimas para a alimentação a uma máquina splatter / slasher digna da passagem do novo milénio (sim, nesse território é fácil recordar os sucessos de Final Destination e The Ring por aqui) com claras inspirações à “maldição” do pintor italiano Giovanni Bragolin.

É frustrante que Velvet Buzzsaw seja reduzido a um saco de pancada para críticos (“A bad review is better than sinking into the great glut of anonymity”), sem a esperança de reavaliação, visto que não ostenta novas linguagens nem um modernismo indigestível que acompanha o seu tempo.

Porém, seja isso o pretendido ou não, o que justifica a existência do universo de Dan Gilroy é o facto de servir de um urgente santuário para Rene Russo, atriz atualmente desaproveitada e reduzida a adereço, que encontra aqui o seu atelier performativo. Fica a piada final. O realizador/argumentista poderia seguir os conselhos da sua personagens e partir para um retiro para gestação, uma hipótese de se inovar.

Pelos vistos todos procuram o mesmo; sejam críticos, artistas, realizadores e … porque não … espectadores. 

Hugo Gomes



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