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«Las Herederas» por Jorge Pereira

São cada vez mais raros os filmes que abordam a vida, o amor e a sexualidade nas mulheres com mais de 50 anos. Se o cinema norte-americano praticamente desistiu disso, numa espécie de ditadura de se focar em levar adolescentes e jovens adultos à salas, na Europa, e particularmente em França, as abordagens a cinquentonas ultimamente vêm associadas a recentes divórcios e são tratadas como comédias de autoajuda para garantir o box-office e algumas gargalhadas (Coucou Alexandra Lamy, Karin Viard e Miou-Miou).

Seguindo de certa forma os passos de Gloria do chileno Sebastián Lelio, o paraguaio Marcelo Martinessi acompanha neste seu Las Herederas a história de Chela (Ana Brun), uma mulher que vê a sua companheira de longa data, Chiquita (Margarita Irun), detida por fraude. As suas vidas outrora pacíficas e folgadas já tinham levado um abanão quando começaram a ter de vender o seu espólio para sobreviver, porém, agora, com Chiquita na cadeia, Chela é forçada a novas rotinas, novos hábitos e a viver a sua vida como nunca o fez: sozinha.

O retrato de Chela é feito com uma enorme candura por Marinessi, revelando-a uma pessoa doce e complacente, um pouco diferente de Chiquita, facilmente descrita como a mais dominante e pragmática, aquela que geriu as suas vidas até então. Paralelamente a esta viagem ao íntimo de Chela, o cineasta vai traçando uma crítica ao sistema judicial (dívidas transformadas em fraude) e uma ácida sátira social ao mundo desta mulher, o de mulheres burguesas nostálgicas que a usam agora como o seu táxi pessoal. Nelas destaca-se a soberba Pituca (María Martins), aquela que propicia os melhores momentos de humor, e a sensual Angy (Ana Ivanova), que vai abanar emocionalmente e sexualmente Chela com a sua chegada, fazendo todas elas entender que Chela tem muito mais potencial e é muito mais desejada do que alguma vez o pensou.

Um belo primeiro trabalho de Marcelo Martinessi nas longas-metragens, convenientemente premiado em Berlim com o prémio Alfred Bauer, onde é ainda de destacar o cuidado na direção de arte e na cinematografia, que frequentemente enclausuram a nossa Chela ao seu passado e à sua transição para um novo fôlego e rumo.


Jorge Pereira



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