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«Double Vies» por André Gonçalves

Léonard (Vincent Macaigne), um escritor da velha guarda (daqueles que não conseguem não escrever sobre a sua própria vida mudando apenas o nome das personagens, sendo que quem conheça as personagens ao vivo em questão não tenha dúvidas sobre "quem é quem") dirige-se ao seu editor de longa data (Guillaume Canet). Os dois discutem inicialmente sobre a iminência do que o formato digital possa ter sobre o físico no que toca mais concretamente ao objeto literário, até um ser forçado a dar uma "tampa" profissional retardada no outro, com a desculpa de que o escritor terá ficado parado no tempo.

A discussão sobre a influência dos novos ecrãs na escrita não fica por aqui, no entanto. É uma discussão que qualquer uma destas personagens do novo filme de Olivier Assayas vai retomando; primeiro, o editor e o escritor, depois a mulher do editor (Juliette Binoche) e a sua amante e nova responsável pelo departamento digital da sua editora, e todo um grupo de amigos que acabam por ser meros figurantes aqui da narrativa.

Primeiro ponto positivo: Assayas, como de costume, não toma um partido, deixa as conversações fluirem até à exaustão sem claramente fazer vencedores e vencidos destes debates intelectuais contínuos - estas são afinal questões socio-culturais (e também, convenhamos, económicas) já com uma certa antiguidade. Vamos deixar de folhear livros para fazer scroll nas páginas num qualquer ecrã digital, por mais pequeno que seja? Qual será o custo para a cultura desta democratização, desta tendência para a gratuitidade das obras? E o que acontecerá aos trabalhadores da linha de montagem tradicional? 

Mas ao contrário dos seus últimos dois filmes, mais a piscar o olho ao público anglo-saxónico e com uma certa dose de sentimentalismo, Double Vies encontra-se ironicamente demasiado preso à sua dissertação verborreica, sempre a piscar o olho para o espectador em modo "meta" (nada de novo para o autor de filmes como Irma Vep e Clouds of Sils Maria), sempre demasiado cerebral para o seu próprio bem. O espectador diverte-se minimamente com esta brincadeira e com as personagens, é certo. Mas este seu tratado, relativamente imparcial mas com alguns anos de atraso (que guarda bitaites como "o twitter possibilitou novos haikus" na manga), que acaba por ganhar papel de protagonista e aprisionar as personagens efetivas (mesmo que elas se revelem adúlteras, mentirosas ou facciosas) não deixa de trazer um certo travo de desilusão, sobretudo vindo após um filme tão fora da rede como foi Personal Shopper...     

 

André Gonçalves



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