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«La Prière» (Não Deixeis Cair Em Tentação) por Hugo Gomes

Nos dias que decorrem, onde os extremos ditam o nosso quotidiano, a temática religiosa leva-nos a dois exemplos possíveis: a denúncia/crítica ou ao propagandismo. Com La Prière, a posição encontra-se mais neutral do que o pressuposto.

Tendo conquistado o Prémio de interpretação no Festival de Berlim, o filme de Cédric Kahn (L’Ennui, Vie Sauvage) leva-nos ao desespero de Thomas, que para reabilitar-se, livrando dos seus vícios mortais, entrega-se por completo a uma comunidade religiosa, isolada nas montanhas e de costumes quase franciscanos. Aí, o jovem terá que lidar com os seus demónios interiores, erguendo a “espada” e bravamente os enfrentar até não restar mais nenhum dos nosferatu. Porém, com a superação vem a solidão, a infelicidade ocultada que Thomas encara como um novo inimigo.

Para o espectador, há que tomar atenção ao uso da palavra “superação”. Não estamos perante a enésima história da carochinha onde a chegada do objetivo nos guia por trilhos previsíveis e chorosos. Em La Prière, as lágrimas são bem-vindas, mas o filme contraria a tendência e aposta sobretudo numa descida ao intimo do seu protagonista. Essa condução é feita por passagens de um quotidiano forçado, equiparado ao celibato espiritual. No seu interior, enquanto filme, Kahn espelha um feito da religião cristã, extraído desse circulo as suas doutrinas ancestrais, as moralidades hoje esquecidas perante fanatismos, os ensinamentos nazarenos que assumem como éticas universais.

Sim, é uma obra que elogia o papel do cristianismo, como fortalecedor do espirito e da solidariedade em retirar os seus cordeiros da decadência. Tudo isto sem ceder à propaganda tão imposta por um certo cinema hollywoodeano e arredores. No seu otimismo, La Prière é uma obra rara e com isso delicada, mesmo possuindo uma linguagem que tenta transcender as barreiras do documental (o filme tende em seguir o registo de confessionário) e a ficção bressoneana (este tema pede isso).

Mas onde Cédric Kahn acerta na bendita oração é no seu protagonista, o seu Thomas, aqui o jovem Anthony Bajon, um Antoine clerical (mencionando os óbvios ecos de truffautianos de Quatre Cent Coups (Os quatrocentos golpes) e da curta-sequela Antoine et Colette), uma força miraculosa que contagia toda a narrativa e execução. O prémio na Alemanha não foi por acaso, diga-se por passagem.

Hugo Gomes



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