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«Glass» por Jorge Pereira

No final de Split - Fragmentado (2016), M. Night Shyamalan apresentou um twist que colocava o seu serial killer de multipersonalidade, Kevin Wendell Crumb (James McAvoy), no mesmo universo de David Dunn (Bruce Willis), o herói de Unbreakable - O Protegido (2000). Nessa sequência, ficamos também a saber que tinham passado quinze anos desde que Elijah Prince/Mr.Glass (Samuel L. Jackson em Unbreakable) foi institucionalizado numa ala psiquiátrica.

Chegamos agora a Glass, sequela dos filmes mencionados, o qual começa com Dunn, um vigilante a trabalhar com o filho (Spencer Treat Clark) na caça ao responsável pelo rapto de quatro raparigas, ou seja, no rasto de Crumb, o psicopata que "recorre" a uma horda de personalidades (23) para se proteger dos abusos que sofreu em criança, sendo a mais tenebrosa a animalesca A Besta. Às duas por três, ambos são conduzidos ao Hospital de Pesquisa Psiquiátrica de Raven Hill, onde vão encontrar Elijah/M. Glass.

A partir daqui a narrativa orienta-se segundo regras, mitologia e arquétipos clássicos dos super-heróis e vilões, embora seja muito provável que alguns fãs modernos de banda-desenhada coloquem reticências no embarque nesta jornada. Com muito menos recursos financeiros que os filmes de super-heróis habituais, e com uma dimensão mais psicológica que musculada ou bélica, Shyamalan usa toda uma cartilha de truques para prender o espectador, desde o repescar cenas de O Protegido (algumas delas inéditas) e Fragmentado, passando por executar planos clínicos (foco nos close-ups) muitas vezes de ângulo oblíquo (aka ângulos holandeses, numa clara aproximação ao mundo dos comics e à revelação de desconforto psicológico ou tensão no assunto). A isto soma-se ainda a ajuda de Chris Trujillo e Mike Gioulakis a transpor para o design dos espaços e palete de cores a personalidade das personagens confinadas, com a saturação e dessaturação a revelarem-se extensões do caráter dos heróis e vilões e um permanente carburante para a tensão e mistério. O resultado é um espectáculo meritório, mas não equiparável - no engenho, gímnica ou surpresa - aos dois filmes que o antecedem.

Para isso também contribui o facto de os papéis e posicionamento de cada uma das personagens ser já conhecida, perdendo-se a sensação de novidade, estando mais focado Shyamalan em construir a ponte entre os dois filmes, a tapar buracos e eventuais incongruências, a mesclar tons, sempre contando com a ajuda da obrigatória suspensão do descrédito por parte do espectador.

Com os papéis mapeados dos filmes anteriores, ou seja, Dunn o herói, Kevin/A Besta o "soldado vilão que combate o herói com as mãos" e Elijah "a verdadeira ameaça que combate o herói com a mente", o filme vai avançando de forma tensa, mas nunca com grande assombro, explorando Shyamalan temáticas como as raízes da identidade, ou seja, "se somos objetivamente quem somos ou se nossas mentes podem moldar e, finalmente, determinar as nossas realidades físicas". Nesta questão humano/ capacidades sobre-humanas, convém mencionar o papel entregue a Sarah Paulsen, o da Dr. Ellie Staple, especialista num tipo específico de ilusão de grandeza: o de pessoas que acreditam que são personagens de banda-desenhada. É à sua volta que a desconstrução do trio de personagens prossegue e ganha algum fulgor, contribuindo também para uma nova dimensão e extensão da trama.

Ainda durante esse percurso, o cineasta norte-americano de origem indiana lida com as ideias que foi apresentando na maioria da sua cinematografia (Sinais, A Vila, A Senhora da Água, A Visita, etc), como pessoas reais em situações estraordinárias, o papel do destino na vida dessas personagens em constante luta contra os seus demónios interiores, e que reciclam (e reaproveitam) os seus traumas como forma de sobrevivência numa busca de novos objetivos e de intensa compreensão daquilo que são.

No final, temos um filme conseguido, reflexivo e suficientemente sólido, onde o recatado e introspetivo Willis, o excêntrico e dinâmico McAvoy (em modo show off de interpretação) e o cerebral Jackson tentam sustentar-se no mesmo universo e encaixar nele.


Jorge Pereira



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