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«Touch me Not» por Ilana Oliveira

Numa abordagem que toca no limiar do documentário, Pintilie também adquire um papel central no desenvolvimento da trama que tece linhas paralelas de narração. A sua linha central conta a história de Laura, uma senhora que passa por uma crise de meia-idade e que luta contra a sua raiva internalizada, mas também somos espectadores das histórias de Tomas, um rapaz que convive com a alopecia universal (uma doença que elimina todos os pelos do corpo) e Christian Bayerlein, senhor com atrofia muscular espinhal.

Essa inserção da realizadora como mediadora dos experimentos propostos para cada um dos personagens é uma composição que, por fim, dá um tom mais real à longa-metragem, entretanto confunde o espectador sobre qual é o género que Pintilie decidiu trabalhar. Assim como também, em muitas das vezes, acaba por transformá-la ela mesma em uma personagem de si, e adiciona camadas à trama na medida que pode conferir um certo ideal sobre si própria no seu constante olhar passivo.

O seu argumento torna-se válido no momento em que dá lugar de diálogo para aqueles que apresentam as suas ideias sobre deficiência, sexualidade, descobrimento e prazer. O ponto alto fica a cargo de Christian, responsável por apresentar, a quem assiste, suas multicamadas e provar à eles que, por exemplo, também é um ser sexual. O confronto de ideias com o espectador, munido das suas crenças pessoais e limitação em relação a tabus, realmente é uma intenção da realizadora, exemplo disso são as sequências de imagens provocadoras e que geralmente não são vistas em filmes de circuito.

As sequências que passam dentro do clube de BDSM são pontos fulcrais para escolher sair da sala de cinema ou não, ou seja, pode levar o espectador a dois polos antagónicos de prazer e estranheza ao assisti-la.

Todo o seu projeto acaba por ficar nessa dubiedade, seja de interesses pessoais ou definição do que realmente se trata. Pode ser um manifesto sobre a exploração do seu corpo em situações extremas de solidão e raiva, ao mesmo tempo que pode ser sobre a relação entre o ser-humano e o sexo, mais especificamente o sexo a escravizar o ser-humano, e ainda uma terceira tese, a mais contextualizada de todas, uma senhora de meia-idade em crise com seu próprio corpo.

A aplicação da música neste projeto também dita muito sobre a pretensão do projeto em ser humanizado (em seu sentido mais carnal e animalesco possível). Os sons guturais, gritos, suspiros profundos e a pegada de rock, alinhada com seus cortes abruptos e a sobre-utilização de sintetizadores também confere um ideal de luta interna constante entre aqueles que muitas vezes não sabem o que querem, mas o fazem.

Touch Me Not é um apanhado de ideias sobre sexo e a relação que a sociedade marginalizada - abordado em metonímias - tem com o mesmo, mas que não decide se quer confrontar o espectador com suas imagens, ou quer abraçá-lo com sua voz amena.

Ilana Oliveira



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