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«Capharnaum» (Cafarnaum) por Hugo Gomes

É a pobreza! Não o foco social trazido pela libanesa Nadine Labaki, mas pela “inaptidão” desse mesmo universo sem o uso da exploração e sobreliteração da precariedade, ou melhor aceite, miserabilismo humano. A insólita história de Zain (Zain Alrafeea), um rapaz de 12 anos que tem o ousado ato de processar os seus próprios pais, pelo facto destes terem lhe dado vida, é o gancho viável para uma entrada nos bairros pobres de Beirute onde o futuro risonho se encontra no exodus promovido.

Logo nos primeiros minutos nesta realidade comunitária e social, Capharnaum (que signiffica caos) cede ao slow-motion para enfatizar ainda mais o conceito de pobreza, o que não é um bom sinal no requerer a sobriedade no olhar. A partir daí o filme entra em territórios comuns transportadas para outros standards, desde os ecos de Slumdog Millionaire, no que refere às jornadas quase episódicas por entra a degradação humana e pela força de uma criança, impotente sublinhamos, mas convicta das suas determinações. Capharnaum tende em melhorar quando Zain descobre o seu “parceiro de viagem”, o pequeno Rahil (Yordanos Shifera), e assim adiante lançam-se em derivações de subsistência, impagáveis e movidos num teor quase vagabundo de Les Quatre Cents Coups (Os Quatrocentos Golpes), de Truffaut, e de registo antropológico de Little Fugitive, de Ray Ashley e Morris Engel. Sim, Capharnaum comporta-se como outra variação da infância negada e dos pequenos rebeldes sem causa, sendo que neste último, o “rebeldezinho” tem a sua … aliás, é então que refletimos essa negação da sua mesma causa.

Labaki utilizou o processo como dispositivo de penetração a um biótopo, esquecendo por vezes que é nessa atenção inicial que o espectador espera pela satisfação. E quase queremos pedir à realizadora e atriz, que depois daquela encenação dentro da encenação (Zain conta e replica a sua história como ninguém), porque não voltar ao absurdismo (que não é tão absurdo assim) daquela plataforma jurídica, ao invés de contermos com uma extraordinária história anexada a um fetiche quase prazeroso da pobreza.

Há boas intenções por aqui, isso sem duvida, mas existe muita manipulação do foro sentimental, garantido pelas partidas visuais e de edição geridas pela nossa cineasta. 

Hugo Gomes



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